Agência Mural https://agenciamural.org.br/tag/racismo/ A Agência Mural produz jornalismo sobre, para e pelas periferias, com correspondentes locais que combatem estereótipos e ampliam o acesso à informação. Sat, 07 Mar 2026 19:56:36 +0000 pt-BR hourly 1 O foco é não ser confundido: coisas que só quem é preto entende https://agenciamural.org.br/o-foco-e-nao-ser-confundido-coisas-que-so-preto-entende/ https://agenciamural.org.br/o-foco-e-nao-ser-confundido-coisas-que-so-preto-entende/#respond Wed, 16 Jul 2025 22:00:31 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=73456 Diariamente é noticiado na televisão casos de policiais tirando a vida de pessoas pretas e periféricas. Na última sexta-feira (4) de julho, um caso em especial me chamou atenção:  Guilherme Dias Santos Ferreira, 26, foi “morto por engano” após um policial militar o “confundir” com um bandido em Parelheiros, na zona sul de São Paulo. […]

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Diariamente é noticiado na televisão casos de policiais tirando a vida de pessoas pretas e periféricas. Na última sexta-feira (4) de julho, um caso em especial me chamou atenção:  Guilherme Dias Santos Ferreira, 26, foi “morto por engano” após um policial militar o “confundir” com um bandido em Parelheiros, na zona sul de São Paulo.

Guilherme carregava uma marmita, talheres, um livro e a roupa de trabalho na mochila. No momento em que o disparo foi efetuado, o jovem corria para pegar o ônibus para voltar para casa. E entre tantos casos, fiquei me perguntando por que esse especificamente me chamou a atenção?

Não precisei refletir muito para entender. Desde que me conheço por gente ou desde que me percebi como uma mulher negra e periférica, tomo alguns cuidados para que, assim como Guilherme, eu não seja confundida.

Recentemente, estávamos meu namorado, homem preto, e eu, caminhando em um bairro nobre de Pirituba, na zona norte de São Paulo, após um passeio no parque.

Usávamos roupas de treino, nada muito elaborado, e então tive a brilhante ideia de filmar as casas da rua para mostrar para meus amigos o quanto elas eram bonitas, porém, no mesmo instante me corrigi e guardei o celular.

Pensei comigo: “E se essas mansões, cheias de câmeras, são assaltadas? E se eles vêem na câmera duas pessoas pretas, que não moram ali, gravando as casas? Claro que vão achar que fomos nós!”

Ilustração mostra cinco homens correndo. Todos de camisa branca e calção azul, mas cada um com uma tonalidade de pele do mais branco ao mais negro

Ficar atento a como se comportar em mercados ou em restaurantes é algo comum no nosso dia a dia @Magno Borges/Agência Mural

Para quem é uma pessoa branca isso vai parecer uma bobagem ou uma paranóia sem fim, daquelas que precisam ser tratadas na terapia.

Mas, para quem é uma pessoa negra, o entendimento será imediato. 

O medo de “ser confundido” é tão grande que não conseguimos agir com naturalidade boa parte do tempo em lugares comuns como mercados, shoppings, restaurantes e lojas no geral.

Sair do mercado sem comprar nada pode ser uma tarefa difícil. Automaticamente surgem na cabeça vários questionamentos e o medo de um segurança achar que estamos roubando. O medo de parecer um suspeito é tanto que às vezes a gente fica mesmo parecendo um.

Quando o assunto é restaurante chique, sempre surge um questionamento interno: “Será que vão achar que não tenho dinheiro pra pagar a conta?”. Esse é, de fato, um pensamento desestimulante. Já deixei de entrar em vários lugares que queria muito conhecer por receio do que iam pensar de mim, se seria maltratada e se me sentiria desconfortável.

Correr na rua então? O que pra muitos é uma simples atividade saudável, para nós, muitas vezes é correr o risco de acharem que você está fugindo de algo. Principalmente se na sua frente tem uma pessoa branca correndo também.

No inverno, o cuidado é redobrado e a preocupação com os nossos também. Meu pai, também homem preto, ganhou da minha mãe neste inverno uma jaqueta preta com touca para ir trabalhar.

Para mim, é inevitável não pensar nos perigos de um homem preto, que vai para o trabalho às 4h da manhã todos os dias, estar na rua de jaqueta preta e com touca.

Esses dias, inclusive, li um post de Instagram do cientista social Rodney William uma mensagem que dizia: “Há pessoas que não podem usar toucas, carregar furadeiras ou guarda-chuvas, circular tranquilamente em bairros nobres ou shoppings de alto padrão, pessoas que apresentam riscos mesmo quando estão apenas saindo do trabalho”. 

No fim, é fácil entender o que me tocou tanto no caso do Guilherme…

Agência Mural

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Marcos Black estreia no audiovisual com curta Posse Hausa ‘A Flor do Baobá’ https://agenciamural.org.br/marcos-black-estreia-curta-a-flor-de-baboa-em-sao-bernardo/ https://agenciamural.org.br/marcos-black-estreia-curta-a-flor-de-baboa-em-sao-bernardo/#respond Mon, 30 Jun 2025 15:21:15 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=73105 Quando Marcos Roberto da Silva, 52, começou o projeto do filme “Posse Hausa — A Flor do Baobá” , ele tinha como um dos objetivos apresentar o curta nas escolas e ajudar em algo que enfrentou quando estudava. “Já sofri muito racismo e sei como esse tipo de violência é um divisor de águas para […]

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Quando Marcos Roberto da Silva, 52, começou o projeto do filme “Posse Hausa — A Flor do Baobá” , ele tinha como um dos objetivos apresentar o curta nas escolas e ajudar em algo que enfrentou quando estudava.

“Já sofri muito racismo e sei como esse tipo de violência é um divisor de águas para o aluno decidir ou não prosseguir nos estudos”, afirma o artista que é morador de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Conhecido como Black Alquimista, ele lançou o primeiro curta-metragem da carreira em 27 de junho, no Teatro Elis Regina, em São Bernardo do Campo, com o auxílio da Lei Paulo Gustavo.

Black diretor do filme e o protagonista Marcos Bernardo que foi prestigiado na estreia do curta ‘A Flor de Baobá’ @Daniela Ferreira/Agência Mural

Posse Hausa é um documentário híbrido que mistura realidade com ficção. A narrativa acompanha um adolescente de 14 anos que começa a estudar a Revolta do Malês, em 1835, em Salvador, na Bahia, e o coletivo Posse Hausa, do qual é um dos criadores no ABC Paulista.

O filme também conta com entrevistas com outros fundadores da organização. A obra é uma novidade depois de uma carreira longa como produtor musical, MC, beatmaker e sonoplasta.

Carreira musical

Com um jeito calmo e comunicativo, Black recebeu a Agência Mural em seu estúdio para a entrevista. Logo ao chegar, é possível ver um mural com a palavra “oráculo” e diferentes quadros de figuras importantes para a história negra, espalhados pelas paredes da sala.

Antes de começarmos a conversa, o diretor fez questão de mostrar a vista da região. No andar de cima, era possível ter uma visão de diferentes periferias da cidade, como a Vila São Bernardo e a Vila São Pedro.

A ligação entre Black e arte começou ainda quando ele era criança. O avô materno dele era músico autodidata, e o pai tocava viola. Black relembra que passou grande parte da infância ouvindo os discos de música caipira do pai. O patriarca tinha o hábito de sempre comprar novos discos na volta do trabalho.

“Cresci ouvindo músicas de moda de viola e MPB. E depois, quando eu me tornei compositor, percebi o quanto essas canções me influenciaram a escrever músicas que também eram histórias sobre a realidade que eu vivia”, conta o artista.

O ano de 1983 foi decisivo na vida do MC. Michael Jackson havia lançado a música Billie Jean e os grupos de breakdance estavam se tornando cada vez mais populares no Brasil. O diretor relembra como esses eventos foram importantes para o começo dele na música.

“O disco que mudou a minha vida”, diz apontando para a capa do vinil de Billie Jean. “Lembro que, na época, o meu professor de educação artística disse que quem dançasse igual ao Michael Jackson ganharia nota na aula. E isso me animou, porque eu e os meus amigos já estávamos dançando… Me conectei com a música através da dança”, fala o músico.

Mas foi como rapper que ele montou o primeiro grupo musical, ainda na adolescência, com alguns colegas de escola. O “Solução Rap” estreou na década de 1990 no Esporte Clube São Bernardo, mas, infelizmente, não teve uma boa recepção do público.

O disco em vinil é uma edição única do grupo Alquimistas, do qual Black foi integrante @Daniela Ferreira/Agência Mural

“Na minha primeira apresentação, fui vaiado”, conta rindo. “A gente não entendia o processo musical do rap, ainda estava sendo construído. O público ainda estava sendo formado, geralmente quem cantava também era parte da plateia”, lembra.

Para Alquimista, a aproximação com a arte foi fundamental para lidar com o racismo enfrentado ao longo da vida.

“Costumo falar para a minha esposa que se não fosse a arte, talvez eu teria acumulado muita coisa. A arte é o meu refúgio, o meu equilíbrio. A arte é um meio de libertação para as pessoas”, declara o produtor.

Fundação da Posse Hausa

O envolvimento de Black com o hip-hop o levou para além dos palcos. O artista também ajudou a fundar o coletivo Posse Hausa.

Criado em 26 de junho de 1993, surgiu em meio a encontros de jovens fãs de hip hop realizados em pistas de skate. Posse significa reunião de pessoas, enquanto Hausa é um dialeto africano falado por muitos dos africanos escravizados que participaram da Revolta dos Malês, em 1835, em Salvador, na Bahia.

Entre as atividades feitas pelo coletivo, uma das mais marcantes para Marcos foi a produção de folhetos contendo informações sobre personalidades importantes para a história negra. Os materiais eram distribuídos em eventos.

