Agência Mural https://agenciamural.org.br/muralista/matheussantino/ A Agência Mural produz jornalismo sobre, para e pelas periferias, com correspondentes locais que combatem estereótipos e ampliam o acesso à informação. Mon, 11 May 2026 15:40:55 +0000 pt-BR hourly 1 Fechamento de turmas noturnas afeta alunos da zona leste de São Paulo https://agenciamural.org.br/fechamento-de-turmas-noturnas-afeta-alunos-da-zona-leste-de-sao-paulo/ https://agenciamural.org.br/fechamento-de-turmas-noturnas-afeta-alunos-da-zona-leste-de-sao-paulo/#respond Mon, 11 May 2026 15:37:58 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=83982 Maria*, 17, mantinha uma rotina de estudos, treinos e trabalho durante a manhã e tarde e cursava o ensino médio à noite na escola estadual Oswaldo Gagliardi, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Sem aviso prévio, a escola fechou o ensino noturno no começo de 2026 e transferiu os alunos para outra unidade, […]

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Maria*, 17, mantinha uma rotina de estudos, treinos e trabalho durante a manhã e tarde e cursava o ensino médio à noite na escola estadual Oswaldo Gagliardi, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo.

Sem aviso prévio, a escola fechou o ensino noturno no começo de 2026 e transferiu os alunos para outra unidade, afetando a vida dos jovens. “Com a mudança de escola, veio um desgaste mental de organizar toda a rotina de novo”, diz a estudante.

A escola faz parte da URE (Unidade Regional de Ensino) Leste 3, responsável pela jurisdição das escolas estaduais nos distritos de Cidade Tiradentes, Guaianases, Iguatemi, José Bonifácio e São Rafael.

São 48 escolas com ensino médio nos distritos da Leste 3, mas apenas 18 funcionam no turno da noite. O Iguatemi tem maior oferta, com 6 escolas abertas à noite, enquanto José Bonifácio tem apenas uma.

José Bonifácio tem apenas uma escola com ensino médio noturno @Divulgação

Agora aluna da escola estadual Cláudia Dutra Viana, também em Cidade Tiradentes, Maria conseguiu se adaptar, mas viu colegas cogitando abandonar os estudos pela necessidade de trabalhar, enquanto outros tiveram que procurar um novo emprego. “É difícil achar um trabalho de jovem aprendiz no período da tarde para a noite”, diz.

O filho de Amanda, que pediu para não ser identificada, seguiu o mesmo caminho que Maria. O jovem fez o 1º ano do ensino médio na escola Oswaldo e só soube da mudança para a Cláudia Dutra em janeiro, quando entrou no “Sala do Futuro”, plataforma digital da Seduc-SP (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo).

O jovem trabalha registrado durante o dia e o encerramento do noturno, sem que os responsáveis fossem avisados, poderia ter um impacto maior se não houvesse outra escola próxima.

“Tenho outro filho de 12 anos que estuda no Oswaldo e pensa em trabalhar quando começar no ensino médio. Espero que até lá o Dutra não feche o noturno, porque será difícil achar outra escola na região à noite”, diz Amanda.

Além dos alunos, os professores também foram afetados. É o caso de Jéssica, professora da região que prefere não se identificar. Ela comenta que a Oswaldo Gagliardi tinha nove salas no noturno, que foram transferidas para a Cláudia Dutra, que já tinha 12, sem abertura de novas salas e melhorias na estrutura.

A docente denuncia que alguns colegas perderam aulas após o fechamento e que ela teve que refazer todo seu planejamento, já que 80% dos seus alunos eram do ensino médio noturno. “Uma escola que funcionava há mais de 25 anos no noturno e sempre caminhou muito bem, com alunos regularmente matriculados e sem evasão. Ficamos sem entender”, desabafa.

E.E. Profº Simão Mathias, no Iguatemi, não oferece mais ensino médio noturno @Matheus Santino/Agência Mural

Professores, pais e alunos da escola Oswaldo Gagliardi fizeram um abaixo-assinado contra o encerramento do noturno para pressionar a diretoria. Apesar da grande adesão, o instrumento não teve efeito.

Outras escolas da Leste 3 sofrem o mesmo processo. “No Belize, eliminaram os 1º anos de ensino médio. No Simão Mathias, Ruy de Mello e Borges não oferecem mais o noturno”, diz Fabio* professor de uma escola no Iguatemi. Ele teve o nome mudado, pois teme retaliações. As unidades citadas ficam no Iguatemi e Cidade Tiradentes.

O fechamento das turmas causou transtornos estruturais na escola em que ele dá aula. O professor diz que, para acomodar alunos transferidos da noite, utilizaram de maneira irregular salas de informática e de leitura como salas de aula.

Nas salas improvisadas, não havia lousas até pouco tempo e, até a entrevista, não tinham chegado carteiras adequadas. “Os alunos estudam em mesas redondas de seis cadeiras. Enquanto isso, a escola tem falta de inspetores, um elevador que nunca funcionou e 70 degraus para chegar ao último andar”, relata.

Versão da secretaria

Em nota, a Seduc afirmou que garante atendimento a estudantes que precisam do noturno em unidades próximas e com vagas, conforme normas vigentes, e que a abertura de turmas considera a demanda anual e a distribuição de vagas.

Sobre a URE Leste 3, disse que as escolas citadas não tiveram demanda por turmas noturnas e outras aderiram ao Programa de Ensino Integral. Atualmente, há 15 escolas com ensino noturno e 11 do programa integral de sete horas, com aulas até as 21h30.

Em relação à infraestrutura, a Seduc diz não haver registro de uso irregular generalizado de salas pedagógicas como salas de aula e que, em situação pontual, houve atraso logístico na entrega de mobiliário destinado a salas construídas em projeto de ampliação, situação já regularizada.

Quem é mais afetado

Gabriel Di Pierro, coordenador da área de juventude da Ação Educativa, diz que o fechamento de turmas nunca parou e tem sido feito com baixa transparência.

‘É uma retomada silenciosa [do fechamento de turmas]. Está vinculado à implementação de escolas de tempo integral, que não mantêm uma oferta diversificada’

Gabriel Di Pierro, da Ação Educativa

Grande parte das escolas da Leste 3 migrou para a EPT (Educação Profissional Técnica) ou para o PEI (Programa de Ensino Integral) de sete ou nove horas.

E.E. Profª Carmelinda M. Pereira é uma das escolas no distrito do Iguatemi que oferece ensino médio noturno @Matheus Santino/Agência Mural

A pesquisa “Reflexões, Desafios e Perspectivas sobre o Ensino Médio Noturno” traz um panorama da situação do ensino médio no Brasil. A iniciativa do Instituto Fefig emparceria com aFundação Roberto Marinho e o apoio do Itaú, Educaçãoe Trabalho sistematiza achados de dados secundários (IBGE/Pnad e Inep/Censo Escolar) e entrevistas com especialistas e com jovens.

O relatório mostra que as matrículas no ensino médio regular no Brasil atingiram o ápice em 2004, com mais de 9 milhões de estudantes.

Em 2020, o número caiu para 7,5 milhões, uma queda de 18%. No período noturno o impacto foi ainda maior: entre 2007 e 2019, as matrículas caíram de 3,4 milhões para 1,3 milhão, uma redução de 60%.

Segundo a pesquisa, a necessidade de trabalhar é motivo de abandono para 40% dos alunos e a principal causa de evasão escolar entre os entrevistados.

Ana Lima, coordenadora do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), comenta que o assunto é complexo e divide os especialistas em educação, o que torna ainda mais difícil chegar a uma resolução.

“O ensino médio noturno não mantém a qualidade do diurno devido à jornada de trabalho, cansaço e tempo curto. Alguns acreditam que é melhor ter um ensino “Série B” do que nada; outros defendem que jovens de 15 a 18 anos não deveriam trabalhar, mas sim estudar de dia com qualidade”, afirma Ana Lima.

“O problema é que, ao fechar vagas noturnas sem oferecer alternativas, você acaba condenando certos grupos a abandonar a escola.”

A especialista diz que focar apenas no integral garante o direito de alguns a uma formação robusta, mas exclui outros.

‘É preciso olhar para assistência social, segurança e transporte para garantir que a transição não exclua os mesmos grupos de sempre’

Ana Lima

Conforme o relatório, entre jovens de 15 a 17 anos que não frequentavam a escola e não concluíram a educação básica, 75% eram negros(as). Ana ainda relata que o sistema muitas vezes “empurra” para a noite os alunos mais frágeis ou “bagunceiros”, como forma de exclusão.

