O post Entre rimas e memórias: idosos mudam sentido da velhice por meio da poesia apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>Entre os frequentadores está José Pereira, 74, mais conhecido como Lima Limão. Ele se diverte com o fato de ser o único homem em um grupo composto por 17 mulheres. Quando chamado, não hesita, levanta e faz a apresentação:
“Sou Lima, Limão, mais limão que lima. Mecânico, metroviário, especializado e aposentado, que saiu dos trilhos, mas não perdeu a linha. Escrevo palavras atropeladas”.

José Pereira segura duas coletâneas de poesias que participou: “Meus Versos de Criança” e “A Rua dos Versos” @Danielle Lobato/Agência Mural
Desde os tempos de metroviário, José gostava de escrever. Via na rotina do dia a dia sua inspiração, mas não imaginava que esse amor e talento iriam tão longe, a ponto de contribuir com duas coletâneas de poesias: “Meus Versos de Criança” e “A Rua dos Versos”. Além disso, passou a se apresentar em outros espaços culturais, feiras literárias e até receber cachês com suas poesias.
Foi por meio da esposa que conheceu o grupo, e desde então, há cinco anos, participa ativamente dos encontros. Sempre ao lado dela, compartilha o talento, encontra um refúgio e faz novas amizades. As poesias de José, que já ultrapassam 200 criações, falam de amor, saudade, natureza e questões sociais, além de serem homenagens aos filhos e às próprias memórias.
O sarau integra o Projeto Continuar, iniciativa de Jeane Silva, 48, moradora do Jardim Coimbra, produtora cultural e especialista em envelhecimento.
Criado em 2015, a iniciativa surgiu quando Jeane percebeu que os eventos da região eram compostos majoritariamente por jovens e se perguntou: “Por que não criar um e convidar os idosos para participar também?”.

Integrantes do Sarau do Projeto Continuar @Danielle Lobato/Agência Mural
O projeto busca dar visibilidade à produção literária de idosos, um público frequentemente marginalizado nas ações culturais. “A maioria dos editais e eventos são voltados para jovens. Falta reconhecimento para escritores com mais de 60 anos”, destaca Jeane.
A falta de financiamento e de um espaço físico fixo são alguns dos desafios enfrentados pelo projeto. Apesar dessas dificuldades, a iniciativa continua revelando talentos como Maria da Conceição, 73, autora de dois livros e participante do NCI (Núcleo de Convivência do Idoso).
Antes de ingressar no grupo, Maria não tinha histórico de escrita, mas encontrou na poesia um novo caminho para expressar sentimentos e memórias, abordando temas como amor, envelhecimento e até poesia erótica.
Moradora do Jardim Pantanal, Maria ressalta a escassez de espaços culturais acessíveis para idosos. Foi por meio do grupo que teve o primeiro contato com a poesia, experiência que transformou sua vida. Desde então, publicou duas obras: “Sublime aos 70 – Versos, Prosas e Amor”, com homenagens à família, e “Enquanto Envelheço… Amo e Escrevo”, que traz diversas reflexões e memórias pessoais.

Maria da Conceição segura com sua obra Sublime aos 70 – Versos, Prosas e Amor” que homenageia à família. @Danielle Lobato/Agência Mural
Antes de se dedicar à escrita, Maria não imaginava que guardava tantos versos dentro de si. Hoje, acumula cerca de 200 poesias e se aventura também nos contos. O primeiro texto neste formato foi escrito dentro de um ônibus, logo após sair de um encontro do grupo. “Eu viajo na imaginação”, afirma.
Como prova da conexão com a literatura, Maria traduz a trajetória em versos:
“Saindo do Maranhão, com pouca experiência, vim para São Paulo, sem medir consequência
Hoje sou uma senhora idosa, com muito orgulho e muita prosa
Morando na zona leste, onde tudo acontece, Moro em São Miguel Paulista, onde criei meus filhos
Todos eles são nobres e obtiveram grandes conquistas…
Maria da Conceição, do Sarau do Projeto Continuar
Atualmente, os encontros do sarau são feitos online e, ocasionalmente, de forma presencial. Para mais informações sobre a programação e participação, basta acessar a página do Projeto Continuar no Facebook e no Instagram.
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]]>O post Estudante de São Miguel Paulista é selecionada para conferência acadêmica nos EUA apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>Deborah foi uma das sete brasileiras selecionadas na Naimun (North American Invitational Model United Nations), promovida pela Georgetown University, em Washington, D.C., EUA.
A conferência reúne jovens de diversos países para debater questões globais e simular o trabalho de diplomatas. Ela foi selecionada pelo Instituto Olympus MUN.

Deborah, captando imagens para o documentário sobre a Luta pela Educação na Zona Leste @Arquivo pessoal/Divulgação
A jovem, que começou estudando em escola pública, na Emef Presidente Epitácio Pessoa, ingressou no Instituto Federal de São Miguel Paulista aos 15 anos e ampliou o conhecimento acadêmico e social. Além disso, ela aponta músicas como dos Racionais MC’s e a própria família como ponto de partida para entender as desigualdades.
‘Minha mãe, que trabalhou muitos anos como agente comunitária de saúde, sempre me apoiou e reforçou a importância da educação. O trabalho dela foi fundamental para que eu entendesse as questões sociais ao meu redor’
Deborah Vitória, estudante
O Mapa da Desigualdade 2022 aponta que São Miguel Paulista tem um dos menores índices de infraestrutura digital da cidade e poucos espaços culturais. A falta de investimentos impacta diretamente a juventude local, que representa 43,2% da população do distrito.
Outro desafio significativo é a distância dos centros culturais, eventos e espaços de formação. “É algo muito desanimador”, cita Deborah. A estudante, por exemplo, conseguiu participar de atividades pela internet que ajudaram a buscar uma vaga nesse programa.

A estudante junto com a equipe que organizou a Mostra de Cinema ‘Elas Por Elas’, do projeto Cine das Minas @Arquivo pessoal/Divulgação
Com o desejo de cursar Relações Públicas no exterior, ela participou de uma simulação da ONU (Organizações das Nações Unidas) em 2023, o que a aproximou de iniciativas voltadas ao ativismo social.
“A maioria das atividades extracurriculares e simulações da ONU que participo são online. Quando há oportunidades presenciais, na maioria das vezes, são muito distantes de casa e ainda pagas”, relata a estudante.
Uma das organizações com a qual teve contato foi a Girl Up Brasil, ligada à ONU. “Participei de reuniões para aprender a desempenhar uma liderança positiva na minha região, campanhas para incentivar o voto jovem, conscientizar sobre as mulheres na política.”
Também integrou um grupo de discussão sobre saúde feminina no C20 (Civil Society 20), que é um grupo de engajamento da sociedade civil no G20 (Grupo das 20 maiores economias do mundo).
A ida à NAIMUN exige um planejamento financeiro detalhado. Para viabilizar a participação, ela lançou uma campanha de arrecadação virtual para cobrir despesas como passagem aérea, alimentação e hospedagem.
Deborah mobilizou a rede de contatos, usando sua experiência com projetos sociais para ampliar o alcance da campanha.
“O meu principal desafio no momento são os custos. Como esses valores precisam ser convertidos para dólares, consequentemente, ficam mais altos. Faltam R$ 6.000, que é o equivalente a aproximadamente $1.000”, diz Deborah.
Representar a comunidade no evento é um desafio e uma conquista. Para ela, o encontro reforça que a educação pode abrir portas, independentemente da origem social.
Para ela, fortalecer a educação pública e ampliar programas como o “Pé de Meia” e os Institutos Federais são passos essenciais para garantir oportunidades reais a jovens das periferias. “Quero mostrar que, mesmo vindo de escola pública e baixa renda, podemos alcançar oportunidades por meio da educação”, afirma a estudante.
Interessados em apoiar podem contribuir pelos seguintes canais:
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]]>O post Costurando saberes: professora transforma oficina de costura em sala de aula na zona leste apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>Por lá, a queixa mais frequente dos pais é a dificuldade no processo de alfabetização dos filhos. “Muitos não sabem ler e nem escrever ou tem alguma dificuldade na aprendizagem em formar frases, interpretação e até calegrafia”, diz Simone.
Nascida na Bahia, Simone mudou para o Jardim Lapena em 2001 e decidiu continuar dando aulas. “Eu trabalhava com a educação com o magistério, por lá nós chamamos aulas de reforço de banca escolar. Quando cheguei aqui, busquei me especializar e me formei em pedagogia para poder dar aulas em escolas.”

Professora Simone tirando dúvidas dos alunos @Danielle Lobato/Agência Mural
A tarefa de iniciar um negócio de reforço escolar veio com o desafio enfrentado por muitas mulheres: a de conciliar o trabalho com a maternidade. “Para poder trabalhar na creche, eu deixava a minha filha com outras pessoas. Quando planejei engravidar do meu segundo filho, decidi que empreenderia com reforço escolar em casa”, diz Simone.
Para iniciar as aulas, o marketing boca a boca foi e ainda é o responsável por trazer os alunos para a sala de aula da “Tia Simone”, como carinhosamente os estudantes a chamam. Após estruturar a grade curricular, a professora pediu ajuda aos vizinhos e comerciantes locais para indicar o trabalho. As aulas são realizadas às terças, quartas e quintas-feiras, por duas horas cada. Ela cobra R$ 100 por aluno.
A procura cresceu mais após a pandemia de Covid-19, quando as crianças ficaram afastadas das aulas presenciais, por conta das medidas de segurança. As aulas online foram um dos obstáculos para as crianças, em meio à falta de equipamentos e de internet de qualidade. “Muitos pais me procuraram após o período de Covid-19, justamente por conta da defasagem na educação”, destaca Simone.
A pesquisa Resposta Educacional à Pandemia de Covid-19 no Brasil, que contempla toda a educação básica, aponta que no ensino privado, 70,9% das escolas ficaram fechadas no ano letivo de 2020. O número é consideravelmente menor que o da rede pública: 98,4% das escolas federais, 97,5% das municipais e 85,9% das estaduais.
O estudante Ezequiel Ramos, 8, foi uma das crianças afetadas pela pandemia. “Aqui eu tenho mais atenção do que na escola, aprendi a ler e formar palavras, porque a Tia Simone ensina de uma forma mais fácil de entender”, diz Ezequiel que adora ler livros de quadrinhos.
A pandemia também trouxe mudanças significativas na carreira da Simone. Foi nesse período que ela se encontrou com a costura e decidiu iniciar mais um negócio. “Estávamos em quarentena, já não tinha mais a renda do reforço escolar e fiquei pensando o que eu posso fazer em casa para conseguir uma renda?”, relembra.
A solução foi a costura, atividade que a mãe dela exercia. “Apesar de ter crescido vendo a minha mãe costurar, foi apenas na pandemia que busquei me aperfeiçoar. Vi vídeos na internet, fiz modelos de roupas para a família, amigos e vizinhos e assim começou uma nova profissão”, diz a costureira.
Sobre conciliar as duas profissões, Simone afirma que é preciso ter um planejamento e organização. “Nos dias que tem aula, não há costura! Busco me dedicar inteiramente aos meus alunos, seja preparando a aula ou tirando as dúvidas”, destaca Simone, professora e costureira no Jardim Lapena.
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]]>O post Saiba por que e como votar para o Conselho Tutelar apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>Na cidade de São Paulo, 1.246 pessoas disputam as 260 vagas de conselheiros tutelares, segundo a prefeitura de São Paulo.
O cargo foi criado a partir da aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 13 de julho de 1990. A Agência Mural entrevistou duas candidatas da zona leste de São Paulo que dividiram suas experiências, desafios e o dia a dia do pleito eleitoral.
Os Conselhos Tutelares são órgãos autônomos e independentes, que têm a função de garantir a proteção integral dos direitos de crianças e adolescentes. Eles estão presentes em todos os municípios do país.
Incentivada pelos moradores locais, Marleide Rezende, 54, que mora no Jardim Lapena, está concorrendo pela primeira vez à eleição do Conselho Tutelar. No seu dia a dia, ela conversa com os moradores de porta em porta e explica a função do cargo e a sua importância.
“Para muitos, o trabalho do Conselho Tutelar é só para tirar o filho do pai e da mãe, mas não é isso. É seguir um estatuto que fornece atenção à saúde, educação, lazer, cultura e tantos outros direitos garantidos”, diz Marleide.
Atender crianças e adolescentes com direitos violados ou ameaçados;
Promover o encaminhamento de situações aos pais ou responsáveis, mediante termo de responsabilidade;
Prover orientação, apoio e acompanhamento temporários;
Inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente.
No Jardim Helena, a líder comunitária Millene Ferreira, 22, é a candidata mais jovem na região, inspirada pelo exemplo de sua avó, ex-conselheira tutelar, e também pelo trabalho que realiza com 400 famílias no território. Ela conta que a idade é um entrave para alguns eleitores na hora de se apresentar como candidata.
“Acredito que a juventude tem um poder de restauração e mudança, claro, seguindo sempre o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas tendo a consciência de que precisamos de renovação no Conselho Tutelar”, afirma a jovem.

O conselheiro tem o papel de atender crianças e adolescentes com direitos violados @Magno Borges / Agência Mural
Segundo Millene, a sociedade mudou e com isso novos desafios são impostos diariamente a crianças e adolescentes.
“É preciso olhar para novas questões de gênero, raça, território, segurança, lazer, educação e cultura, para garantir o direito das crianças e dos adolescentes”, destaca.
Todo cidadão com mais de 16 anos e título de eleitor regularizado pode ir às urnas para ajudar a escolher os próximos membros do colegiado. O eleitor deve se apresentar no local de votação com um documento de identidade com foto e com o número do título de eleitor e zona eleitoral.
A votação se dará em urnas cedidas pelo Tribunal Regional Eleitoral, com a indicação do nome e respectivo número do candidato.
O voto é sigiloso, feito em uma cabine privativa. Cada eleitor votará apenas uma vez, em um único candidato. A eleição será realizada das 8h às 17h, em escolas e faculdades. A lista com os locais e os candidatos está disponível no site da Prefeitura de São Paulo.
Confira as candidaturas no seu município no site A Eleição do Ano.
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]]>O post Conheça o criador de um pipa malvadão na zona norte de São Paulo apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>O artesão, mais conhecido como Cição, é o criador da “Malvadão Pipas” e possui uma coleção que ultrapassa a marca de 45 designs diferentes.
Os modelos são variados, com pipas de tamanhos entre 60 cm e um metro e meio, que podem ser pedidos diretamente pelo Instagram — o preço pode variar entre R$ 2,50 e R$ 200, dependendo do tamanho e do material escolhido. Cerca de 200 pipas são vendidas por semana, além de linhas e rabiolas.

Pipas vendidas por Cição tem preços que variam de R$ 2,50 a R$ 200 @Arquivo Pessoal
Malvadão também é um personagem que estampa alguns modelos e surgiu por conta de um palhaço que Cição criou para uma antiga marca de acessórios, voltadas para o mundo do skate, a Malacos.
“Descarregava muita linha e a pipa ficava longe. Queria um desenho que desse para ver de longe. E aí, desenhei esse nariz de palhaço no meio, cortei os dois olhos e a boca. Quando terminei, olhei e falei ‘Nossa, esse pipa ficou com cara de Malvadão”, lembra Cição.
Com a primeira produção artesanal em casa, em 2020, Malvadão alcançou destaque nas redes sociais por meio de uma publicação do youtuber Cássio do Relo, que possui 530 mil inscritos. O vídeo mostra uma pipa criada por Cição voando por quase 18 quilômetros.
“Foram 1 milhão de visualizações. A partir daí que explodiu, porque todo mundo queria saber quem fez. A popularidade fez com que eu abrisse uma loja de pipas.”

Cição com as suas obras Malvadão Pipas @Arquivo Pessoal
A conta dele no Instagram reúne mais de 50 mil seguidores. Além dos clientes do território, o artista conta que tem admiradores em todo o mundo, principalmente de brasileiros que moram no exterior.
“A pipa hoje em dia está se tornando um quadro também. Tem gente que compra e põe numa moldura, guarda como uma lembrança porque é um trabalho manual muito bem feito”, explica o vendedor.
“Aqui dentro do território é bem legal também ver pessoas de todas as idades comprando pipas. Me lembra a infância de quando eu era garoto e brincava com pipas”, diz o artista sobre a valorização do negócio.
Quanto ao processo de fabricação, Cição explica que a pipa passa por alguns processos até ser enviado ao cliente, tais como: a elaboração da arte, a escolha dos materiais, a montagem das varetas, a passada de linha na armação e a colagem. Para a confecção e venda, Cição conta com a ajuda de um sócio, Ricardo Alexandre, 48, morador de Vila Maria.
“Empinar pipa é show. É acessível, inclusive para aqueles que têm deficiência. Aos 27 anos fui vítima de uma bala perdida que atingiu a medula espinhal. Infelizmente perdi os movimentos da perna, mas a memória afetiva da infância permaneceu e ainda consigo empinar pipa normalmente”, diz Ricardo.
Atualmente, Cição é também vendedor de roupas no centro de São Paulo e tem planos de crescimento para o Malvadão com o lançamento de uma adega e barbearia.
“Estamos ampliando o nosso espaço, porque percebemos que quem chega para comprar pipas também quer beber água, refrigerante e até aquela breja para curtir a tranquilidade do pipa”, diz o vendedor, que quer ampliar o negócio.
“Outro sonho é se transformar numa marca de roupa. Nós já fazemos camiseta com a estampa de pipa. Estamos confeccionando os bonés. Queremos também uma linha mais voltada para o streetwear.”
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]]>O post Como escolas das periferias de SP têm ensinado sobre justiça climática apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>No lugar dele, são usados elementos recicláveis para a aprendizagem, aulas ao ar livre, vasos de plantas e arbustos.
Por lá, 640 alunos matriculados, na faixa etária de 3 a 6 anos, participam do Projeto Sustentabilidade. Dentro do período escolar, todos os alunos desenvolvem atividades, a começar pela acessibilidade ao jardim, que tem plantações feitas e cuidadas pelas crianças.
Além disso, toda semana elas participam de uma caminhada ecológica pelo território, a fim de saber sobre a história do lugar em que vivem e também refletem a respeito das mudanças urbanas e climáticas. Outra atividade muito comum é a reciclagem, que estimula a criatividade de cada um com a confecção de brinquedos de garrafa PET e papelão.

Professoras do CEI Jardim Lapena I participam de oficinas para ensinar sobre agenda climática @Danielle Lobato / Agência Mural
A escola também se tornou polo de outras ações como a coleta seletiva de óleo de cozinha, horta terapêutica, compostagem e plano alimentar com produtos colhidos da horta orgânica.
Essas experiências começaram em 2021 e foram uma forma de tentar resolver o acúmulo de lixo depositado ao redor da unidade. “Era um problema enfrentado, mas conseguimos reverter isso com informação, ações e também solicitamos à Prefeitura a operação cata-bagulho”, conta Rita Rodrigues, 42, diretora do colégio.
Para buscar mais conhecimento a respeito da agenda climática, as professoras do CEI participaram de oficinas educativas do coletivo de mulheres chamado “Guardiãs”, localizado no Jardim Lapenna, e o Instituto Lixo Zero.

Atividades de reciclagem são realizadas pelos alunos do CEI @Danielle Lobato / Agência Mural
A professora Janete Gonçalves, 48, associa a especialização em contação de histórias com as técnicas de ensino sobre a jardinagem. “Todas as crianças participam do processo de plantação, adubar a terra, conhecer a textura dos alimentos e verduras por meio da contação de história de maneira bem lúdica.”
“Muito se fala sobre o lugar que deixaremos para a nova geração, mas pouco se fala sobre quem deixaremos. A transformação começa de dentro para fora”
Tatiane Lourenço, educadora
Entre os desafios da unidade está o descarte ecologicamente correto das fraldas utilizadas pelos alunos, tema que, segundo a diretora Rita, precisa ser trabalhado na escola.
“Mesmo fazendo a separação do lixo, as fraldas descartáveis levam 600 anos para se decompor. O nosso intuito é fechar uma parceria com uma instituição que recolha as fraldas e transformem em matéria-prima para novos produtos”, conta.
Outra adversidade que atravessa o território e impacta os alunos do Jardim Lapenna são as enchentes. A região que fica próxima ao rio Tietê convive há décadas com o problema, sendo um dos locais mais afetados da cidade. Por lá, houve anos em que as ruas ficaram semanas alagadas.

A diretora relata que muitos alunos já ficaram ilhados em casa ou precisaram usar galochas para transitarem na água. Dentro da temática, as professoras buscam discutir as mudanças climáticas usando o teatro, filmes, desenhos e propondo roda de conversa.
“A escola acaba sendo um refúgio para os alunos. No interior do CEI, não entra água. E mesmo com as casas invadidas pela enchente, muitos responsáveis preferem trazer as crianças para poderem comer, tomar banho e brincar”, relata Rita.
Para ela, seria fundamental a construção de uma nova entrada na escola que evitasse a passagem dos pais e crianças em pontos de alagamentos nos períodos chuvosos.
Quem termina o ensino infantil no CEI tem como colégio mais próximo para seguir os estudos, a escola estadual Pedro Moreira, localizada a 250 metros. Por lá, inspirados no trabalho do CEI Jardim Lapena I, a unidade tem discutido ações em prol do ambiente e como a mudança climática afeta o território.
Desde outubro de 2022, os educadores têm buscado mais informações em oficinas, workshops e encontros para sistematizar o programa de sustentabilidade da unidade. Até o momento já foi realizada a semana de compostagem – que traz o processo de reciclagem do lixo orgânico, transformando em adubo natural.

Aula de compostagem com os alunos da escola estadual Pedro Moreira @Arquivo Pedro Moreira
Além disso, há também um mapeamento e parceria com o coletivo Mulheres do GAU para a introdução de uma horta terapêutica – que são plantações voltadas para o bem-estar físico e mental feitas por alunos.
Wesley Barreto, 15, afirma que as aulas têm sido importantes para compreender os eventos climáticos que acontecem no território. “É bem legal porque cada um pode fazer a sua parte, sendo agente de transformação”, pontua o estudante do 1º ano do ensino médio.
O jovem convive há anos com as enchentes, que atrapalham sua ida até a escola. Para ele, é fundamental que o bairro se una em prol da causa do meio ambiente. “Só conseguiremos isso [políticas públicas] com conhecimento da agenda climática”, finaliza.
“Junto dos alunos podemos buscar soluções para os imensos problemas do bairro”, afirma o vice-diretor Cláudio Fernandes, 42.

Cláudio Fernandes é vice-diretor da escola estadual Pedro Moreira e incentiva as ações de sustentabilidade no espaço @Danielle Lobato / Agência Mural
Ele cita a necessidade de mostrar aos estudantes a importância de cobrar dos órgãos públicos a colocação de lixeiras, serviços de coleta seletiva e cata-bagulho, para reduzir os impactos ambientais.
Na escola estadual Pedro Moreira, a diferença de faixa etária dos alunos é um dos desafios enfrentados para sistematizar uma agenda climática. “Temos estudantes de ensino infantil, fundamental e médio. Por isso, precisamos oferecer o mesmo conteúdo com abordagens diferenciadas”, explica o diretor Cláudio.
O ensino das questões climáticas é amparado pela Lei Nº 9.795, que institui que a educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal.
Na cidade de São Paulo, a Secretaria Municipal de Educação lançou o documento “Educação Ambiental: orientações pedagógicas”, que passa a compor o currículo da cidade. O material contou com a participação de professores e especialistas na área e tem como objetivo ser subsídio em sala de aula para a discussão da agenda climática.
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]]>O post Saúde mental: psicólogas negras reforçam a importância da representatividade em consultórios apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>“Ouvi do Fred que ele não conseguia prestar atenção no que eu estava falando, porque o meu ‘olhar de raiva’. Tipo: “A Sarinha bondosa não existe, essa é a Sarah [má]”, relatou. Esse tipo de situação está longe de ser um fato isolado.
A visualização da pessoa negra como raivosa e agressiva é uma queixa frequente para alguns dos pacientes que chegam até o consultório da Maria Célia Malaquias, 68, moradora do Butantã, zona oeste de São Paulo e autora do livro “Psicodrama e Relações Étnico-Raciais: Diálogos e Reflexões”.
Ela explica que o estereótipo é racista, pois visa o silenciamento da população negra, em especial as mulheres. É quando reações legítimas contra a violência racista são nomeadas como raivosas e agressivas.

Maria Célia é autora do livro “Psicodrama e Relações Étnico-Raciais: Diálogos e Reflexões” @Arquivo Pessoal
A intensidade das respostas são proporcionais aos ataques sofridos e culpabilizar as vítimas é uma das estratégias do racismo estrutural, defende a escritora.
A fim de debater todas as questões vivenciadas pela população negra, a psicóloga criou o primeiro grupo de interlocução e acolhimento em 1988. “Eu, como mulher preta, percebi a necessidade de ter uma troca entre os meus pares”, relembra.
“Os participantes puderam ter um espaço seguro de reaproximação dos afetos positivos entre pessoas negras, de modo a reafirmar a sua negritude. Na época, sem a internet para divulgar o grupo de apoio, contei com a repercussão do boca a boca para alcançar o público”, lembra Maria Célia.
Na atualidade, ela remodelou a iniciativa e criou um grupo de estudo sobre psicodrama e relações raciais – uma abordagem de terapia que usa o teatro para diagnosticar e tratar questões de natureza psíquica.
Os encontros são realizados mensalmente de forma online por profissionais das áreas da saúde, educação, psicodramatistas, alunos em formação de Psicodrama e demais pessoas interessadas no tema.
“O fato de ser online possibilita a participação de pessoas de várias regiões do Brasil, tais como: norte, nordeste, sul, sudeste e centro oeste. É uma forma de aprender, aproximar e falar sobre as relações raciais”, pontua Maria Célia.
Para participar, basta entrar em contato pelo Instragram @malaquiasmariacelia ou pelo e-mail: [email protected]
Com 41 anos de experiência em clinicar, a psicóloga conta que recebe muitos pacientes pela identificação de raça com a profissional e até mesmo pessoas brancas que estão em processo de letramento racial.
“As queixas são variadas. Desde os pacientes que tiveram as dores minimizadas ou desconsideradas e acabaram sendo vítimas do preconceito em um ambiente que deveria acolhê-las. Também tem os casais inter-raciais que veem o racismo estrutural interferir na sua afetividade”, diz a psicóloga.
Ao longo da jornada acadêmica, a profissional reforça a importância da inserção da temática étnico-racial na graduação de psicologia. É importante que profissionais negros e brancos estejam preparados para o cuidado com a saúde mental desse público.
“Raramente são estudados profissionais negros dentro das universidades. Percebo que quando se fala de Neusa Santos, por exemplo, autora do livro Tornar-se Negro (Graal, 1983), é porque alunos negros trazem à tona”
Maria Célia, psicóloga
Diante de uma diferença de 38 anos de trajetória, a psicóloga Aline Cardoso, 30, moradora de Campo Limpo, zona sul de São Paulo, analisa que o cenário pouco mudou. Marcada pelo dominador da raça, a profissional se formou em 2015, sem a lei de cotas.
“Quando entrei na universidade, não havia bolsas de estudos destinadas à população negra. Os meus amigos negros também viam e sentiam o racismo estrutural dentro da própria esfera acadêmica e de trabalho, mas as discussões ficavam apenas entre nós.”

A psicóloga Aline Cardoso sentiu o racismo estrutural na esfera acadêmica @Arquivo Pessoal
A psicóloga acrescenta: “no curso de psicologia, não tem uma abordagem da saúde mental para as relações étnicos-raciais. É preciso ter um preparo para isso. Não basta ser negro, é preciso ser anti-racista! E entender toda a esfera social”.
Para Aline, o racismo pode se apresentar, infelizmente, no comportamento de outro profissional quando diminui ou até mesmo minimiza o sofrimento do paciente.
“Ignora as estruturas sociais e raciais e tende a atribuir os sofrimentos emocionais dos pacientes a questões individuais. Assim, desconsideram que a situação é similar à vida de outras pessoas da mesma raça”, finaliza Aline.
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]]>O post Morador de São Miguel cria Carnaval de rua para homenagear antiga associação do bairro apareceu primeiro em Agência Mural.
]]>“A sociedade promoveu muitos carnavais para o território. O objetivo de prestar a homenagem veio acompanhado de resgatar a memória afetiva, trazer alegria e o sentimento de pertencimento dos moradores com a região”, diz Anselmo.
Dentre as memórias, ele lembra que a mãe participava dos atos carnavalescos oportunizados pela entidade. “Enquanto eu estava na barriga da minha mãe, ela se alegrava no Carnaval”, lembra o produtor cultural.

Anselmo Srraf, criador do Carnaval de Rua Matinê da Olaria, curte o bloco ao lado de sua esposa Marleide @Danielle Lobato / Agência Mural
A Associação Atlética Olaria foi fundada em 24 de dezembro de 1955 pelos primeiros moradores da Vila Nair e jogadores de futebol, residentes do lado debaixo da linha do trem. Com o passar do tempo, a gestão acabou acumulando dívidas com impostos e outros participantes faleceram.
O antigo prédio da associação passou a ser propriedade do Estado de São Paulo. Atualmente, o espaço é uma creche estruturada e reformada, sem nenhuma lembrança do antigo prédio.
A costureira Sueli Nair, 64, filha do Otávio Camargo, antigo diretor da Associação Atlético Olaria, recebeu a homenagem com alegria. “Meu pai fazia muitas ações em épocas festivas, como doação de brinquedos, alimentos e roupas. Minha mãe Amélia também o ajudava nessas atividades”, conta Nair.
A concentração do bloco no último domingo (19) foi em frente à residência do Anselmo com um repertório de marchinhas antigas direto de uma caixa de som e batucada. Uma decoração carnavalesca com mesas e cadeiras estava à disposição dos moradores, mesclando cores, texturas, glitters e lantejoulas. Também teve brincadeiras com brindes para os participantes.