O documentarista presenteou todos os integrantes do filme com um pôster do curta @Daniela Ferreira/Agência Mural

“Esses panfletos rodaram o mundo e trouxeram reconhecimento para o nosso coletivo. Por causa deles, até a ONG Universal Zulu Nation entrou em contato conosco”, narra o MC.

Após anos de trabalho como MC e produtor musical, Black viu na aposentadoria, conquistada por tempo de trabalho, a oportunidade de retomar uma antiga paixão: o audiovisual. Entre os cursos que fez, o diretor foi aceito para estudar no CAV (Centro de Audiovisual) de São Bernardo do Campo.

“Sempre quis que as minhas músicas fizessem parte da trilha sonora de um filme”, confessa Black. “Além disso, como uma pessoa negra, não quero ter que esperar que o outro conte a nossa história”, pontua o cineasta.

Posse Hausa — A Flor do Baobá

Local: Casa da Palavra

Endereço: Praça do Carmo, 171 – Centro- Santo André

Horário de funcionamento: Dia 16/07 das 19h às 21h

Formas de pagamento: Gratuito

Local: Fábrica de Cultura Diadema

Endereço: Rua Vereador Gustavo Sonnewend Neto -135 – Centro- Diadema

Horário de funcionamento: Dia 26/07 das 16h às 18h

Formas de pagamento: Gratuito

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Agência Mural

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Ao povo negro das periferias: já raiou a liberdade?  https://agenciamural.org.br/ja-raiou-a-liberdade/ https://agenciamural.org.br/ja-raiou-a-liberdade/#respond Tue, 13 May 2025 15:07:27 +0000 https://agenciamural.org.br/?p=71271 “Será que já raiou a liberdade ou se foi tudo ilusão? Será, ô, será que a Lei Áurea tão sonhada, há tanto tempo assinada não foi o fim da escravidão?”.  Com esses versos, a escola de samba Estação Primeira de Mangueira iniciou o samba-enredo “100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”, do carnaval de 1988. […]

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“Será que já raiou a liberdade ou se foi tudo ilusão? Será, ô, será que a Lei Áurea tão sonhada, há tanto tempo assinada não foi o fim da escravidão?”. 

Com esses versos, a escola de samba Estação Primeira de Mangueira iniciou o samba-enredo “100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”, do carnaval de 1988. Naquele ano, se comemorava o 100° aniversário da assinatura da Lei Áurea, que libertou, juridicamente, a povo negro da escravatura. 

Passados 37 anos do desfile, as mesmas perguntas da canção seguem ecoando no país – e ainda mais forte nas periferias.

Infelizmente, a população negra periférica ainda não tem o sol da liberdade ao seu alcance. O direito de ir e vir foi dado, mas integralmente? O Mapa da Desigualdade de 2022 mostrou que os 15 distritos de São Paulo com mais de 50% dos moradores autodeclarados negros ficam em regiões periféricas da cidade. Já o Censo 2022, divulgado pelo IBGE, revelou que pretos e pardos representam 72,9% dos moradores de favelas do Brasil.

Não que morar nas periferias seja um problema para nós, pessoas negras. Pelo contrário, as vezes são nesses espaços que a gente se sente acolhido e que a nossa negritude se floresce. Porém, a segregação e a falta de acesso a direitos básicos e cotidianos nos esmagam.

Esta realidade ficou explícita com a morte de Lourivaldo Ferreira Silva Nepomuceno, 35, que ficou preso entre o trem e a plataforma na estação Campo Limpo, da Linha 5- Lilás do metrô de São Paulo, no último 6 de maio. Quando é preciso arriscar a vida para entrar no coletivo lotado, podemos dizer que a população negra tem liberdade de transitar pela cidade?

Lourival foi vítima de um sistema que esmaga a negritude diariamente. Aquela que precisa acordar antes do sol nascer e trabalhar quase 10h por dia, indo e vindo em ônibus e vagões sem espaço nem para respirar. A negritude que tem sua liberdade debochada quando a prefeitura de São Paulo reduz a frota de ônibus em quase 800 coletivos, tomando por base o mês de outubro de 2024 em comparação com o período pré-pandemia. 

Uma negritude que vê seu tempo de deslocamento por transporte público chegar a 2h47 por dia na capital paulista, segundo a Rede Nossa São Paulo – mais tempo fora de casa do que no próprio lar, atravessando uma das maiores cidades do mundo para ganhar o pão de cada dia.

Falta liberdade quando apenas 11,2% da população negra tem o curso superior completo, segundo o Censo 2022. Falta liberdade quando sete a cada dez pessoas negras vivem em lares sem descarte adequado de esgoto, também de acordo com o Censo. Falta liberdade quando 77% dos assassinatos no país em 2023 foram de pessoas negras, como mostra o Atlas da Violência.

No final das contas, é a negritude que ainda carrega nas costas as principais mazelas do “mundo cão” que a gente vive, como diria Emicida. Os dados evidenciam tudo, mas os anos de escravatura e uma liberdade fajuta muias vezes faz com que o povo negro não consiga ver sua associação com a raça. 