“São Paulo, sendo o estado mais rico, deveria ser exemplo de planejamento integrado e escuta da população. Se o lugar que tem recursos e especialistas não conseguir resolver isso com continuidade e critérios técnicos, quem conseguirá?”, questiona.

Duas escolas, um prédio

As mudanças no noturno fazem parte de um processo mais amplo de reorganização da rede estadual. Fábio e outra professora lecionam a mesma disciplina, utilizam os mesmos materiais, no mesmo prédio, mas não podem conversar ou se ajudar, porque cada um faz parte de uma escola diferente.

Esse é o cotidiano dos docentes após a Seduc implementar, em 2026, um programa de cisão escolar, que consiste em transformar escolas com mais de 1,2 mil alunos em duas unidades administrativas. Na prática, são duas escolas funcionando no mesmo lugar, cada uma em um período, com nome e diretoria próprios.

Leste 3 publicou edital para diretores em janeiro deste ano

Em entrevista à Rádio Eldorado em dezembro de 2025, o secretário estadual da Educação, Renato Feder, disse que a adesão ao projeto é voluntária e, a princípio, foi implementado em 50 escolas. Segundo Feder, a medida serve para melhorar o acompanhamento dos diretores em escolas maiores.

Porém, Fábio diz que a medida foi implementada sem a consulta da comunidade escolar. “Oficialmente, disseram que a comunidade e a Associação de Pais e Mestres seriam consultadas, mas isso não aconteceu. Em dois dias, convocaram uma reunião online e avisaram que a cisão ocorreria. Não pudemos nem escolher o nome da nova unidade”, relata.

O professor diz ser complexo explicar o que é a cisão e que não existe uma regulamentação ou legislação no Diário Oficial que explique a prática.

A escola onde ele trabalha também faz parte da Leste 3. Segundo o site da URE, ao todo são 85 escolas na região, em 72 endereços, o que mostra que 13 aderiram à separação.

Gabriel Di Pierro lembra que as ocupações de escolas em 2015 foram uma resposta a um processo de cisão do governo estadual que resultou no fechamento de escolas. “(A cisão) é uma prerrogativa do Estado, porém, a gestão deve garantir que o direito à educação não seja afetado e que o processo não prejudique estudantes e professores”, diz.

Questionada, a Seduc-SP afiirm que a adesão ocorreu conforme trâmites administrativos previstos, com aprovação nos Conselhos de Escola e participação da comunidade escolar.

Em nota, a Seduc diz que, na Leste 3, 13 unidades aderiram à medida e que não houve redução de módulos, ao contrário, as unidades tiveram ampliação das equipes de gestão e de Agentes de Organização Escolar. Segundo a secretaria, o impacto pedagógico é positivo.

*Os nomes foram alterados para preservar as fontes de retaliação.

Agência Mural

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Zona Leste somos nós https://agenciamural.org.br/zona-leste-somos-nos/ https://agenciamural.org.br/zona-leste-somos-nos/#respond Wed, 15 Apr 2026 20:10:09 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=83335 O que esperam de nós pela nossa origem ou pelo lugar que moramos? Foi um dos questionamentos que tive durante uma conversa com minha namorada esses dias. Nós dois somos jornalistas, filhos de migrantes nordestinos, nascidos e criados na periferia da zona leste de São Paulo. Como nós, outros milhões com esse mesmo histórico. A […]

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O que esperam de nós pela nossa origem ou pelo lugar que moramos? Foi um dos questionamentos que tive durante uma conversa com minha namorada esses dias. Nós dois somos jornalistas, filhos de migrantes nordestinos, nascidos e criados na periferia da zona leste de São Paulo. Como nós, outros milhões com esse mesmo histórico.

A proximidade geográfica e a similaridade familiar nos trouxe experiências parecidas e nos fez refletir como as periferias se conectam no modo de vida, afinal, cantava GOG, “o poeta do rap nacional”, que periferia é periferia em qualquer lugar.

Mas, ao mesmo tempo, sinto que cada região e zona dessa imensa São Paulo tem um jeito único e carrega diferentes estereótipos.

Cohab Teotônio Vilela na zona leste de São Paulo @Matheus Santino/Agência Mural

Durante a conversa, lembrei de uma situação que passei anos atrás em uma entrevista de emprego. Logo após eu ter falado o bairro onde morava, me foi perguntado se era verdade que os homens da zona leste eram mais machistas que os outros. Gelei na hora.

Qual a importância daquela pergunta para o decorrer da entrevista? Não sei, mas tive a sensação de que a minha resposta poderia decidir se eu conseguiria aquele emprego ou não.

No momento, eu nem entendi o peso do questionamento, feito em meio a risadas, enquanto eu era visto quase como uma pessoa exótica tentando adentrar um lugar que, aparentemente, não tinha sido construído para homens que vêm de onde eu venho.

Vila Lar Nacional, Pq Novo Lar e Cohab Teotônio Vilela @Matheus Santino/Agência Mural

Em segundos vieram vários pensamentos na minha cabeça: “será essa a visão que essa pessoa tem de mim? Existe um dado sobre isso? É esse comportamento esperado de uma pessoa como eu?”.

Desconfortável, respondi que nunca tinha ouvido falar sobre isso e que, para mim, tinham essa percepção por ser uma região majoritariamente de bairros pobres, mas que essa afirmação não era verdadeira. Pensando agora, deve ser isso que esperam de bairros periféricos: pessoas sem instrução, atrasadas e com comportamentos não aceitos pela sociedade.

Afinal, os homens da zona leste são mais machistas? Sinceramente, não acho. Com tantos casos de feminicídio, abuso sexual e violência doméstica contra mulheres nos últimos tempos, não quero que isso pareça um discurso de defesa como aqueles “nem todo homem”, longe disso. Mas acredito que rotular uma região da cidade como “mais machista” é também uma forma de desumanizar as pessoas que vivem lá.

Nesse mesmo sentido, recentemente, vi um post no Instagram que comentava sobre a ampliação da Linha Verde do Metrô e da Linha Coral da CPTM: ambas irão passar pela estação Penha, que já faz parte da Linha Vermelha, principal meio para quem é da ZL ir para o centro.

No terminal da estação Corinthians Itaquera há barraca de espetinho e de lanches @Matheus Santino/Agência Mural

Nos comentários, vi pessoas revoltadas porque, segundo elas, “agora a linha verde vai ficar um inferno” e “cheia de favelado e gente mal educada”.

É curioso, porque já perdi as contas de quantas vezes demorei quase 1 hora para conseguir um Uber de noite ou de madrugada para casa ou de quantas vezes o motorista aceita, mas reclama o caminho inteiro, dizendo ter medo de ser roubado e que se tivesse visto para onde era a corrida, não teria aceitado.

Se no Uber, pagando pelo conforto, nós somos hostilizados, e se uma expansão do metrô para o lado leste da cidade também é visto como algo negativo por alguns, o que devemos fazer? É sempre o pior que esperam de nós?

Monotrilho da região de Sapopemba, na zona leste @Matheus Santino/Agência Mural

A impressão é que, por esperarem tão pouco, nos invisibilizam. Rotulam uma zona inteira, com exceção de alguns bairros “aceitáveis”. Querem esconder esse lado da cidade para que ninguém saiba o que acontece aqui. Não querem que a gente circule porque, da Penha (a Zona Leste “aceitável”) para trás, nada presta. Mas eles vêm saber o que acontece por aqui?

Aliás, lembro até hoje que esse uber que ficou com medo de ser roubado me falou que morava na Vila Carrão, uma parte mais “aceitável” da ZL. Só pude soltar uma risada no banco de trás.

Monotrilho da estação Jardim Planalto @Matheus Santino/Agência Mural

Passando por tudo isso e vendo como as pessoas enxergam a Leste, refleti sobre o que ela significa para mim. A sensação que me veio foi de uma grande casa, um ambiente familiar.

Não importa a quebrada que eu esteja, se for na zona leste, sinto que estou em casa, me sinto conectado às pessoas que vivem ali. O pertencimento nos une.

É aquela sensação de descer do metrô em Itaquera e automaticamente sentir o cheirinho de churrasco e pensar que aquele dia difícil está chegando ao fim, porque você já está em casa, mesmo que ainda falte um trajeto longo de ônibus.

Sabe aquela fita de romantizar um pouco a sua vida ou a sua realidade? Acho que é um pouco disso.

Quadra da Nenê de Vila Matilde @André Possidônio/Divulgação

Não sinto raiva daqui, não vejo como o pior lugar do mundo e com certeza não acho que as pessoas daqui sejam piores do que as de outros lugares. Pelo contrário, aqui estão as raízes da minha família, aqui eu nasci, aqui fiz minhas primeiras amizades e aqui foi o meu primeiro significado de mundo. Diverso, caótico e bonito aos olhos de quem sabe enxergar beleza.