Moradores aproveitam o Carnaval de Rua Matinê da Olaria @Arquivo / Divulgação
Para suprir os gastos com os adornos, foram feitas duas rifas com 200 números – vendidos a R$ 5,00 cada – com peças diversas, doadas por comerciantes locais, tais como: roupas, tênis, utensílios de casa, decoração e higiene.
De acordo com o calendário oficial da Subprefeitura de São Miguel Paulista, o distrito que abriga a Vila Nair recebeu sete blocos oficiais e itinerantes, mas nenhum com verba pública no bairro.
“Neste período de chuvas a região sofre com alagamentos e enchentes. Trazer um pouco de alegria é importante e faz a diferença. No próximo Carnaval espero conseguir um apoio com edital”, diz Anselmo.
O evento na Vila Nair foi divulgado com postagens nas redes sociais e até criou-se um grupo no WhatsApp com 200 moradores com o convite e detalhes do Carnaval de Rua. “Inseri os vizinhos no grupo e deixei aberto para que eles colocassem amigos e familiares. Afinal o Carnaval é de todos da Vila Nair”, ressalta.

Espaço gelateca fica disponível 24h para empréstimos de livros @Danielle Lobato / Agência Mural
A realização faz parte do projeto Do Lado Debaixo da Linha do Trem, coordenado por Anselmo, desde 2022, com o objetivo de estimular o protagonismo local e fortalecer o território.
O início de tudo veio com a gelateca – geladeira que dispõe de livros para empréstimos gratuitos 24 horas. O equipamento fica em frente à residência do Anselmo e é abastecido por doações de moradores, sendo um ponto de leitura local.
Com o sucesso da iniciativa, o produtor cultural expandiu o projeto com ações temáticas em datas comemorativas. “Fizemos um presépio no Natal de 2022. Agora é o Carnaval, mas quero fazer nas próximas épocas festivas, como a Páscoa ea Festa Junina”, disse Anselmo.
Sobre os desafios de promover atividades no território, Anselmo aponta a dificuldade de fazer com que os moradores participem mais das ações. “Moro aqui há 56 anos. Já vi o quanto o bairro desenvolveu, mas ainda precisamos de mais investimento público e participação de todos”, alega o produtor cultural.
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]]>“Não tínhamos nada para fazer. Não podíamos ir à escola, sair para a rua, nem ver nossos amigos. Ainda não temos computador em casa, então foram nos livros que descobrimos um novo universo”, diz Pablo.
O sistema municipal de bibliotecas de São Paulo conta com 107 unidades. No distrito de São Miguel Paulista existe apenas a biblioteca Raimundo de Menezes, localizada a 2 km de distância dos irmãos.
Já no Jardim Lapena, apenas um equipamento de cultura está disponível para a população, o Galpão de Cultura e Cidadania, também conhecido como Galpão ZL.
Como forma de abastecer os leitores do bairro durante o isolamento social na pandemia, o espaço de leitura comunitário criou o projeto “Bike Literária”, que existe até hoje e faz o empréstimo de livros e a entrega na porta das casas por meio de bicicletas.

Ponto de leitura comunitário do Jardim Lapena dispõe de livros para os moradores do bairro @Divulgação
Nesse período, o primeiro livro que fez os irmãos mergulharem na leitura foi o quadrinho infanto-juvenil “Diário de um Banana”, escrito pelo norte-americano Jeff Kinney. A história mostra um garoto de 12 anos chamado Greg Heffley e suas tentativas de se tornar popular durante o 6º ano do ensino fundamental.
“Nós gostamos muito de quadrinhos e o Diário de um Banana traz a história nesse formato. Além disso, é leve e divertido de ler e entender”
Pablo Barreto, morador do Jardim Lapena
Antes disso, a leitura só era feita na sala de aula, biblioteca ou por influência da mãe, Nelita Barreto, 35, que é leitora assídua. “Os meninos não tinham o hábito de ler, mas sempre incentivei e li para eles em diversos momentos juntos”, conta.
Em um caderno de anotações, os estudantes registram todos os livros que já leram no decorrer de dois anos, o que ultrapassa a quantidade de 300 para cada um. Dentre os conteúdos lidos, estão cerca de 120 quadrinhos, 70 exemplares menores, como os livros de bolso, além de obras maiores, como “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, da britânica J. K. Rowling.
“Nos identificamos com o personagem Harry, porque ele é muito inteligente, mas também é tímido. Outro personagem que gostamos muito é o Rony, admiramos a lealdade dele”, fala Wesley. Segundo ele, esse é o livro preferido dos dois irmãos.
Atualmente, para conseguir conciliar os livros com os estudos e o tempo de brincar, os gêmeos têm horários definidos para realizar cada tarefa. Todos os dias da semana, na parte da manhã, os meninos vão até o Galpão ZL e dedicam duas horas à leitura. Depois voltam para casa e seguem para a escola.
“Também somos apaixonados pelo universo geek. Nossos super-heróis prediletos são o Batman, o Super-Homem e o Homem-Aranha. Mergulhamos a fundo e gostamos de ver como a história é apresentada em diversos formatos, tanto no quadrinho quanto no cinema”, complementa.
“Gostamos de ir para a biblioteca por ser um universo de muitos livros para empréstimos gratuitos e também silêncio, além das amizades que formamos por lá”
Pablo Barreto, morador do Jardim Lapena
Segundo os leitores, o hábito também passou a ajudá-los nas matérias da escola. “A leitura nos ajudou com atividades de interpretação de texto, português, história, geografia e também biologia”, comenta Wesley.
Apesar da quantidade de livros lidos e de terem considerado “a melhor sensação de terem descoberto esse universo”, os dois explicam que não fixaram uma meta em número a ser batida em 2023. De acordo com os dois, o objetivo é continuar lendo por paixão.
Para o futuro, os irmãos acreditam que a leitura contribuirá para o desenvolvimento profissional e acadêmico. “Queremos trilhar o caminho da tecnologia, com [o curso de] sistemas de informação, ou da área da saúde, com medicina”, finaliza Pablo.
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]]>“Gosto bastante porque fujo um pouco da realidade e muitas pessoas conseguem se distrair dos problemas. Além disso, consigo ampliar o meu mundo, principalmente, na parte da criação”, conta Luísa, que aspira ser designer de moda.
A atividade faz parte do “Eu no mundo do Cosplay”, uma disciplina eletiva que reúne cerca de 30 alunos por turma, entre 13 e 15 anos.
Na aula, eles participam de oficinas de artes em que desenvolvem esculturas dos mangás, animes e personagens de histórias em quadrinhos.
Também fazem apresentações com fantasias inspiradas nesses desenhos e refletem sobre o mercado de trabalho dos cosplayers e como a cultura pop é um reflexo do comportamento humano, além de desmistificar preconceitos.