Ainda bem que cresce nos últimos anos a consciência sobre a importância da população negra, em sua maioria das favelas, para esse país. Há uma luta cada vez maior pela liberdade do povo negro, mas ainda há muito trabalho pela frente.

“Moço, não se esqueça que negro também construiu as riquezes do nosso Brasil”, lembra o samba da Mangueira. Vamos seguir com olhar atento para a importância do povo negro para esse país e para a luta pela verdadeira liberdade, com dignidade, saúde e vida.

Axé!

Fontes: G1, Valor Econômico, Agência Mural, TV Cultura, Globo e G1

Agência Mural

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‘Ocupar a represa ao lado das mulheres negras é minha forma de existir’, diz velejadora de SP https://agenciamural.org.br/velejadora-roda-de-afetos-represa-billings/ https://agenciamural.org.br/velejadora-roda-de-afetos-represa-billings/#respond Wed, 07 Feb 2024 11:10:00 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=56215 “Quando vou para a água, não estou sozinha”, diz Laís Guimarães, 27, velejadora, educadora ambiental e ativista social. Moradora do Jardim Gaivotas, no extremo sul de São Paulo, ela faz parte da Roda de Afeto, Arte e Cultura, iniciativa que busca capacitar mulheres, em sua maioria negras e periféricas, a aprender a usar o barco […]

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“Quando vou para a água, não estou sozinha”, diz Laís Guimarães, 27, velejadora, educadora ambiental e ativista social. Moradora do Jardim Gaivotas, no extremo sul de São Paulo, ela faz parte da Roda de Afeto, Arte e Cultura, iniciativa que busca capacitar mulheres, em sua maioria negras e periféricas, a aprender a usar o barco a vela e desbravar as águas da Represa Billings.

“É para tentar lutar como as minhas ancestrais fizeram”, conta ela. “Ocupar a represa ao lado de outras mulheres negras é um ato revolucionário: estamos acessando uma parada que não foi pensada para nós”, completa.

Mesmo que a represa seja um dos maiores e mais importantes reservatórios de São Paulo, muitos moradores da região não conhecem a história desse espaço e a potência em acessar essa região. Ao promover a vivência náutica, a ação estimula a prática esportiva e a identidade local.

Laís Guimarães ao lado do barco “Vitória” que está em reforma @Isabela Alves/ Agência Mural

Por meio do trabalho de base, Laís busca desmistificar as incertezas e levar cada vez mais pessoas de todas as idades para a água.

‘A gente é ribeirinho. Antigamente, muitas famílias se alimentavam com os peixes e hoje está se perdendo isso, porque os pescadores estão sendo retirados das margens’

Laís Guimarães, ativista social moradora do Jardim Gaivotas

Na terceira reportagem do especial “Periferias e Justiça Climática : alternativas ambientais para os nossos”, vamos conhecer a história da ativista que cresceu às margens da represa e busca democratizar esse espaço para outras pessoas das periferias.

O início na vela e o ativismo social

Laís é apaixonada pelas águas desde menina. Quando tinha 7 anos, conheceu a Casinha, espaço que abriga diversos coletivos do Grajaú. Atualmente, além da roda de afeto, também ocupam o espaço o Imargem, Navegando nas Artes e O que cabe no meu prato?.

Nesse local, ela conheceu o barco a vela e começou a participar de diversas atividades. Em uma delas, de virar e desvirar o barco da represa, seu tio a viu dentro da água. “Ela quase morreu”, alertou o tio aos pais da menina.

“Se você pega o vento muito forte e não tiver muita habilidade, o barco vira. Então você tem que aprender a técnica”, explica Laís.

Depois desse dia, os pais dela a proibiram de voltar a navegar. Com o desligamento de uma de suas maiores paixões, ela seguiu sentindo muita falta de estar na água. Ao chegar na vida adulta e passando por diversos trabalhos, sentia que ali não era o seu lugar.

A represa Billings é a maior em área em São Paulo @Isabela Alves/ Agência Mural

Em 2018, passou por um processo de depressão profunda e conheceu a terapia ocupacional. Depois de muitas consultas, a terapeuta a tirou do consultório e a levou para uma roda com cerca de 30 mulheres no CEU Navegantes, no bairro do Cantinho do Céu. A Roda de Afeto teve início naquele ano, em 8 de março.

Após três anos de tratamento, Laís compreendeu que o que faltava era navegar. A terapeuta a presenteou com seu primeiro barco com a ideia de que começasse as atividades com as mulheres. A embarcação veio batizada com o nome “Vitória” e, em paralelo, Laís também começou a trabalhar com essas mulheres na área da saúde.

“Não é ruim estar em um trabalho de domingo a domingo, que é a situação da maioria na quebrada, mas a gente não tem qualidade de vida”, avalia Laís sobre a atuação da Roda de Afeto, Arte e Cultura.

“As mulheres que estão na roda vieram do Nordeste, se casaram muito cedo e não tiveram muitas oportunidades. Elas vivem processos cheios e atravessamentos. É uma honra estar com elas”, reflete.

Primeira imersão do “Vitória na Água” reuniu mais de 30 mulheres das periferias e outras regiões do país @Isabela Alves/ Agência Mural

Com a chegada da pandemia de Covid-19, Laís, que também é pertencente a Rede do Fundão do Graja, uniu forças para a doação de cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade social. Por semana, eram doadas cerca de mil cestas em média.

A luta de Laís foi registrada no curta-metragem “A Represa É o Meu Quintal”, que estreou na 25° Mostra de Cinema de Tiradentes. Além de abordar o cenário pós-pandêmico nas periferias, o documentário falou sobre o enfrentamento às mudanças climáticas e o racismo ambiental.

Para ir a exibição, foi feita uma vaquinha online para bancar as despesas da ativista junto a equipe, mas o evento acabou sendo cancelado com o retorno do vírus. Foram arrecadados R$ 120 mil e esse valor foi revertido em diversas atividades para a roda de mulheres.

Combate ao racismo ambiental

Pensando em formar mais mulheres velejadoras, em especial as negras e periféricas, a ativista promoveu a primeira imersão da Vitória na Água no dia 30 de setembro. A iniciativa reuniu mais de 30 mulheres de todo o país.

“O barco a vela traz adrenalina e você sente que é protagonista da sua história. Quanto mais momentos assim elas tiverem, mais autonomia vão criar”, conta Gracielly Guedes, 27, produtora cultural e artística, e uma das idealizadoras do evento.

A represa Billings é a maior em área urbana na América Latina. Foi construída pelo engenheiro estadunidense Asa White Kenney Billings e teve as obras concluídas em 1925. Para isso, parte da Mata Atlântica foi desmatada.

A Roda de Afeto é um dos projetos que ocupam a casinha do Imargem, localizado no Jardim Gaivotas @Isabela Alves/ Agência Mural

Essas interferências na natureza moldaram a maneira que ela é enxergada até os dias atuais e por isso ocupar a represa é um ato de resistência, afirma as organizadoras da Roda, já que ela havia sido pensada apenas para gerar energia para São Paulo, São Bernardo do Campo e o Grande ABC.

Gracielly e Laís também chamam atenção pelo fato de que a represa Billings não é acessada pela população, por estar em um local marginalizado da cidade de São Paulo.

A represa Guarapiranga, por exemplo, que também está na zona sul, é a que concentra mais clubes e recebe mais investimentos, porque, historicamente, foi ocupada desde o início por pessoas da elite paulistana.

‘São Paulo foi construída na base de onde a galera escolheu ocupar, então a nossa cidade é vendida há muito tempo’

“Todos os clubes que são muito conceituados, as pessoas negras estão lá como trabalhadores e não frequentadores. Foram inúmeras vezes que eu me senti sozinha nesses espaços”, ressalta. Para ela é preciso mudar um mundo onde “os barcos têm mais valores do que as pessoas.”

*A série “Periferias e Justiça Climática: alternativas ambientais para os nossos” foi produzida com apoio do ICFJ (International Center for Journalists).

Agência Mural

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Clima no bolso: como a questão climática esbarra na economia das famílias periféricas https://agenciamural.org.br/clima-no-bolso-como-a-questao-climatica-esbarra-na-economia-das-familias-perifericas/ https://agenciamural.org.br/clima-no-bolso-como-a-questao-climatica-esbarra-na-economia-das-familias-perifericas/#respond Thu, 02 Mar 2023 20:45:54 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=45516 Conta de luz, água, mercado, gás de cozinha, gasolina… O noticiário de economia constantemente fala sobre a alta dos preços desses produtos e serviços. E, geralmente, a inflação é apresentada como responsável pelos aumentos, mas pouco se divulga que este cenário também é um dos impactos da crise climática. Por mais que a questão do […]

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Conta de luz, água, mercado, gás de cozinha, gasolina… O noticiário de economia constantemente fala sobre a alta dos preços desses produtos e serviços. E, geralmente, a inflação é apresentada como responsável pelos aumentos, mas pouco se divulga que este cenário também é um dos impactos da crise climática.

Por mais que a questão do clima esteja ligada aos desastres naturais – cada vez mais frequentes –, ela também afeta o bolso das famílias, sobretudo as que vivem nas periferias.

A família de Thamiriz Barboza, 31, designer de unhas e moradora do Capão Redondo, extremo da zona sul de São Paulo, é um exemplo. Ela conta que chegam a consumir boa parte da renda da casa com os itens citados no começo deste texto, além de outros gastos básicos como aluguel e internet.

Uma vez que os gastos aumentam e a renda não acompanha, essas famílias passam a ter mais dificuldades de sobreviver de forma digna. A dinâmica do racismo ambiental se faz presente, pois são as pessoas pobres e periféricas as mais afetadas por esses problemas.

Só a conta de luz consome cerca de 7% da renda familiar dela, isso em um “mês bom”, já que tanto Thamiriz quanto o marido trabalham “por conta” – ele como entregador de aplicativo.

No terceiro episódio do podcast Tamo em Crise, parceria da Agência Mural com o Greenpeace, nos aprofundamos no tema e conversamos com ela sobre isso.

Justiça energética

A tarifa de luz é uma das mais afetadas pela crise do clima. Sem chuvas, o governo se vê “obrigado” a acionar as usinas termelétricas, que são mais caras e despejam mais poluentes no ar. Esse acionamento é o principal responsável pela chamada “bandeira vermelha”.

A falta de chuva e o acionamento das termelétricas também mexem com o preço dos alimentos, que necessitam de energia elétrica para a produção.

A bandeira vermelha na conta de luz é uma consequência da falta de chuvas @Léu Britto/Agência Mural

“Se tem um desequilíbrio na temperatura, no clima, se chove muito ou está passando por uma seca muito forte, você não vai conseguir produzir determinados alimentos ou vai comprometer todo plantio ou colheita. Isso vai impactar na produção, na escassez e também nos preços”, explica Ana Sanches, assessora de projetos no Instituto Pólis.

Ana participou da produção de estudos publicados pelo Pólis durante o ano de 2022, tanto sobre a questão da justiça energética quanto de racismo ambiental.

Justiça energética é um termo que trata das desigualdades encontradas no serviço de energia elétrica, tanto nos valores aplicados quanto na qualidade do serviço entregue à população.

“Quando a gente olha o valor do salário mínimo e a conta de luz de uma família periférica, que geralmente é um pouco maior do que outras famílias, vemos que a questão da conta de luz chega a mais de 20% desse orçamento familiar”

Ana Sanches, assessora de projetos

“Um valor que faz com que as pessoas deixem de fazer outras coisas: lazer, transporte, alimentação… No dado micro, essas populações periféricas são também formadas por pessoas negras e por mulheres negras e mães solo. Tem um recorte de gênero, de classe e de raça aqui muito demarcado”, enfatiza.

Pessoas mais pobres e periféricas são mais afetadas pela crise climática @Léu Britto/DiCampana Foto Coletivo

Os estudos do Pólis também citam a qualidade dos eletrodomésticos dessas famílias. Uma geladeira de modelo antigo, por exemplo, pode atrapalhar ainda mais o valor da conta, já que não dispõe de tecnologias que visam a economia de energia.

O botijão de gás também é outro item que fica inflacionado por conta do acionamento das termelétricas, já que há mais demanda por combustíveis fósseis.

“Quando a gente pensa em gasolina ou no próprio gás de cozinha, as questões climáticas também influenciam. Ou seja, a pessoa paga mais caro na energia, paga mais caro na água, e mais caro no gás de cozinha para cozinhar”, explica Ana.

É possível pagar menos na conta de luz?

Uma das soluções defendidas por especialistas para essa questão da conta de luz é a chamada “tarifa progressiva”.

“As pessoas que ganham menos vão pagar menos ou vão ter a conta de luz suprida por aquelas que ganham muito mais. Isso é pensar numa questão de transição energética justa e popular, com a sociedade participando e decidindo como que ela quer que produza energia”, diz a especialista do Instituto Pólis.

Tarifa social diminui o gasto mensal na conta de luz, mas é preciso se atentar ao teto de consumo @Léu Britto/Agência Mural

O modelo adotado atualmente para ajudar algumas famílias a não sofrerem tanto com a conta de luz é a tarifa social, mas que, segundo Ana, tem uma complicada falha em seu funcionamento.

“As famílias contempladas pela tarifa social têm que gastar até um valor específico. As famílias periféricas, que são grandes, consomem mais que aquele ‘teto’ de kWh. E quando elas tentam se enquadrar e gastam a mais, a conta dobra. Mais que dobra, às vezes”, conta a especialista, citando o exemplo encontrado durante uma pesquisa feita em Parelheiros, no extremo sul da capital.

“As pessoas estavam devendo muito [para a Enel, concessionária de energia elétrica da cidade] porque elas tinham a tarifa social, não conseguiram ficar dentro do limite e aí ficaram com a conta muito cara. Uma política pública pode ajudar, mas causa muitos outros prejuízos. Já a tarifa progressiva, a gente pensa exatamente em outra lógica, que é taxar de uma forma mais justa.”

Descontos aplicados na tarifa social:

  • Consumo mensal até 30 kWh: 65% (de desconto)
  • Consumo mensal de 31 kWh a 100 kWh: 40%
  • Consumo mensal de 101 kWh a 220 kWh: 10%
  • Consumo superior a 220 kWh: 0%

Por conta de toda essa problemática, Ana reforça a ideia apresentada pela ativista Jahzara Ona no episódio anterior do Tamo em Crise, de que a questão do clima não é apenas ambiental, mas “socioambiental”.

A especialista relembra que, por conta do valor de serviços como a energia elétrica ou do gás de cozinha, fez surgir relatos de pessoas cozinhando à lenha dentro de casa durante o ano passado. O que nos leva para outra problemática causada pelo impacto financeiro das contas caras: o custo da moradia no Brasil.