Porque aqui o sol nasce primeiro e é essa beleza que ilumina meu povo – o povo em quem eu acredito. Já que querem tanto que fiquemos só entre os nossos, lembro o enredo de 1988 da Nenê de Vila Matilde, lema da escola até os dias de hoje e que é poético e poderoso: “Zona Leste somos nós”.

Agência Mural

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No fundão do Iguatemi, moradores lutam contra expansão de aterro sanitário https://agenciamural.org.br/no-fundao-do-iguatemi-moradores-lutam-contra-expansao-de-aterro-sanitario/ https://agenciamural.org.br/no-fundao-do-iguatemi-moradores-lutam-contra-expansao-de-aterro-sanitario/#respond Fri, 19 Dec 2025 19:14:07 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=79179 “Quando chove ou esfria, a gente sente um mau cheiro. Vamos olhar se é o banheiro ou o esgoto, mas é um cheiro ardido no ar, um cheiro horrível”, conta Fátima Magalhães, 57, moradora do Jardim Santo André, próximo ao aterro sanitário CTL (Central de Tratamento de Resíduos Leste), região de São Mateus. O aterro […]

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“Quando chove ou esfria, a gente sente um mau cheiro. Vamos olhar se é o banheiro ou o esgoto, mas é um cheiro ardido no ar, um cheiro horrível”, conta Fátima Magalhães, 57, moradora do Jardim Santo André, próximo ao aterro sanitário CTL (Central de Tratamento de Resíduos Leste), região de São Mateus.

O aterro sanitário fica localizado no distrito do Iguatemi, na zona leste de São Paulo, exatamente nas divisas com o distrito de São Rafael e com a cidade de Mauá.

Atualmente, pode receber até 7.500 toneladas por dia de resíduos sólidos, gerados de bairros da zona leste e sul da capital. Um dos vizinhos do CTL é o Morro do Cruzeiro, patrimônio ambiental tombado e Unidade de Conservação Monumento Natural (MONA), além de ser o segundo maior pico de São Paulo, ficando atrás apenas do Pico do Jaraguá.

Um projeto da prefeitura de São Paulo e da EcoUrbis, empresa concessionária do local, prevê a derrubada de quase 63 mil árvores para a ampliação do aterro sanitário. Em maio deste ano, o prefeito Ricardo Nunes visitou o local e falou também sobre a criação de um EcoParque e da instalação de uma Unidade de Recuperação Energética (URE), uma espécie de incinerador que deve tratar mil toneladas de lixo por dia.

Fátima em um protesto no Morro do Cruzeiro contra a ampliação do CTL @Arquivo pessoal/Divulgação

Em dezembro de 2024, o prefeito sancionou a Lei 18.209/24, após a Câmara Municipal aprovar o Projeto de Lei (PL) 799/2024, que modifica um dos mapas do Plano Diretor Estratégico (PDE) referentes aos limites das macroáreas no território da capital, o que permite a ampliação do aterro e a criação do EcoParque.

Adriano Souza, 38, morador de São Mateus, historiador, membro do coletivo CPDOC Guaianás e da Frente Popular Contra a Ampliação do Aterro em São Mateus, explica que a ideia do projeto de lei foi um relaxamento em uma zona integral de preservação ambiental dentro da lei de zoneamento.

“Tem uma relativização, a área é de preservação ainda, mas há a possibilidade de você fazer a derrubada de árvores. A justificativa é que estariam criando um aterro moderno e que teria uma compensação ambiental com a plantação de árvores em outros lugares da cidade”, diz.

Fátima é professora e presidente do Conselho de Segurança (CONSEG) de São Rafael. Para ela, a situação é preocupante, já que o bairro onde mora está entre o aterro sanitário e o Polo Petroquímico de Capuava, também responsável por poluir o ar da região.

‘Gosto de lembrar as pessoas que eu moro no Jardim Santo André, um bairro que tem duas empresas grandes como vizinhos. O nosso bairro está no meio dessas duas empresas que só lembram de depositar tudo’

Fátima, presidente do CONSEG

No ano passado, a Agência Mural esteve em uma manifestação feita por moradores próximos do aterro. Naquele momento, o número estimado de árvores cortadas para a ampliação era de cerca de 10 mil.

Denny Gomes, 32, morador do Iguatemi e uma das lideranças da Frente Popular, explica que só ficaram sabendo do novo número em uma reunião para falar da diminuição da área do futuro Parque Cabeceiras do Aricanduva, que ficará entre os distritos do Iguatemi e Cidade Tiradentes.

“Em setembro houve uma reunião para explicar porque 20% do terreno do parque seria tirado. Nesse estudo, o José Ulisses, que é biólogo e conselheiro dos Cabeceiras, conseguiu pegar essa informação em uma tabela que mostra que, nessa fase 6 do aterro, eles vão tirar mais de 60 mil árvores”. Segundo Denny, o parque perdeu tamanho para que o aterro pudesse avançar uma área maior.

Moradores na audiência pública em São Mateus @Matheus Santino/Agência Mural

No documento, é apresentado a supressão vegetal, ou seja, a retirada da vegetação da área para a ampliação do aterro. A tabela mostra que a cobertura vegetal da Área Diretamente Atingida (ADA) conta com vegetação em estágio médio e inicial de regeneração, reflorestamento de eucaliptos e árvores isoladas cadastradas. No total, são 48,77 hectares e um total de 62.722 árvores.

O documento também apresenta que serão plantadas 241.307 mudas para compensação ambiental. Procurada, a EcoUrbis diz que o dado com o número de árvores retiradas consta no Estudo de Impacto Ambiental e no Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) e que os documentos foram encaminhados para a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), responsável pelo processo de licenciamento.

A empresa também diz que o documento ficou disponível para consulta pública na Subprefeitura de São Mateus desde o dia 10 de novembro de 2025 e foi amplamente acessado.

Sobre a compensação ambiental, a EcoUrbis afirma que os locais de plantio serão aprovados pela CETESB durante o processo de licenciamento e que busca realizá-los próximos ao CTL.

A companhia também destaca que o Parque Natural Municipal Cabeceiras do Aricanduva é de responsabilidade do poder público, já recebeu compensações ambientais da Ecourbis, mas que o zoneamento não é atribuição da empresa e a área foi destinada para tratamento de resíduos no PGIRS.

Ampliação investigada pelo Ministério Público

A Frente Popular Contra a Ampliação do Aterro em São Mateus nasceu no final de 2024, após a aceleração do PL na Câmara Municipal. O coletivo é uma junção de movimentos de moradia, associações de bairros, vereadores e deputados estaduais que lutam contra a progressão do projeto.

A Frente criou um abaixo assinado que já conta com mais de 24 mil assinaturas contra os cortes de árvores e a ampliação do aterro. Uma das principais reclamações do movimento foi a falta de transparência, falta de audiências públicas no território e a forma acelerada com que foi feita a votação.

Após a pressão da Frente, em outubro deste ano o Ministério Público entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) contra a Lei 18.209/24, que autoriza a ampliação do aterro sanitário.

Para Adriano, a ação do MP foi o maior avanço do movimento, além de transformar o assunto em debate público.

Moradora protesta na audiência contra o aterro sanitário @Matheus Santino/Agência Mural

“Conseguimos a liminar do MP e mobilizamos vozes racionais em prol dessa demanda. É surreal você criar um deserto verde em um lugar que já é poluído, que tem históricos de problemas de saúde pública com essa questão do lixo e da poluição do ar”, diz.

“Em tempos de COP 30, a gente vê que alguns avanços sobre os nossos direitos ambientais são tolerados, esquecidos, apagados, e outros são mediatizados e colocados como marketing ambiental”, critica o historiador.

Procurado pela Agência Mural, o Ministério Público respondeu que a ADI trata dos artigos 1° a 4° e 6° a 16 da Lei n. 18.209 e está aguardando julgamento. Existe ainda uma Ação Direta já julgada que trata do 5° artigo da lei, mas o MP não informou à reportagem o resultado do julgamento.

Histórico de lutas e do aterro

A região de São Mateus tem um histórico de lutas populares contra aterros e incineradores. Em 2021, a Agência Mural mostrou que, além do CTL, há três aterros desativados em São Mateus: São João, que ficava no local onde está o CTL hoje, São Matheus e Sapopemba.

Adriano conta que os distritos da subprefeitura de São Mateus e outros próximos possuem áreas verdes que são patrimônios naturais ou áreas de preservação, que são resultados dessas lutas.