Atividades envolvem produção de esculturas de personagens @Arquivo Pessoal
A ideia de usar os elementos da cultura dos mangás na sala de aula surgiu após o interesse dos alunos em ter na escola um espaço para a criação e de conexão com os personagens favoritos.
Luísa, por exemplo, tem como personagem preferido a protagonista Emma, de “The Promised Neverland”, obra de origem japonesa que conta a história de dezenas de crianças que vivem no orfanato Gracefield, um local todo arborizado onde uma mulher chamada de “Mamãe” é a responsável.
A trama ganha um lado sinistro quando Emma descobre que tudo é uma farsa e as crianças não são, de fato, adotadas. “Me identifico com a personagem, pois ela é alegre e bem ligada à família”, diz Luísa.
Na hora da elaboração das atividades, as professoras Joyce Stancine, 26, e Daniela Ferretti, 47, contam que apresentaram a ideia à gestão da escola e não tiveram nenhuma resistência. Elas receberam apoio da coordenadora e do diretor, que é artista plástico.
A possibilidade de criar esse tipo de aula surgiu por conta do projeto Inova Educação, do Governo do Estado, que prevê investir em tecnologia e matérias eletivas com foco em projetos de vida dos alunos a partir dos anos finais do ensino fundamental ao ensino médio.
Na escola Manoel de Nóbrega, foram feitas pesquisas com os alunos sobre os temas que eles tinham interesse. As respostas estavam relacionadas diretamente a séries, filmes e jogos. Para unir todos esses interesses e terem o engajamento dos alunos no projeto, ambas resolveram adentrar ao universo geek e cosplayer.

Alunas fantasiadas em uma das atividades da eletiva @Arquivo Pessoal
Para as educadoras é importante desmistificar a ideia de que o cosplay é apenas se vestir de um personagem.
“Hoje o cosplay é visto como uma profissão, um ramo que movimenta milhões [de reais] anualmente. E, para esta profissão, é necessário amplo conhecimento em diversas áreas, como moda e artes cênicas”, afirma Joyce.
Ela também cita que o trabalho ajuda na interação entre os alunos, “além de ser uma boa maneira de os mais tímidos tornarem-se mais sociáveis, extrovertidos e confiantes em si mesmos”.
Sobre os benefícios já adquiridos, a eletiva propicia o desenvolvimento de competências socioemocionais, como iniciativa social, tolerância ao estresse, curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico.
Quem descobriu esse mundo pela primeira vez foi Vinicius Henrique, 14. O estudante conta que o personagem favorito é o Minato Namikaze, pai de Naruto, outro anime japonês. “Gosto da criatividade que a aula possibilita”, aponta o aluno que também vê esse aprendizado conectado com o desejo de trabalhar com jogos.
“Meu projeto de vida que é ser game designer ou streamer gamer, ou seja, desenvolvedor de jogos. E muitos dos personagens são cosplayers”, completa.
Na visão da desenvolvedora de jogos Raquel Silva, 20, correlacionar o mundo virtual do real na sala de aula ajuda a estreitar caminhos e mostrar um mundo de possibilidades.
“O mundo mudou e com ele novas profissões surgem. No caso dos alunos, é importante destacar que eles percebem como a eletiva pode aproximar dos seus anseios profissionais”
Raquel Silva, desenvolvedora de jogos
Ela explica que fazer cosplay, ao contrário de apenas se fantasiar, necessita de muita pesquisa, planejamento e amor pelo personagem ou obra. O cosplayer não só se veste, mas também procura conhecer bem o personagem no qual está vestido para interpretá-lo com maestria nos eventos de cultura pop.
Para mostrar isso na prática aos alunos, as professoras promoveram uma visita em uma fábrica de moda, localizada em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. “Eles aprenderam sobre o universo da confecção a fim de realizar a criação dos moldes de seus cosplayers, que foram apresentados em um evento aberto à comunidade local”, finaliza Joyce.
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