“Morar é caro, a depender de onde essas pessoas estão. Elas vão buscando, por necessidade, lugares que sejam mais baratos. E onde são esses lugares mais baratos? Em locais que têm toda uma infraestrutura comprometida”

Ana Sanches, assessora de projetos

“Muitas dessas famílias vão ocupar áreas que alagam, que têm deslizamento, por falta de opção e por extrema necessidade”, diz.

Um exemplo desse tipo de situação é a tragédia recente no litoral norte do estado de São Paulo. Fortes chuvas além do esperado para o mês caíram durante o feriado de Carnaval, e a principal causa dos deslizamentos foi a falta de planejamento e cuidados com a população daquela região próxima aos morros.

“No final das contas, a gente está falando de dignidade, de direitos humanos, mas também de direito à vida, sobre quem pode viver e quem deve morrer”, completa Ana.

Clique aqui para ler todas as reportagens da série Tamo em Crise.

Esta reportagem foi produzida com apoio da Report For The World

Agência Mural

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Quem sofre mais com as consequências do racismo ambiental é quem polui mais? Certamente que não. Um exemplo disso foi o desastre de Brumadinho, em Minas Gerais, onde o rompimento de uma barragem vitimou centenas de trabalhadores em 2019. A Vale, empresa responsável pelo crime, ainda é, quatro anos depois, uma das mais ricas do Brasil.

Esse é um exemplo de duas dinâmicas que estão presentes (ou deveriam estar) nas principais discussões sobre clima no mundo: o racismo ambiental e a justiça climática.

O primeiro diz respeito a quem são as vítimas das consequências da crise ambiental. “As pessoas de favelas, de periferias, até as aldeias indígenas. São elas que estão na linha de frente [na luta pelo clima] e sendo as mais impactadas”, afirma a jovem ativista Jahzara Ona, 18.

A jovem é moradora do extremo leste de São Paulo @Léu Britto/Agência Mural

Jahzara se autointitula como “ativista socioambiental”. Cria do Jardim Pantanal, bairro do Jardim Helena, na periferia da zona leste de São Paulo, ela entendeu o que era o racismo ambiental no dia a dia da comunidade, antes mesmo de se aprofundar no estudo do tema.

O que é racismo ambiental?

O termo foi criado na década de 1980 pelo ativista estadunidense Benjamin Chavis, que era aliado de Martin Luther King na luta pelos direitos civis dos negros dos Estados Unidos.

Na época, Chavis denunciava o despejo de resíduos tóxicos em uma região de população majoritariamente negra na Carolina do Norte.

O racismo ambiental trata exatamente de como as políticas ambientais, como o saneamento básico, são tratadas de forma desigual, privilegiando a parte mais rica de uma região.

“Na minha comunidade, passei por enchentes, pela insegurança alimentar e por diversas coisas, enquanto pessoas que moram num condomínio do centro de São Paulo não passam por isso”, conta.

“Qual a diferença? É que minha família vive aqui por ter uma renda mais baixa, por questões históricas, por não ter condições de viver num solo correto, não viver numa área de moradia apropriada etc.”

Jahzara Ona, ativista socioambiental

Jahzara é uma das entrevistadas do segundo episódio do podcast Tamo em Crise, uma produção da Agência Mural em parceria com o Greenpeace Brasil. Neste programa, conversamos com ela e mais um jovem da região metropolitana de São Paulo sobre como eles observam e sentem a questão do clima no dia a dia.

Ela contou ao podcast sobre o começo dos trabalhos como ativista. Apesar da pouca idade, Jahzara soma experiências que vão desde a arrecadação de alimentos para uma comunidade no bairro dela até a ida à COP 27 (Conferência das Partes), no Egito, onde os principais líderes mundiais se reúnem para discutir a questão climática.

Todas as justiças juntas

Da mesma forma que a definição de racismo ambiental admite que as consequências da crise no clima global não são sentidas da mesma forma por conta das diferenças sociais e econômicas, o conceito da justiça climática reconhece que é preciso cobrar de quem polui mais pelo sofrimento causado às vítimas.

Jahzara vai além. Na opinião da jovem, a justiça climática caminha junto a outras justiças que são buscadas pela sociedade, como a racial, social e de gênero.

Jahzana Ona já visitou a COP 27 no Egito @Léu Britto/Agência Mural

“Ela ‘casa’ com o racismo ambiental porque as mesmas pessoas que estão sendo atingidas por essa crise também estão passando por outros problemas, de diversas outras pautas, seja evasão escolar, feminicídio, morte, fome e diversos outros problemas. Não se faz uma justiça sem as outras”, afirma a ativista.

Para ela, ambas as questões estão finalmente sendo discutidas com seriedade, tanto pela sociedade quanto pelos tomadores de decisão. Realizada no fim do ano passado, a COP 27 chegou a ser chamada de “COP da Justiça Climática”, justamente pela impossibilidade de não discutir assuntos como a redução de danos dos países ricos aos países pobres.

