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Mulheres negras buscam espaço e se dividem sobre cota financeira nas campanhas

Por: Katia Flora e Raquel Porto

Negra e mãe solo, a assistente social Maria Cristina Silva, 57, mais conhecida como Tina do Acarajé, é uma das candidatas estreantes nas eleições de 2020. Moradora do bairro Planalto, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, ela desenvolve atividades sociais na região há 32 anos.

Uma das primeiras ações foi na adolescência, quando Maria começou um trabalho voluntário junto à Sociedade Amigos do Bairro para montar uma biblioteca na escola onde estudava. “Sempre estive envolvida nas causas sociais”, diz. 

Neste ano, a candidatura dela é pelo PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) com o slogan “Força da mulher negra”. A exemplo dela, no Grande ABC, o número de candidatos negros teve um aumento de cerca de 35%, de acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). 

Maria diz que sua campanha é independente de ‘cotas’, com pouco recurso e com equipe voluntária na entrega de santinhos e carros de som. Com o distanciamento social, a candidata tem focado em apresentar projetos nas redes sociais. “Sou negra e vou deixar minha marca, além de mostrar porque eu vim”, comenta.

Tina do Acarajé disputa pelo PSDB em São Bernardo do Campo @Divulgação

A distribuição igualitária de dinheiro do financiamento público de campanha para as candidaturas negras dividem concorrentes que disputam a eleição deste ano na Grande São Paulo.

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski, antecipou a decisão do TSE que obriga os partidos a destinar recursos do fundo eleitoral de maneira proporcional à quantidade de mulheres negras e brancas e homens negros e brancos.

Na disputa por uma cadeira no legislativo no município de Santo André, também na Grande São Paulo, a candidatura coletiva do Quilombo Dandara é outro exemplo da presença de mulheres negras na corrida eleitoral. Segundo a chapa, o nome veio por causa da guerreira Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares. 

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Composto por Haínra Asabi, Elly Bayó, Amanda Felipe e Luana Caruso, o coletivo concorre a uma vaga pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Haínra, mulher trans, foi escolhida para ter o nome nas urnas – a chamada “cabeça de chapa”.

Moradora de Santo André, Haínra é professora do ensino médio e leciona em escolas estaduais nas periferias do município. “Meu corpo é político, tenho uma postura firme, mas é sempre um desafio ser uma professora LGBTQIA+”, pontua.

Ela se apresenta favorável à distribuição proporcional de dinheiro para ajudar na campanha de negros nos partidos, mas ressalta que teve poucos recursos. Segundo a candidata, o grupo recebeu cerca de R$ 5 mil. “É pouco para fazer a campanha com santinhos e ter equipe nas ruas. Estamos com vaquinha online desde o começo da campanha eleitoral”.

Hainra Asabi (centro) é uma das integrantes da mandata coletiva Quilombo Dandara, em Santo André @Divulgação

Diferentemente das outras candidatas, a advogada Suely Nogueira, 64, quer manter o legado de vereadora mais votada de São Caetano do Sul. Ela está na disputa pelo quarto mandato no município, que tem 19 cadeiras para vereador.

Em 1996, foi eleita com 2.278 votos. Na eleição de 2016, então no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), recebeu 1.881. “Não venho de famílias com políticos. Quando fui eleita pela primeira vez em 1996, fazia 50 anos que a cidade não tinha um vereador negro”, comenta

Suely Nogueira (Podemos) vai disputar o quarto mandato, em São Caetano do Sul @Divulgação

A candidata concorre atualmente pelo Podemos e se diz contra as cotas. Funcionária pública desde 1979, a advogada argumenta que não precisou de cotas para conseguir o espaço.

“Muitos negros não aprovam meu posicionamento sobre cotas em São Caetano. Não precisei delas, sou candidata e vou à luta buscar votos para o partido”. Com o distanciamento social e a pandemia do coronavírus, Suely tem usado as redes sociais para a divulgação da campanha.

NA CAPITAL

De acordo com os dados do TSE, na cidade de São Paulo houve um aumento de candidatos autodeclarados negros neste ano, se comparado às eleições de 2016. Em 2020, são 765 candidatos, 38% a mais que os 393 de 2016.

No entanto, pesquisadores apontam que, com essa decisão, surgiram candidatos que se autodeclaram negros e pardos, mas são reconhecidos como brancos. Segundo o GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa), na cidade de São Paulo, a porcentagem foi de 10,7% entre todos os candidatos.

O grupo responsável pelo estudo ressalta que os resultados indicam a proporção de casos em que candidatos autodeclarados como pretos e pardos foram percebidos como brancos por mais de 70% dos classificadores recrutados pela pesquisa.

Os pesquisadores indicam que, embora essa classificação não confirme que as candidaturas sejam nacionalmente percebidas como brancos, ela sugere a existência de possíveis casos de discordância entre a autoclassificação de cor e raça.

Coletivo Juntas tenta se eleger na capital @Divulgação

Na disputa pela primeira vez em uma eleição, o coletivo Juntas – Mulheres Sem Teto concorre na Câmara de Vereadores pelo PSOL.

O grupo é composto por três mulheres negras e moradoras das periferias de São Paulo, nas zonas norte, sul e leste: Jussara Barroso, 45, uma das fundadoras do Coletivo de Mulheres do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto); Valdirene Cardoso, a Tuca, 47, moradora de Itaquera e integrante da ocupação Copa do Povo; e a professora Débora Lima, 33, fundadora do Coletivo LGBT Sem Teto.

O que poderia ser a maior dificuldade atual para a disputa, que é adaptar a campanha para um momento de pandemia, elas dizem que levam com naturalidade, já que, desde o começo da crise sanitária por causa do coronavírus, estavam nas ruas fazendo trabalhos para ajudar os moradores das periferias.

Entre as pautas pensadas pelo trio, está a construção de moradias por meio de mutirões – projetos em bairros de baixa renda onde quem construía as moradias eram os futuros moradores com os recursos municipais, algo que foi uma das prioridades da gestão Luiza Erundina (1989-1992) na Prefeitura de São Paulo.

“A mulher da periferia, a mulher negra, é dependente financeiramente e, na maioria das vezes, de um homem violento. A sociedade não garante a ela reformas para a sua própria autonomia, de forma que ela se emancipe”, pontua Jussara.

Ela também acha importante reaver o orçamento destinado às políticas para as mulheres e cita outros pontos. 

Defende que as escrituras das casas de moradias populares sejam assinadas no nome delas; um lugar seguro para deixar os filhos quando forem trabalhar; atendimento itinerante para  denúncias de violência e  atendimento psicológico, social, jurídico e médico nestes casos.

Valdirene explica que o enfrentamento do racismo ambiental investindo no saneamento básico é uma das prioridades, caso sejam eleitas. 

“Muitos questionamentos que as pessoas fazem é ‘a gente paga pela água e pelo esgoto. Mas para a gente não tem nada de esgoto tratado’. Tem pessoas que moram à beira do córrego, pagam pelo esgoto e vivem ao lado de algo não canalizado”.

Para Débora, falta representatividade entre os parlamentares eleitos. “Isso na política é algo muito forte. Numa Câmara Municipal com 55 vereadores, 7 mulheres e nenhuma delas negra. Essa foi a indagação que nos uniu”.

Para elas, a distribuição de mais recursos pode resultar em mudanças positivas para os negros e espera mais representantes na Câmara Municipal. Também sentem que renderá frutos para os próximos anos. “A gente vai lutar e a nossa forma de luta é do movimento de base, que a esquerda abandonou no último período e deixou que as bases estivessem à própria sorte.”

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