‘Poeta não é uma profissão, é um castigo’, diz Sérgio Vaz sobre os 30 anos de carreira

Karol Coelho
Paula Rodrigues
Léu Britto

Desde criança, Sérgio Vaz, 54, deseja ser jogador de futebol. “Gosto de falar isso: o sonho nunca envelhece. Às vezes, acordo à noite jogando bola”, diz o escritor que torce para o Palmeiras. “É a minha frustração, porque o futebol é a coisa que tenho mais paixão”, diz. Vaz completou 30 anos de carreira na última semana como um dos principais autores das periferias de São Paulo. 

Receba nossa newsletter!

Sentado na laje do bar Zé Batidão, no Jardim Guarujá, zona sul de São Paulo, ele conta como é ser poeta. “Poeta não é uma profissão, é um castigo, porque talvez seja um cara ou uma mina que quer carregar a cruz nas costas, cruz dos outros e todas as causas. Acha que tem solução para tudo”.

Em 1971, o pai de Vaz veio para o bairro e esse bar era dele. Da cidade em que nasceu, Ladainha, no interior de Minas Gerais, tem poucas lembranças. “Voltei lá uma vez para conhecer, mas acho que sou dessa terra aqui. Sou da periferia de São Paulo”, afirma.

O gosto pela literatura nem sempre foi bem aceito. Ele lembra que quando jogava futebol, de várzea ou de salão, os caras falavam com uma conotação negativa “o cara é poeta, escreve poesia”. No entanto, ao lançar o primeiro livro “Subindo a ladeira mora a noite”, em 10 de dezembro de 1988, deixou de ter vergonha de dizer o que era. “Independente de ser bom ou ruim, eu sou poeta”, disse para si mesmo com a obra em mãos.

Houve um tempo que não gostava de poesia. “Tinha preconceito, né? Periferia, machismo. Achava também que era coisa de gente que falava difícil”. Mas, por meio das letras de músicas, descobriu as metáforas e se arriscou a compor. “Mas elas [as letras] já eram poesias. Não serviam para músicas porque não enquadravam nas métricas”.

Cheio de angústias, foi sobre elas que começou a escrever. “Sempre falava em liberdade, em conhecer o mundo. Até me achava meio estranho por isso: morar em um lugar onde as ruas não tinham asfalto, extremamente violento, e sonhando com o mundo”, reflete.

Desses anseios, nasceu em 2001 a Cooperifa, iniciativa cultural que iniciou com um sarau e desencadeou em diversas atividades literárias. O evento fez com que fosse conhecido não só pelas palavras, mas pelo movimento que escreve com outras pessoas tão apaixonadas pela periferia quanto ele.

A partir daí, passou a sentir-se menos sozinho. “Quando me juntei com outras pessoas, me senti mais fortalecido e me senti um poeta também, porque existe a solidão dos livros, e ela é terrível. Com os saraus eu comecei a conversar com pessoas sobre tudo aquilo que queria falar toda a minha vida”, conta.

Como reconhecimento pelo trabalho, no mesmo dia em que comemora 30 anos do primeiro livro lançado, o poeta foi homenageado na Assembleia Legislativa de São Paulo com o prêmio Santos Dias, direcionada às pessoas ou instituições com ações em prol dos direitos humanos.

Sergio Vaz completou 30 anos de carreira (Léu Britto/Agência Mural)

Vaz diz acreditar que para a periferia a poesia é voz: “Muito mais que palavra porque a palavra todo mundo tem, mas às vezes a gente emitia nossa voz e ninguém escutava. Eu acho que a poesia fez com que as pessoas nos escutassem. Tanto que, acho, hoje as pessoas vão aos saraus que acontecem em São Paulo para serem ouvidas”.

Kauã Cardozo, 15, mora no Parque Vila Maria, zona norte, e conheceu a poesia de Sérgio Vaz após integrar o grupo Vopo (Vozes Poéticas), um coletivo cultural criado na EMEF Paulo Carneiro Thomaz Alves Gal, escola em que estuda. O texto de Sérgio Vaz que o menino costuma recitar em eventos que participa é também o preferido do poeta: “Os Miseráveis”.

Os Miseráveis
‎Vítor nasceu… no Jardim das Margaridas.
Erva daninha, nunca teve primavera.
Cresceu sem pai, sem mãe, sem norte, sem seta.
Pés no chão, nunca teve bicicleta.
Já Hugo, não nasceu, estreou.
Pele branquinha, nunca teve inverno.
Tinha pai, tinha mãe, caderno e fada madrinha.
Vítor virou ladrão, Hugo salafrário.
Um roubava pro pão, o outro, pra reforçar o salário.
Um usava capuz, o outro, gravata.
Um roubava na luz, o outro, em noite de serenata.
Um vivia de cativeiro, o outro, de negócio.
Um não tinha amigo: parceiro.
O outro, tinha sócio.
Retrato falado, Vítor tinha a cara na notícia,
enquanto Hugo fazia pose pra revista.
O da pólvora apodrece penitente, o da caneta
enriquece impunemente.
A um, só resta virar crente, o outro, é candidato a presidente.

Ele decorou a poesia com um amigo e gravaram um vídeo declamando os versos, que chegou até o autor. Vaz compartilhou e ainda ligou para o professor para conhecer os meninos e visitar a escola. “Foi fantástico. A gente está acostumado com poetas mortos e aí um poeta veio na nossa escola”, lembra empolgado. Kauã participou com a turma e professores do sarau de celebração da carreira de Sérgio Vaz na terça-feira (11).

Kauã declama poesia de Vaz (Léu Britto/Agência Mural)

“Espero que essa molecada carregue a tocha um pouco”, fala Vaz sobre o futuro. “Vejo jovens mais bonitos, mais alegres, com mais raiva e mais coragem do que eu. Sou fã dessa juventude. Sinto que devia ter feito mais, mas é o que a gente pode fazer”.

O poeta, que encontrou seu jeito de se comunicar com o mundo, não tem o sentimento de dever cumprido, mas demonstra-se feliz com o caminho percorrido até aqui. “Sou alguém que quando deita, olha pra cena [cultural] e fala ‘poxa também colaborei com isso’. Me dá orgulho de saber que um pouco da minha vida foi dedicado à palavra, à poesia e à periferia”.

Karol Coelho é correspondente do Campo Limpo

Léu Britto e Paula Rodrigues são correspondentes de Monte Azul e Vila Albertina

A Agência Mural quer te conhecer: responda nossa pesquisa de audiência

Acontece na Escola

0 thoughts on “Do rural ao urbano: a história do berço do samba paulista em Pirapora”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *