No início de 2025, a Prefeitura de São Paulo introduziu um novo costume entre os paulistanos: receber alertas de chuva no celular, informando sobre possíveis áreas de risco. Mas os moradores do bairro do Limão, na zona norte de São Paulo, já estavam acostumados em buscar novas rotas nos dias de chuva.
O bairro possui diversos pontos de alagamento, que deixam ruas inundadas – por horas ou durante uma noite inteira – prejudicando a mobilidade, o comércio e a vida cotidiana dos mais de 82 mil habitantes do distrito, segundo o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Enquanto o problema é um velho conhecido dos moradores, as soluções demoram a chegar. No início de 2023, a Prefeitura de São Paulo anunciou um investimento de R$44 milhões, por meio da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras (SIURB), para a implantação de uma nova rede de drenagem no bairro.
Avenida Antônio Munhoz Bonilha alagada nestes dias de chuva @Arquivo pessoal/Divulgação
Em março de 2025, a prefeitura afirmou ter concluído a obra, mas o sistema de escoamento de águas pluviais segue ineficiente para suportar o volume de chuva que atinge a região – agravado pelo assoreamento de córregos.
Tanto que entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 o bairro voltou a sofrer com alagamentos. Após chuvas fortes nos dias 29/12 e 13/01, a Avenida Antônio Munhoz Bonilha inundou e ficou intransitável em diversos pontos, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Prefeitura de São Paulo (CGE).
Para Marcelo Leal Cardoso, 50, comerciante na Lanchonete Nova Canaã, na Avenida Nossa Senhora do Ó, a obra não trouxe resultados. “Não adiantou de nada. A água chega a bater um metro e meio. Assim que ameaça chover, a CET aparece e fica pelas redondezas para poder fechar a Avenida Antônio Munhoz Bonilha”, relata.
Os alagamentos afetam severamente a mobilidade da região. Ruas se tornam intransitáveis, gerando engarrafamentos e dificultando o transporte público. Em dias de chuva, as linhas de ônibus 9191-10 (Jd. Elisa Maria) e 9789-10 (Jd. Paulistano) são desviadas da Avenida Nossa Senhora do Ó e da Avenida Antônio Munhoz Bonilha. Os moradores têm que buscar rotas alternativas para chegar em casa.
Pastelaria ‘Ale pastel e caldo de cana’ ficou alagada por 3 horas @Alexandre de Barros/ Divulgação
O comerciante, Alexandre de Barros, 54, que vive há cinco anos próximo ao maior ponto de alagamento do bairro, a Avenida Antônio Munhoz Bonilha, afirma que perdeu cerca de 70% da clientela durante a execução da obra de drenagem. Ainda hoje, ao menor sinal de chuva, ele precisa fechar o estabelecimento.
‘Não tem o que fazer. Precisamos mandar os clientes embora. Se chove, já tenho que tirar o carro. A obra não adiantou de nada’
Alexandre de Barros, comerciante
Medo constante
A situação do bairro do Limão reflete as dificuldades enfrentadas em diversos distritos da cidade devido à falta de infraestrutura adequada. Especialistas concordam que os alagamentos evidenciam a carência de um planejamento urbano mais eficaz.
O casal de moradores Antônio Júnior, 45, e Francisca Veracruz, 40, costuma ficar em casa nos horários mais comuns das chuvas de verão – no final da tarde. A casa deles fica em um ponto mais elevado do bairro e não é diretamente atingida pelas enchentes, mas a filha do casal enfrenta dificuldades no deslocamento ao retornar da faculdade ou da academia.
“Ela já chegou com o pé e a calça encharcados, atravessou no meio da água para chegar em casa e se culpou por ter vindo pelo caminho que escolheu. Mas vai fazer o que?” disse Francisca. Já seu marido, Antônio, avalia que a água escoa mais rápido após as obras de drenagem, apesar dos alagamentos continuarem ocorrendo.
Em nota, a prefeitura informou que apenas a primeira etapa das obras de drenagem na Av. Munhoz Bonilha foi concluída, em dezembro de 2025. A segunda etapa dos trabalhos já está em andamento e será concluída em novembro de 2026, com previsão de construção de novas galerias na Av. Nossa Senhora do Ó, Av. Antônio Munhoz Bonilha e nas ruas Bartholomeu do Canto e João Librina.
A ideia é direcionar o fluxo de água para o Córrego Cabuçu de Baixo. O projeto contempla, ainda, a execução de obras de microdrenagem na Av. Nossa Senhora, auxiliando assim o escoamento das águas superficiais.
Quanto à manutenção, a Subprefeitura Casa Verde, responsável pela área, informou que realiza a limpeza de bueiros e galerias, mantendo equipes de hidrojato [técnica de limpeza que utiliza água em alta pressão para desobstruir tubulações] em operação 24 horas. As ações são executadas tanto sob demanda quanto de forma preventiva, com atenção especial às áreas mais críticas.

