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Conheça Joseph Rodriguez, multiartista trans do Grajaú que acaba de lançar primeiro trap

No Próximo Parada desta quarta-feira (21) ouça a história de Joseph. Ele quer mudar a cena do hip hop trazendo narrativas de corpos trans e pretos

O Grajaú, distrito da zona sul de São Paulo, é um dos pólos culturais mais potentes. Foi de lá que saíram nomes como Criolo, por exemplo. E é de lá que Joseph Rodriguez, 28, quer mudar a realidade da cena do hip hop.

Joseph Rodriguez, 28, lança “Nóis no submundo” | Divulgacão

Há pelo menos 10 anos no hip hop, Joseph canta, produz, é DJ e modelo. Se você viu uma campanha de absorventes sem gênero passando pela sua timeline no Instagram, você viu Joseph. 

Agora ele lançou o primeiro trap, subgênero do hip hop que tem linguagem periférica e preta, que fala sobre um romance de corpos trans negros e periféricos em ascensão.

“Sempre fui do movimento hip hop, de dançar break e fazer grafite. Sempre estava envolvido com a pretitude da quebrada. Essa linguagem veio naturalmente na minha vida”, conta.

Joseph perdeu o pai muito cedo e nesse período a arte o acolheu. Ele frequentava muitos shows e viradas culturais, mas foi na igreja que vivenciou pela primeira vez o lugar dele na música. “A música para mim é uma manifestação ancestral.”

Para ele, lançar um trap “que é meio funk” é um resgate da periferia para a periferia. “É para as pessoas negras entenderem que eu, enquanto corpo trans e negro racializado, posso estar nesse lugar e falando desses corpos no submundo, falando sobre o que a gente sonha nas relações”.

“Nóis no submundo” foi produzida em conjunto com Doug Beat e, para Joseph, tem um significado potente: “Nós temos muitos traps, mas lançados por homens cis, com a narrativa deles. E aí eu trouxe a minha narrativa para mostrar esse lugar de querer uma ascensão, esse lugar de sonho e de encontro.”

Sem representatividade, se tornar quem é hoje não foi uma tarefa fácil para Joseph. “Ser trans é um portal infinito. Não é sobre hormônios, é sobre acessar o que está aqui dentro. E é difícil isso”, explica. Demorei muito para construir isso porque se autor tomar é uma parada difícil. Não é só sobre a gente: um dia vamos morrer e a nossa história vai ficar aí na rede. Isso é apenas o começo”, diz.

Para ele, porém, a visibilidade pela visibilidade não é interessante. “Temos que mostrar que existimos não só por mostrar. Visibilidade é uma comida no meu prato”, define. “É importante mostrar que a gente é diverso, não colocar o homem trans e o transmasculino em uma cápsula. Nossos corpos existem para ser cada vez mais libertos.”

As inspirações de Joseph para fazer música são das experiências diárias dele. Tenho muito tempo de existência humana, mas não tenho muito tempo de Joseph. O Joseph já vem com autoestima, é um cara que tenta se cuidar, cuida do cabelo, tem todo um outro rolê que me era negado. Eu componho a partir dessa vivência”, completa.

Confira o papo completo no nosso podcast:

PRÓXIMA PARADA

Parceria entre a Agência Mural e o Spotify, o Próxima Parada conta com a colaboração de jornalistas vindos dos bairros periféricos da Grande São Paulo. Para ouvir o episódio, basta clicar no link do programa e se cadastrar gratuitamente no aplicativo.

De segunda a sexta-feira, sempre no final da tarde, Ana Beatriz Felicio e Rômulo Cabrera contam histórias, analisam fatos e apontam possíveis soluções para as demandas das quebradas. A produção é de Gabriela Carvalho, com edição de som de Pammela Gentil e coordenação de Vagner de Alencar.

Caê Vasconcelos

Homem trans, jornalista, correspondente de Vila Nova Cachoeirinha desde 2017. É corintiano e apaixonado pela cultura hip hop. É autor do livro-reportagem "Transresistência: Pessoas trans no mercado de trabalho" (Dita Livros, 2021) e repórter especializado na editora LGBT+.

Vila Nova Cachoeirinha , São Paulo

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