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Como quadrinhos sobre atendimentos ginecológicos transformam dor em denúncia

Por: Livia Alves

Em janeiro de 2025, recebi uma mensagem de Lua Mota, a quem conheço há alguns anos. “Você topa entrevistar 10 pessoas para minha próxima HQ?”. Já dividimos projetos como vídeos, debates e ativismos, entre eles a escrita do ‘Manifesto Pansexual’ e produções audiovisuais que buscavam explicar a pansexualidade para além dos rótulos. Mas este projeto mudou completamente o rumo do meu ano.

As entrevistas seriam com pessoas que haviam sofrido violência ginecológica. Antes mesmo de refletir sobre minha capacidade emocional para atravessar esse processo, respondi “sim”. Foi assim que começamos a desenvolver o livro “Querido Gineco”.

A HQ transforma experiências individuais em denúncia coletiva. Algumas narraram experiências marcadas por violências psicológicas, sociais e sexuais, descritas em detalhes difíceis de absorver. Os casos retratados atravessam tanto o SUS (Sistema Único de Saúde) quanto da rede privada.

Durante a sessão de autógrafos, Lua conversou com cada um dos convidados presentes @Livia Alves/Agência Mural

‘O assunto ginecologista sempre esteve comigo, desde que soube que precisava me consultar pela primeira vez. Sempre foi um peso, afinal todas minhas experiências tiveram algo desconfortável, preconceituoso, beirado o assédio e importunação’

Lua, artista

Lua Mota, que também assina como ‘LittleGoat‘, é artista e ativista pansexual, cria do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Atualmente vive na região do Jaraguá Taipas, na zona noroeste de São Paulo. Pessoa não-binárie, Lua atende pelos pronomes femininos e neutros, como elu.

No início, Querido Gineco não tinha o formato de história em quadrinhos. Era uma ideia menor, pensada como um bate-papo ou um zine, construída a partir de experiências pessoais e conversas com pessoas próximas. Mas, como o próprio processo revelou, isso não seria suficiente para dar conta da dimensão do problema.

HQ acompanha um pôster que segue o estilo do SUS sobre como combater e denunciar a violência nos consultórios @Livia Alves/Agência Mural

A virada aconteceu após o aniversário de 25 anos de Lua, quando teve, pela primeira vez, um atendimento ginecológico respeitoso. “Perceber que aquele era o atendimento correto que todes deveriam ter no consultório ginecológico acendeu uma chama de ódio e choque.”

Escuta e entendimento

Durante o processo, questionei porque o recorte trans está tão presente na obra. A resposta veio nas conversas com profissionais da saúde que sequer sabiam que pessoas trans precisam de ginecologista. Muitas ainda têm atendimentos negados.

No primeiro relato eu entendi que não eram histórias sendo contadas, mas vivências que essas fontes, ou melhor, vítimas, tiveram de passar mais de uma vez.

Uma das pessoas revelou durante a entrevista que está há 10 anos sem ir ao médico. Ela sofreu uma violência sexual e foi desmotivada por outra médica a denunciar porque não era a primeira vez que o ginecologista fazia isso [assediar uma paciente menor de idade] e as denuncias eram ‘jogadas embaixo do tapete’.

Essa fonte recebeu atendimento psicológico que foi fornecido gratuitamente por uma psicóloga voluntária do projeto Querido Gineco. Meses após me passar o relato, recebi uma mensagem simples que me fez soltar um suspiro de alívio, “consegui ir ao médico com alguém me acompanhando.”

As entrevistas foram por chamada de vídeo. Muitas vezes, elas gesticulavam com as mãos para demonstrar a extensão dos objetos e toques que fizeram parte de suas consultas traumáticas, tudo para que eu entendesse a dimensão do ocorrido.

Nick Pastorini Torres, 18, estudante em Pelotas (RS) é uma dessas pessoas. Elu forneceu um dos poucos depoimentos da obra que optou por não permanecer no anonimato.

Lua com o livro em HQ no dia do lançamento @Livia Alves/Agência Mural

Pessoa trans não-binárie, PCD e LGBTQIAP+, Nick acompanha o trabalho de Lua desde 2021 e relata que as produções da artista atravessaram o processo de descoberta e autoaceitação.

“Foi dolorido porque os relatos escancaram a violência de forma nua e crua, mas também foi lindo perceber que não estou sozinhe na dor e na luta”, afirma Nick, que classifica a experiência de dividir a própria história “confuso e intenso”.

Violência ginecológica como questão pública

Desde o início, o desejo era alcançar o público geral, circular para além da bolha artística e fazer parte do cotidiano de pessoas que precisam, necessariamente, desse atendimento.

Em uma das muitas conversas que tive com Lua ao longo de 2025, falamos diversas vezes sobre a importância de levar “Querido Gineco” para bibliotecas, centros de atendimento LGBTQIAP+ e, principalmente, para o SUS.

“Fazer a HQ chegar em bibliotecas públicas e de alguma forma no SUS é ampliar a discussão para além da comunidade dos quadrinhos, é tornar o assunto de discussão universal, acessível para academia médica geral e para pessoas comuns, para trabalhadores gerais, sem distinção de idade, classe social ou econômica.”

Para Lua, o tema não é de nicho. “Violência médica, sobretudo ginecológica que é o tema da HQ, é de caráter urgente e interesse da sociedade.”

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