“O Parque Aterro Sapopemba é um marco histórico da luta contra aterros, o próprio Parque do Carmo e toda a área em volta de preservação ambiental é resultado de lutas da população contra aterros. Nós temos pessoas que estiveram lá na década de 1980 na luta contra o aterro São Matheus, que ficava na área do Parque Fazenda do Carmo, pessoas que estavam lá, estão aqui hoje também nessa batalha”, diz.

Mapas do GeoSampa mostra a evolução do CTL entre 2004 e 2020 @Geosampa

O historiador conta que, na década de 1990, na gestão Paulo Maluf, existiam ideias de colocar um incinerador no território. “Na verdade, a ideia era retomar, porque já tinha incinerador no Aterro São Matheus no Parque do Carmo, que a população rechaçou também”, explica.

O local que hoje abriga o CTL entrou em operação em 1992, com o nome de Aterro Sanitário Sítio São João.

“É uma contradição histórica que, no fim da gestão Erundina, que fez uma prefeitura popular, o aterro São João entra em operação, devido às várias pressões e também pelo problema real de onde vai o lixo”, diz Adriano. “Teve um movimento popular e de gente pública. A própria prefeita conseguiu segurar o avanço da terra em dois territórios, mas não conseguiu segurar no Iguatemi”, completa.

O Aterro São João foi de responsabilidade da prefeitura até 2004, quando a EcoUrbis virou concessionária do local. Em 2009, o aterro foi desativado, dando lugar ao atual CTL. De 2010 a 2025, o local já passou por cinco fases de ampliação, tentando a sexta agora.

O que dizem a EcoUrbis e a prefeitura

A EcoUrbis afirma que realiza estudos da água, ar e solo da área ocupada e disponibiliza os relatórios à Cetesb. “Através dos resultados dessas análises, é possível afirmar que não há registros de piora da qualidade do ar por causa do empreendimento”, diz a empresa.

A empresa ressalta que, além do plantio de quatro mudas de árvores nativas da Mata Atlântica para cada exemplar que for removido, também atua para que espécimes passíveis de transplante sejam replantados em outros locais. “Destacamos que 37,8% da área que será submetida a intervenção correspondem a eucaliptos, ou seja, espécime exótica”, disse em resposta.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo diz que, em relação ao CTL, “a Ecourbis Ambiental protocolou junto à CETESB o Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) para o projeto. O licenciamento ambiental é de competência do órgão estadual e está em análise”.

Por meio da SP Regula, a prefeitura diz que o Projeto de Lei foi aprovado respeitando todo o rito regular da Câmara Municipal, após seis audiências públicas.

“A ação do Ministério Público se refere à tramitação legislativa do PL em sua forma e não questiona a ampliação do CTL. A Secretaria Municipal da Saúde monitora a área nas imediações do aterro e orienta a comunidade. Até o momento, não há nenhum indicador que aponte risco à saúde da população”, diz.

A prefeitura ainda afirma que a alteração na área do Parque Cabeceiras do Aricanduva foi aprovada na Revisão do Plano Diretor e que não traz prejuízos aos principais atributos ambientais da região.

Agência Mural

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Onze anos depois, obra do monotrilho ainda causa transtornos na zona leste de SP https://agenciamural.org.br/monotrilho-linha-15-transito-iguatemi/ https://agenciamural.org.br/monotrilho-linha-15-transito-iguatemi/#respond Tue, 19 Aug 2025 21:47:26 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=74796 Desde 2022, os moradores do Iguatemi, na zona leste de São Paulo, enfrentam trânsito carregado em diversos pontos da principal via da região, a Avenida Ragueb Chohfi, que começa no Largo São Mateus, atravessa todo o distrito do Iguatemi e termina na Cidade Tiradentes. A Ragueb também faz conexão com a Avenida Jacu Pêssego, que […]

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Desde 2022, os moradores do Iguatemi, na zona leste de São Paulo, enfrentam trânsito carregado em diversos pontos da principal via da região, a Avenida Ragueb Chohfi, que começa no Largo São Mateus, atravessa todo o distrito do Iguatemi e termina na Cidade Tiradentes.

A Ragueb também faz conexão com a Avenida Jacu Pêssego, que liga a região aos bairros de Itaquera e São Miguel Paulista e com a Avenida Vice-Presidente José Alencar Gomes da Silva, que vai para o ABC.

O congestionamento é consequência de várias intervenções que ocorrem na via devido às obras do monotrilho da Linha 15 – Prata do Metrô, que vai ter duas estações no distrito, Boa Esperança e Jacu-Pêssego, além do Pátio Ragueb Chohfi, que será usado para estacionamento e manutenção dos futuros trens.

Enquanto as estações não são uma realidade, os moradores do Iguatemi e de distritos vizinhos que dependem da avenida lidam com o transtorno das obras. É o caso de Vanusa Silva, 45.

Moradora da Cidade Tiradentes, ela atravessa a avenida inteira de ônibus até o Terminal São Mateus para pegar outro coletivo para o trabalho.

Moradores tiveram que andar 1 hora devido ao bloqueio @Vanusa Silva/Divulgação

Ela conta que, um dia antes de conversar com a Agência Mural, teve que ir andando do Terminal Cidade Tiradentes até a Avenida Jacu Pêssego, cerca de 5km e mais de 1 hora de caminhada, por conta de uma intervenção na Ragueb.

‘Tinham que colocar uma viga e fecharam um acesso da avenida às 4 horas da manhã, aí ficamos parados. Todo mundo teve que descer do ônibus e ir andando, porque não tinha transporte que conseguia sair do lugar’

Vanusa, moradora da Cidade Tiradentes

Vanusa trabalha no Jardim Grimaldi, em Sapopemba, e chegou 1 hora atrasada neste dia por conta do bloqueio na Ragueb. Para ela, a solução seria ter mais opções de caminhos.

“Cidade Tiradentes está crescendo e precisamos de mais avenidas que tenham acesso, porque só a Ragueb não está dando conta. É o único meio que temos de acesso para tudo, todas as rotas caem na por lá para chegar na Tiradentes”, diz.

Ela comenta que a rotina de ficar parada no trânsito é muito cansativa e afeta a saúde. “Só sabe quem pega ônibus de segunda a sexta às 5 da manhã. A gente acorda 4 da manhã para conseguir pegar um ônibus às 5. É muito difícil. E quando consegue pegar, ficamos horas parados em pé dentro de um transporte público lotado igual uma sardinha”, lamenta.

Obra atrasada

As vigas que sustentam os trilhos e estações começam a tomar forma na região quase 11 anos após a inauguração das duas primeiras estações da linha, Vila Prudente e Oratório, abertas para teste em 30 de agosto de 2014.

Em decorrência da obra, alguns trechos da avenida tiveram redução de quatro para duas faixas. Além do estreitamento da via, semáforos quebrados, mudança de pontos de ônibus e sinalização confusa são alguns dos sintomas que a construção deixa no local.

Trânsito carregado próximo à futura estação Jacu Pêssego @Matheus Santino/Agência Mural

A Agência Mural perguntou para a CET ( Companhia de Engenharia e Tráfego de São Paulo) se existem dados anuais do trânsito na região, para fazer um balanço do antes e depois da obra.

Em resposta, a Companhia disse que, por conta das obras, são feitas interdições e mudanças na via a todo momento, o que atrapalha o trabalho de monitoramento.

Em nota, a CET afirma que a última pesquisa com contagem de veículos que trafegam pela Ragueb Chohfi foi feita em 2015.

“A lentidão se manteve menor no período de pandemia e, posteriormente, houve um aumento. No entanto, as obras do Monotrilho, ao longo da Avenida Ragueb Chohfi, acabam influindo na coleta de dados e na lentidão do trânsito”, diz a companhia.

Futura Estação Jacu Pêssego, no Iguatemi @Matheus Santino/Agência Mural

A previsão inicial do Governo de São Paulo para a entrega das duas estações e do pátio era para 2025. Atualmente, o prazo para que o trecho seja entregue é de Setembro de 2027.

Empresas e comércios afetados

A região do Parque Boa Esperança, bairro que vai receber uma das estações, tem sofrido mudanças drásticas na última década. Com a chegada do monotrilho, diversos comerciantes e moradores foram removidos e algumas partes do bairro ficaram anos com cara de “cidade fantasma”, até que as obras realmente começassem.

As remoções causaram um atraso das obras, mas foram necessárias para que fosse feito alargamento da avenida, que só conta com duas faixas em grande parte do trecho.

Com desvios na via, reforma no asfalto e intervenções nos dois sentidos, a região é caracterizada pelo trânsito caótico, o que afetou a rotina dos comerciantes locais.

Meire Sthefany, 50, é moradora da região e dona de uma floricultura na avenida. Ela conta que o congestionamento constante teve impacto na entrega dos produtos.

“Antes eu podia falar com franqueza a hora prevista, hoje eu prometo que vou fazer o possível para entregar no horário, por virtude do trânsito”, diz. A comerciante costuma enviar fotos da avenida para os clientes, para provar a situação.

A floricultura atende vários bairros da região e precisou mudar a logística das entregas. Meire comenta que um caminho que antes era feito em 15 minutos, hoje demora 40. “A gente vai por dentro, mas todo mundo tem a mesma ideia. Quando chega em um determinado trecho, está tudo travado do mesmo jeito”, relata.

A comerciante conta que mesmo para pedestres a situação está difícil, pela falta de sinalização e semáforos quebrados. “O farol funciona 1 hora e quebra 10. Quando eles vêm arrumar, já é à noite. Não é justo nem com os próprios operários, ficar trabalhando meia-noite à luz de refletor”, diz.

Tatiane Campos, 38, é instrutora de trânsito em uma autoescola da avenida. Moradora da região, ela também reclama sobre a dificuldade de transitar a pé. “Eles fecharam as calçadas do lado esquerdo, sentido centro, a gente não anda. Se eu preciso ir em um comércio do lado esquerdo, eu não consigo acessar”, reclama.

Pedestres têm dificuldade para se locomover na região @Matheus Santino/Agência Mural

Ela comenta que o transtorno das obras fez com que ela mudasse a rotina das aulas. “O período da manhã é bem complicado, porque é horário de fluxo sentido centro, então a gente evita esse sentido e costuma dar aula mais pelo bairro mesmo”, diz.

Especialista no trânsito da região, Tatiane conta que não existe mais horário de pico na Ragueb e que a qualquer momento a avenida está congestionada. Ela comenta que uma melhor sinalização poderia ajudar na situação.

Estação Boa Esperança em construção @Matheus Santino/Agência Mural

Histórico da Linha 15 e os 16 anos de incertezas

1

2009-2014: O histórico da linha prata é marcado por atraso nas obras, mudanças de prazos e fases de testes demoradas. As obras começaram em 2009, com previsão de entrega da linha completa em 2012. Mas as primeiras estações só foram inauguradas em 2014.

2

2014-2018: Após a abertura, a linha só recebeu novas estações 4 anos depois. O trecho entre São Lucas e Vila União conta com quatro estações, abertas em 6 de abril de 2018, sete anos após a previsão inicial.

3

2019: A estação do Jardim Planalto foi inaugurada em 26 de agosto de 2019, enquanto as estações Sapopemba, Fazenda da Juta e São Mateus entraram em operação em 16 de dezembro daquele ano, seis anos depois da previsão.

4

2021: A última estação aberta foi o Jardim Colonial, em 2021, em frente à Subprefeitura de São Mateus.

 

5

Só em 2027: Atualmente, além das duas estações no Iguatemi, a linha também está se expandindo para a Estação Ipiranga, na zona sul, que faz baldeação com a Linha 10-Turquesa da CPTM. O prazo de entrega é para 2027.

6

Incertezas: Hoje, os usuários vivem com a incerteza sobre qual será o itinerário total da linha e quando ela será finalizada. No desenho inicial, a linha teria mais quatro estações depois da Jacu Pêssego, o que atenderia os moradores da Cidade Tiradentes.

No site oficial do Metrô, a informação é de que “o trecho a partir de Jacu-Pêssego, com atendimento até Hospital Cidade Tiradentes, encontra-se em análise, uma vez que depende de ações conjuntas com a PMSP, principalmente no que se refere ao alargamento da Estrada do Iguatemi”.

Agência Mural

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Grupo fomenta a cultura do Skate no Iguatemi e ajuda a preservar pista https://agenciamural.org.br/grupo-fomenta-a-cultura-do-skate-no-iguatemi-e-ajuda-a-preservar-pista/ https://agenciamural.org.br/grupo-fomenta-a-cultura-do-skate-no-iguatemi-e-ajuda-a-preservar-pista/#respond Tue, 29 Jul 2025 21:26:56 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=73834 Inaugurada em dezembro de 2018, a Praça do Skate Jardim Iguatemi, na zona leste de São Paulo, se tornou o principal ponto de encontro dos skatistas da região. Mas não foi fácil conquistar o espaço. Antes da construção, um abaixo-assinado contra a pista chegou a ser feito, alegando que ali viraria um ponto de drogas. […]

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Inaugurada em dezembro de 2018, a Praça do Skate Jardim Iguatemi, na zona leste de São Paulo, se tornou o principal ponto de encontro dos skatistas da região. Mas não foi fácil conquistar o espaço.

Antes da construção, um abaixo-assinado contra a pista chegou a ser feito, alegando que ali viraria um ponto de drogas. “A ideia era fazer um posto policial aqui ou um heliponto. Inventaram um monte de coisa, mas a gente não arredou o pé”, relembra Bruno Ulian, 35, morador do Iguatemi e que anda de skate desde a adolescência.

No entanto, eles conseguiram driblar o preconceito e convencer da importância de ter uma área do tipo no bairro. Hoje, a pista reúne pessoas de diversas idades, desde crianças e adolescentes, até aqueles que tiveram que pavimentar o caminho para a nova geração.

Bruno Ulian esteve na linha de frente do projeto @Matheus Santino/Agência Mural

Perda para o futebol

A conquista da pista retomou um espaço para o esporte no bairro. Nascido e criado no Iguatemi, Bruno Cardoso, 41. anda de skate desde os 14 anos. Ele lembra que os skatistas se concentravam em um local onde hoje fica o Piscinão Limoeiro e um campo de futebol de várzea.

“Ali foi um exemplo de como o skatista precisa estar ligado à questão política do espaço, da sua existência e tudo mais. Nós perdemos a pista para o grupo do futebol. Nos prometeram outra, não deram e ninguém correu atrás”, lembra.

Vista da Praça do Skate Jardim Iguatemi @Matheus Santino/Agência Mural

Foram cerca de 15 anos sem um espaço apropriado na região, que só se tornou realidade depois de muita luta. Um dos fundadores do grupo Frente dos Skatistas e Amigos do Iguatemi e Região, Cardoso fez todo o projeto de arquitetura da pista voluntariamente.

Uilian também esteve na linha de frente do projeto. O skatista conta que a ideia da pista surgiu há mais de 12 anos e demorou para sair do papel.

“O assessor de um vereador [Gilson Barreto] passou na minha rua e eu falei: “é você que vai ajudar a gente”, e comecei a encher o saco dele. Ele falou que ia ajudar, porém, o vereador tinha que se reeleger primeiro. Assim que ele assumiu, já começou a fazer”, lembra Ulian. O legislador fez uma emenda ao orçamento para destinar recursos ao projeto.

Pista do Iguatemi já formou skatistas profissionais @Matheus Santino/ Agência Mural

No final do ano, a pista completará 7 anos. Ulian lamenta que tenha demorado tanto.

‘Quando a gente tinha idade para estar mais aqui, não tinha nada, por muitos anos a gente ficou sem. Chegou agora, mas as responsas estão aí’

Falta de apoio e o primeiro campeonato

A pista está localizada ao lado da Escola Estadual Jardim Iguatemi. O grupo teve o trabalho de convencer a comunidade de que a pista não ficaria abandonada e que seria algo bom para o bairro, mas o preconceito falava mais alto.

“O skate ainda não estava nas Olimpíadas naquela época, não ganhava a repercussão que ganha hoje. Mesmo assim, você ainda vê muito espaço de skate sendo combatido. Foi uma luta”, comenta Cardoso.

Bruno Cardoso projetou a pista do Iguatemi voluntariamente @Matheus Santino/ Agência Mural

Houve reuniões entre os skatistas, moradores e diretoria da escola na Subprefeitura de São Mateus para tratar do assunto. A Frente apresentou o projeto e os documentos e recusaram as propostas de fazer a pista em outro terreno, mostrando a importância que o local teria para o bairro.

Com a documentação, os skatistas convenceram a diretora da escola que ficou do lado deles no final.

O grupo organizou dois campeonatos na pista. O primeiro, em 2018, marcou a inauguração. Parcerias com grandes marcas e com comércios locais, barracas de comida, brinquedos e a presença de expoentes do skate na época fizeram deste um dos maiores eventos da modalidade na região.

“Chegaram a aparecer aqui a Raicca Ventura, que hoje é da seleção brasileira, Victoria Bassi, Wallace Gabriel, Ismael Henrique, todos andaram aqui quando eram amadores ainda. Esse campeonato foi marcante para a gente, lembramos dele até hoje”, diz Cardoso.

Apesar do sucesso, eles comentam que não conseguem mais fazer campeonatos, pelo trabalho para organizar e pela falta de apoio. “A gente fica com saudade, mas só para conseguir reformar e pintar a pista já é um parto”, reclama Ulian.

Pista sem manutenção

Os skatistas sempre fizeram um trabalho de manutenção e pintura na pista de forma voluntária, com parceria de lojas e fábricas de tintas que fornecem o material em troca de propaganda. Desde a inauguração em 2018, o grupo já pintou a pista 7 vezes, trazendo artistas do grafite para colaborar com a parte estética das rampas.

Eles dizem que a comunicação com a Subprefeitura de São Mateus, responsável pelo espaço público, tem sido complicada e a praça sofre com mato alto e falta de zeladoria.

“Já estava tudo no itinerário, aí mudou o subprefeito e parece que parou tudo, a gente tem que refazer o pedido e começar de novo, não sei por quê. Eles passaram no canteiro da avenida e para cá não vieram”, denúncia Ulian.

O skatista diz que, ao tentar contato com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente e com a Secretaria do Esporte e Lazer, foi orientado a ligar no 156 da Prefeitura.

Entorno da pista sofre com falta de zeladoria @Matheus Santino/ Agência Mural

A Frente produziu um portfólio para registrar todas as ações que fizeram no espaço. Em janeiro deste ano, Cardoso postou no Instagram fotos e vídeos de rachaduras na pista. “A última reforma na parte nova foi uma luta. Foram 19 tentativas, de vir e fazer o trabalho de novo. Por isso que a gente fez a reclamação no Instagram, porque era muita incopetencia”, diz.

O skatista usa as redes sociais para estimular mais pessoas a conhecer o espaço. Os dois também tentam incentivar a nova geração a cuidar da pista, algo que dizem ser difícil.

“A gente divulga o dia de pintura e eles[skatistas mais jovens] querem saber a data para não vir. Eles não entendem a importância que isso tem para o bairro.”, diz Cardoso.

Questionada pela reportagem sobre a falta de manutenção na pista de skate, a SMSUB (Secretaria Municipal das Subprefeituras), por meio da Subprefeitura São Mateus, informou que foi realizado o corte de mato e a limpeza da praça no último dia 7 de julho e que os serviços de varrição são executados duas vezes por semana no entorno.

Em nota, a Secretaria informou que “em relação ao parcão e ao gira-gira, será realizada vistoria para verificar a situação dos equipamentos e adotar as providências cabíveis”.

Legado

Um dos jovens que encontrou uma nova perspectiva na pista do Iguatemi é o skatista Kevin Silva, 20. Cria do espaço, ele anda de skate desde os 13 anos e sonha em se tornar profissional. “Sempre andei por amor e fui ter mais noção de que tinha como ganhar algo com isso conforme o tempo foi me mostrando. Hoje em dia eu tô nesse foco de virar profissional. Se Deus quiser, daqui uns anos, isso vai se realizar”, diz.

O jovem era morador do Iguatemi e fez as primeiras manobras na pista do bairro, que ele chama de “quintal de casa”. Para criar mais conexões com a cultura, ele acabou indo mais para o centro, já realizou viagens e corre campeonatos em diversos lugares da cidade, acumulando alguns troféus.

Kevin Silva sonha em se tornar profissional @Matheus Santino/Agência Mural

Apesar da desconfiança familiar no começo, Kevin conseguiu sua independência financeira graças ao skate.

“Hoje eu entendo minha mãe. Ela queria que eu fizesse faculdade e não via futuro só andando de skate. Eu tive muita paciência para lidar com isso e hoje ela vê a evolução, tanto ela quanto o meu pai e hoje em dia eles me apoiam muito”, conta.

Kevin agora mora no Jardim Santo André, em São Mateus, mas sempre faz questão de voltar ao lugar que serviu de base para seus aprendizados e destaca a pista como uma das mais completas da região.

Kevin fazendo manobras com o skate @Matheus Santino/Agência Mural

Para além da independência financeira e o sonho de ser profissional, o skatista diz que a pista trouxe lições de vida. “Tudo que eu sei eu aprendi aqui. Todo o conhecimento, a humildade, o respeito que eu tenho eu aprendi aqui. Aqui você consegue adquirir muitas coisas, não só a manobra”, completa.

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Agência Mural

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Como um grupo de apaixonados por Kombis se tornou uma rede de solidariedade em SP https://agenciamural.org.br/kombis-da-leste/ https://agenciamural.org.br/kombis-da-leste/#respond Tue, 24 Jun 2025 18:04:17 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=72915 Quem é da região dos distritos de São Mateus e Iguatemi, na zona leste de São Paulo, possivelmente já avistou um carro com o logo “Komb’s da Leste” na traseira. Geralmente, o veículo ostenta alguma pintura ou desenho chamativo, tem rodas diferentes, é rebaixado ou conta com alguns outros elementos que o fazem roubar a […]

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Quem é da região dos distritos de São Mateus e Iguatemi, na zona leste de São Paulo, possivelmente já avistou um carro com o logo “Komb’s da Leste” na traseira. Geralmente, o veículo ostenta alguma pintura ou desenho chamativo, tem rodas diferentes, é rebaixado ou conta com alguns outros elementos que o fazem roubar a atenção por onde passa.

Por trás dessas kombis chamativas está um coletivo que funciona como uma rede de apoio para motoristas, que se ajudam nas ruas em casos de emergência no trânsito.

O Komb’s da Leste nasceu em meados de 2014 no Jardim da Conquista, bairro do distrito de São Mateus. Elton Amaral, 41, conhecido como Eltinho, é um dos fundadores e atual tesoureiro do grupo. Ele explica que a ideia veio após passar quase um dia inteiro ajudando outros motoristas com carros quebrados nas ruas.

“Eu tinha uma Kombizinha e sempre quebrava, principalmente com a minha mulher. Todo dia alguém ajudava ela. Aí eu fiz uma promessa que todo carro que quebrasse na rua eu ia ajudar”, relembra. “Chegou um dia que não estava mais trabalhando, só ajudava o povo na rua.”

As Kombis chamam a atenção pelo estilo diferente @Matheus Santino/Agência Mural

Após o acontecimento, ele e mais dois amigos decidiram começar de vez a equipe. Pouco a pouco, o time foi crescendo. “Quando chegou entre 20 e 30 membros, nós oficializamos, colocamos diretoria, tesouraria e registramos certinho”, conta Eltinho.

O grupo virou uma marca registrada na região, com motoristas entrando em contato diariamente para fazer parte. Hoje, contabilizam mais de 200 membros, mas os integrantes cadastrados no geral chegam a 555.

A equipe está presente em toda a zona leste, mas também nas outras regiões da capital, além de cidades da Grande São Paulo, da Baixada Santista e do interior. Motoristas de outros estados, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, também fazem parte.

Além da solidariedade, eles também se encontram em eventos de amantes de veículos. A Agência Mural acompanhou o coletivo no evento automotivo Garage 02 Club, realizado no Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes. As Kombis foram exibidas junto com outros carros e chamaram a atenção de crianças e olhares atentos.

Comboio saindo do Iguatemi rumo à Cidade Tiradentes @Matheus Santino/Agência Mural

“Ser Kombeiro é um ideal de vida”

A Kombi nasceu em 1950 e comemorou 75 anos de história em 2025, com diversas gerações e mudanças com o passar do tempo. Transformada em um ícone cultural no Brasil, foram mais de 1,5 milhão de carros do tipo fabricados no país entre 1957 e 2013.

O veículo deixou de ser produzido por não conseguir atender às legislações que entrariam em vigor no ano seguinte, que contava com a obrigatoriedade da instalação de freios ABS e airbags frontais.

Trabalho, amigos e família são algumas das palavras usadas pelos motoristas para descrever o valor que a Kombi tem na vida deles.

Osny Cândido, 52, conhecido como Astronauta diz que “quase que por acidente, virou uma paixão.” Ele conta que já carregou moto duas vezes na sua Kombi, só para tirar uma pessoa que estava em uma pista de noite sozinho. “Nós não medimos esforços para ajudar.”

“Minha Kombi tem galão de gasolina e álcool, como eu viajo bastante, já dei combustível para as pessoas e nunca cobrei ninguém”, ressalta.

Durante o evento automotivo, uma das Kombis teve problema para subir uma rua e todos os motoristas voltaram para ajudar a empurrar, até que todos chegassem juntos ao evento.

“Se estivermos em um evento e tiver um carro quebrado, a gente para. Tem a romaria que nós vamos todo ano, nós seguimos em comboio, se quebrou, nós paramos, ajudamos, não deixamos ninguém na mão. Isso é para nós darmos certo”, diz Ademilson Aparecido, 41, conhecido como Deh, porta-voz do grupo.

As esposas e filhos também acompanham os motoristas. Por ser um grupo tão familiar, os diretores contam que montaram regras rígidas para os membros. “Alguns não concordavam com as regras, saíam e montavam outras equipes. Tá normal, isso não é problema. Cada um fica só onde se achar bem, né?”, diz Eltinho.

As regras são para que o nome do grupo não seja usado de forma indevida, como provocar infrações ou acidentes no trânsito e pedir ajuda do coletivo. Caso um motorista faça algo prejudicial nas ruas, ele é retirado da equipe.

Para além da fraternidade, a atitude também conta. Com o slogan “perua é a vovozinha”, eles dizem que cada carro tem que ter seu estilo. “Um parece um caminhão, outro é rebaixado, tem que ter a cara do motorista”, idealiza Deh.

Eltinho, Fiscal e Deh, membros da diretoria da Komb’s da Leste @Matheus Santino/Agência Mural

Ações sociais

A equipe também atua como uma espécie de ONG na periferia da zona leste. Desde o começo do grupo, eles criaram um trabalho social para ajudar pessoas em situação de rua.

Adilson Batista, 47, conhecido como Fiscal, um dos fundadores e atual presidente do grupo, explica que a ação social com as pessoas em situação de rua vai desde doações de roupas até distribuição de marmitas.

“A gente fazia 400 marmitas por dia. Hoje em dia a gente faz 300, 280 por dia, fora o café da manhã que a gente doa de madrugada. Se ta muito frio, a gente faz chá quente, chocolate e doa para o pessoal. Fora as roupas e cobertores que nós levamos também”, conta.

Grupo tem camisetas e bonés. Venda é destinada a ações sociais @Matheus Santino/Agência Mural

Além da iniciativa com pessoas em situação de rua, o grupo também começou a organizar festas na comunidade em feriados como a Páscoa e o dia das crianças, com distribuição de chocolates, brinquedos e atividades de lazer para as crianças do Jardim da Conquista.

Fiscal conta que todos podem entrar em contato e ajudar, seja comprando, entregando ou da forma que puder. O dinheiro arrecadado com as vendas de camisetas, bonés e outros produtos da lojinha da Komb’s da Leste é utilizado para as ações sociais que o grupo propõe.

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Agência Mural

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De São Mateus a capa da Vogue: Midria escreve sobre cura em novo livro https://agenciamural.org.br/de-sao-mateus-a-capa-da-vogue-midria-escreve-sobre-cura-em-novo-livro/ https://agenciamural.org.br/de-sao-mateus-a-capa-da-vogue-midria-escreve-sobre-cura-em-novo-livro/#respond Tue, 29 Aug 2023 15:52:57 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=51726 “Eu queria que toda menina negra tivesse desde pequena um telescópio. Pra mirar no céu estrelado e perceber a longeza onde seus sonhos podem alcançar” Esse é um trecho do texto “Preta Galáctica” de Midria Silva, 24, que a poeta descreve como uma poesia de afeto e incentivo para ela e todas as mulheres negras. […]

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“Eu queria que toda menina negra tivesse desde pequena um telescópio. Pra mirar no céu estrelado e perceber a longeza onde seus sonhos podem alcançar”

Esse é um trecho do texto “Preta Galáctica” de Midria Silva, 24, que a poeta descreve como uma poesia de afeto e incentivo para ela e todas as mulheres negras.

Escritora, poeta, slammer e cientista social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo), Midria recentemente lançou o segundo livro: “Cartas de Amor Para Mulheres Negras”.

A escritora gosta de escrever sobre problemas estruturais da sociedade e temas que precisam ser debatidos, mas o livro nasceu da necessidade que sentiu de falar sobre potência e os processos de cura e de felicidade.

“É aquele momento do final de semana que você vai para uma festa com pessoas parecidas com você, que são do mesmo bairro. Você vai para o baile, coloca o dedo para cima, você samba, você canta. É isso que faz a vida valer a pena também”, conta a escritora.

“Queria escrever mais sobre esses processos que são coletivos de cura e que também são individuais, em certa medida. É tudo um equilíbrio.”

A ideia do livro estava com Midria desde que escreveu “Preta Galáctica”, em 2018. No entanto, foi em 2021 que o processo de criação realmente começou, quando foi para uma residência artística chamada Terra Afefé.

Lá, Midria pôde se dedicar apenas ao processo criativo e experimentar uma calmaria que não se encontra na correria da cidade. “Fiquei duas semanas vivendo uma vida mais tranquila e a cada dia eu me obrigava a escrever”, diz.

A autora diz que “Cartas de amor para mulheres negras” foi “primeiro de tudo, uma carta de amor para mim mesma.”

“Salve, São Mateus! Salve, Recanto!”

Nascida e criada no Recanto Verde do Sol, no distrito de Iguatemi, zona leste de São Paulo, Midria teve o amor sempre presente na escrita. Seja o amor pela quebrada, o amor próprio ou o amor por outra pessoa.

O primeiro encontro com a escrita ocorreu logo aos 8 anos, na escola estadual que leva o nome do bairro, quando uma das professoras ensinou o que era poesia e pediu para que os alunos escrevessem como lição de casa.

“Na época eu estava apaixonada. Tinha um menininho que era da mesma turma que eu e jogava bola muito bem, era um menino pretinho lindo. Ficava “nossa, ele é o meu crush”. Na época nem tinha essa palavra, mas era ele que me inspirava”, conta.

O trabalho contemporâneo da poetisa destaca a fé, identidade de gênero e o amor @Matheus Oliveira/Agência Mural

Depois dessa inspiração, veio a paixão pela própria escrita, mas nada disso seria possível sem incentivos de programas educativos dentro da escola. Foi por meio da troca com outros colegas no projeto Círculo de Leitura que se conectou mais com o mundo das palavras.

Além de kits infantis vendidos na escola, Midria recebia livros de presente do patrão da sua avó, Dona Olinda, que trabalhava como diarista em uma casa na região do Aricanduva, também na zona leste. Isso fez com que conhecesse outros tipos de literatura e obras como “O menino do pijama listrado” logo aos 10 anos.

Tudo começou no Vale

Em uma noite, voltando da escola, encontrou um amigo do tempo do Círculo de Leitura, que lhe chamou para ir em um sarau recém fundado por uma ex-professora dos dois. O projeto era o Sarau do Vale, que desde 2015 é realizado “lá no topo do Recanto Verde do Sol”, como a própria página diz.

“Quando entrei no sarau, vi que tinha outras pessoas que estavam escrevendo, falando sobre as suas vivências raciais, de gênero, de classe. Virou uma chavinha de que eu também podia fazer isso”, conta.

Midria participa do Sarau do Vale na zona leste @Sarau do Vale/Divulgação

Em 2017, Midria ingressou na faculdade de Ciências Sociais, na USP. Foi nessa época que começou a circular mais pela cidade e conheceu o slam .

“Vivia muito circunscrita no espaço do meu bairro. A escola, o centro de estudos de línguas, o cursinho, era tudo na zona leste e eu não via muito o resto da cidade”.

Para a artista, o slam é uma vitrine, que a ajudou a ser vista e alcançar lugares e oportunidades. Um dos exemplos foi a participação no programa “Manos e Minas”, da TV Cultura: a apresentadora do programa, Roberta Estrela D’alva, assistia o slam e chamava os artistas para participar.

Mesmo com as diferenças de estilo entre sarau e slam, os dois foram a base da poeta. “Tanto o sarau quanto o slam fizeram com que eu me entendesse como artista da palavra, como poete. Se não fossem esses movimentos, eu não sei se teria tido acesso às oportunidades que tive”, completa.

Escrevendo o futuro

Além do livro recém lançado, atualmente Midria está rodando diversas casas de cultura com o espetáculo “A Menina Que Nasceu Sem Cor”, que leva o mesmo nome do primeiro livro, lançado em 2020, e que também ganhou uma versão infantil com ilustrações.

A ideia do livro veio entre 2018 e 2019, anos em que participou mais ativamente de slams. Inspirada em amigos poetas, como Igor Chico e Evolution, que publicaram os próprios livros, Midria percebeu que era possível e que estava na hora de colocar uma obra sua no mundo literário.

Midria começou a escrever nos tempos de escola @Sarau do Vale/Divulgação

Para a artista, os poemas estão em um lugar de interligados e relacionados com o que é a vida de uma pessoa negra, em especial para ela, que se identifica como uma mulher negra não-binária (Midria se refere a si mesma com os pronomes ela e elu).

“Enquanto para mulheres brancas, cis em especial, viveram nas últimas décadas lutando para que tivessem acesso ao mercado de trabalho, a gente está falando de mulheres negras que em sua maioria foram escravizados e não tinham opção de não trabalhar e é assim até hoje, quando você vai observar os status sociais”, aponta.

Recentemente, além de participar da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e rodar com o espetáculo, a escritora foi capa de duas revistas, Vogue e Glamour, e disse receber mensagens de pessoas que se sentem representadas por ela.

Perguntada sobre os próximos passos, a poeta diz que está com um novo livro escrito pronto para ser lançado e vai tratar sobre a solidão da mulher negra.

Após terminar o processo para o próximo livro, Midria tem escrito mais sobre as idas e vindas de um primeiro amor: namorando pela primeira vez aos 24 anos, diz que isso é algo exemplar de como é solitário ser uma mulher negra na sociedade, mas que tem buscado escrever mais sobre o futuro e como isso está ligado ao amor.

“O amor por outras possibilidades de existência, que a gente pense outros mundos, outros sentidos, outras conexões que nos levem sempre para esse lugar de potência, de uma vida plena”

Midria
Agência Mural

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No Iguatemi, idade ao morrer é 20 anos menor do que no Jardim Paulista https://agenciamural.org.br/no-iguatemi-idade-ao-morrer-e-20-anos-menor-do-que-no-jardim-paulista/ https://agenciamural.org.br/no-iguatemi-idade-ao-morrer-e-20-anos-menor-do-que-no-jardim-paulista/#respond Wed, 30 Nov 2022 22:29:31 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=43056 Com cerca de 151 mil moradores e formado por 15 bairros, o distrito do Iguatemi, na zona leste de São Paulo, conta com uma grande área verde por estar próximo à Mata Atlântica. Os ares de interior em meio à maior cidade do país, no entanto, carregam um dado negativo: a região é onde os […]

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Com cerca de 151 mil moradores e formado por 15 bairros, o distrito do Iguatemi, na zona leste de São Paulo, conta com uma grande área verde por estar próximo à Mata Atlântica. Os ares de interior em meio à maior cidade do país, no entanto, carregam um dado negativo: a região é onde os paulistanos morrem mais cedo.

Segundo o Mapa da Desigualdade 2022, lançado na última semana pela Rede Nossa São Paulo, o Iguatemi é o distrito da capital com a menor idade média ao morrer. Os dados mostram que, em média, os moradores morrem com 59,3 anos, a menor idade entre os 96 distritos que aparecem no estudo.

Isso é mais de 20 anos a menos do que o Jardim Paulista, área nobre da zona oeste, que tem a média de 80 anos – a mais alta da cidade. A média geral no município é de 68,1 anos.

Vista para os bairros Recanto Verde do Sol, 3ª Divisão e Pinheirinho @Matheus Santino/Agência Mural

José Domingos, 67, é morador do Iguatemi desde 1978 e líder comunitário do bairro Jardim Alto Alegre há 42 anos. Natural de Pernambuco, ele é mais um dos imigrantes nordestinos que ajudaram a construir e levantar a região. Para ele, a situação apresentada no estudo se dá muito pela precarização do trabalho no distrito.

“Os empregos ofertados no começo dos anos 1980 eram em áreas vulneráveis. Na região do bairro 3º Divisão e da avenida Sapopemba, a evolução do trabalho é baseada em construção civil, metalúrgica e fundição. São coisas pesadas e, se a pessoa está nessa linha de trabalho, a tendência dela é chegar só nessa idade mesmo”, avalia.

Vale destacar que “idade média ao morrer” é diferente de “expectativa de vida”. Essa última refere-se a uma estimativa projetada do número médio de anos que a população de um local (ou um recorte dessa população) deve viver, caso sejam mantidas as mesmas condições de vida no momento do nascimento.

Outros dados do Mapa confirmam a fala de Domingos, já que o Iguatemi aparece como o segundo pior distrito na oferta de emprego formal, com uma média de 0,4 postos para cada dez moradores em idade economicamente ativa. A região ficou empatada com Anhanguera (0,4), na zona noroeste, e na frente apenas de Cidade Tiradentes (0,3), na região leste.

Ainda assim, segundo o líder comunitário, muita coisa mudou nesses 40 anos. “Nos anos 1980, a construção de moradias acelerou por aqui. Hoje estamos mais seguros. Mesmo estando em uma área irregular, conseguimos, através da mobilização, segurar esses fatores”, conta.

Precariedade na saúde e no transporte

A estudante de direito Iris Leite, 33, mora no Jardim Alto Alegre desde que nasceu. Ela diz ter uma relação de carinho com o bairro, que se mescla com a indignação de ver a região às margens da cidade. “Sinto o Iguatemi como uma grande potência, sinto que tem muita coisa boa aqui e que podemos melhorar”, diz.

Iris mora no Iguatemi há 33 anos e trabalha em UBSs dos bairros próximos @Arquivo pessoal

Ela trabalha no SUS (Sistema Único de Saúde) há 7 anos em postos de saúde nas proximidades. Dos tempos de criança para cá, Iris comenta que percebe um grande êxodo de pessoas para o distrito – que não tem espaço para comportar tantos moradores, resultando no aumento de ocupações irregulares.

“Temos uma população muito adoentada no Iguatemi. As ocupações não têm saneamento básico, então que tipo de água as crianças estão tomando? Isso impacta na saúde, uma coisa vai puxando a outra”

Iris Leite, moradora do Jardim Alto Alegre

Segundo a Prefeitura de São Paulo, o Iguatemi tem cinco UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e duas AMA/UBS integradas (Assistência Médica Ambulatorial). Iris diz ser muito pouco para o tamanho populacional do distrito.

“Os postos de saúde são extremamente lotados, você vai marcar uma consulta e só consegue para daqui a três meses, quando tem. Nós não damos conta, é angustiante, 80 mil pessoas cadastradas em uma UBS com cinco salas. Como vamos dar conta de tanta gente?”, questiona.

Para além da saúde, o transporte também é um problema. Apesar da chegada das estações Jardim Colonial e São Mateus, da linha 15-Prata do Monotrilho, o Iguatemi tem uma das maiores taxas em tempo médio de deslocamento por transporte público: 56 minutos. A média na cidade é de 42 minutos.

De acordo com o Mapa, o tempo é medido em minutos de deslocamento no pico da manhã em cada distrito. Antes da estação de São Mateus, o Metrô mais próximo da região ficava em Itaquera, na zona leste, a cerca de 12 km de distância, e ainda é o destino de muitos passageiros que precisam pegar a linha 3-Vermelha.

“São fatores relevantes para entender por que temos uma população com expectativa de vida menor. São pessoas que vão trabalhar e demoram duas horas para ir e duas para voltar. Estamos longe de tudo, você sai para se divertir, pega ônibus e o Metrô, e já chega cansado”, avalia Iris.

Extremo leste

Nesta versão do Mapa da Desigualdade (lançado anualmente desde 2012), os três distritos com a menor média de idade ao morrer ficam no extremo leste da capital: Iguatemi, Cidade Tiradentes (59,4) e São Rafael (59,8), além de Guaianases (61,2) e Lajeado (61,5) que também figuram entre os dez com a média mais baixa.

No ano passado, a Cidade Tiradentes aparecia com a menor média: 58,3 anos, enquanto a maior ficou com Alto de Pinheiros (80,9), na zona oeste.

Tanto José quanto Iris concordam que o levantamento ajuda a identificar problemas e escancarar situações de desigualdade que os moradores do Iguatemi veem todos os dias.

Perguntada sobre quais atitudes podem ser tomadas para melhorar essa situação, a estudante de direito diz que são necessárias políticas públicas eficazes por parte do estado e do município para que “os moradores tenham mais direitos do que deveres, e não passem grande parte do dia dentro de um ônibus”.

“Nós não estamos pedindo muito, é o básico para minimamente viver com dignidade. Eles falam tanto que a vida é um valor, que a vida é importante, mas qual vida é importante? A vida de quem mora no Jardim Paulista, né? Porque lá eles vivem até os 80 anos, aqui nós vivemos até os 59”, conclui Iris.

Para conferir o Mapa da Desigualdade completo, clique aqui!
Agência Mural

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