“Só agora as pessoas estão sentindo na pele o que está acontecendo. Infelizmente, por essa pauta agora estar sendo falada e conscientizada, as empresas usam muito disso também. Tem muita empresa que polui, mas se finge de sustentável”, conta Jahzara, mencionando um comportamento conhecido como “greenwashing”.

Como ativista jovem e participante de uma rede global preocupada com essa pauta (o movimento Jovens pelo Clima), ela acredita que a geração dela tem papel importante para levar essas discussões adiante, porém sem gerar a chamada “eco-ansiedade” e um excesso de responsabilização.

O termo eco-ansiedade é definido como “desconforto ou preocupação sobre o dano atual e futuro causado no meio ambiente pela atividade humana e a mudança climática”, segundo o dicionário de Oxford.

“Dá tempo de amenizar se a gente agir, ir atrás, continuar sendo incluídos em espaços de discussões, mas também agindo localmente na nossa comunidade, enquanto indivíduo, que também é extremamente importante. Isso traz um peso muito grande, então é preciso respirar e agir da forma que é possível”, conclui.

Confira a primeira reportagem da série Tamo em Crise: O que é essa La Niña? Entenda o fenômeno que causa frio e menos temporais.

Esta reportagem foi produzida com apoio da Report For The World

Agência Mural

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História afro-brasileira nas escolas: professoras comentam avanços e dificuldades https://agenciamural.org.br/historia-afro-brasileira-nas-escolas-professoras-comentam-avancos-e-dificuldades-no-combate-ao-racismo/ https://agenciamural.org.br/historia-afro-brasileira-nas-escolas-professoras-comentam-avancos-e-dificuldades-no-combate-ao-racismo/#respond Wed, 08 Feb 2023 13:58:32 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=44444 As aulas sobre escravidão eram motivo de vergonha para Andreia Tenório, 37, quando ela estudava na EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) General de Gaulle, no Jardim Ibirapuera, distrito do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo. “Era o meu pior momento na escola”, lembra a ex-aluna. Naquela época, a história da população […]

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As aulas sobre escravidão eram motivo de vergonha para Andreia Tenório, 37, quando ela estudava na EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) General de Gaulle, no Jardim Ibirapuera, distrito do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo. “Era o meu pior momento na escola”, lembra a ex-aluna.

Naquela época, a história da população negra no Brasil era reduzida ao horror do período escravocrata. Não se falava na escola sobre temas como a história e a cultura afro-brasileira, muito menos sobre as grandes personalidades negras do país, como Luiz Gama e Carolina Maria de Jesus.

“Eu tinha justamente o que o currículo e a legislação [de hoje] abominam, que é o surgimento das pessoas negras [nos conteúdos didáticos] a partir da escravidão, como pessoas inferiores”, conta Andreia.

Hoje, ela é professora na mesma escola em que estudou. A pedagoga, que é negra, tem orgulho em oferecer uma experiência diferente da que viveu em sala de aula para seus alunos.

Andreia Tenório é professora na EMEF General de Gaulle, onde também estudou @Léu Britto/Agência Mural

Agora os livros infantis levados para as turmas têm protagonistas pretos. Temas como a beleza do cabelo crespo e o combate ao racismo fazem parte do dia a dia da escola.

“Teve uma coisa muito emblemática do ano passado: as meninas começaram a ir de cabelo solto e de black [power] também, de trancinha. Aí elas chegavam de trança e falavam ‘olha, professora, o meu cabelo tá trançado igual você faz’”, conta Andreia.

A mudança na sala de aula, além do esforço da professora, é fruto também de uma importante alteração na legislação brasileira. Há 20 anos, o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira se tornava obrigatório nas escolas com a chegada da Lei 10.639, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em seu primeiro mandato.

Ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira é obrigatório nas escolas há 20 anos @Léu Britto/Agência Mural

A Agência Mural conversou com quatro professoras da rede pública e um especialista em educação para entender os impactos da lei e os desafios que ainda permanecem nas escolas no combate ao racismo.

Para Andreia, houve avanços importantes nos últimos 20 anos, mas as escolas precisam inserir a pauta racial no projeto político-pedagógico de forma definitiva, planejando ações para todo o ano. “Muitas escolas ainda concentram a questão da temática étnico-racial mais em novembro do que ao longo do ano”, comenta ela.

Educadora da EMEF Joaquim Bento Alves de Lima Neto, no distrito do Grajaú, zona sul de São Paulo,a historiadora Cibele Lima, 38, avalia que a legislação foi determinante para mudar o olhar das escolas para o tema do racismo.

“[Passamos a] olhar de fato para a contribuição africana e dos descendentes em todas as épocas da história do Brasil. Nas artes, na ciência, na resistência, dentro das forças armadas, dentro de instituições de governo”, explica.

Ainda assim, afirma Cibele, é preciso investir mais na formação continuada dos professores já que muitos, partindo da própria experiência, não tiveram contato com o tema durante a graduação.

A professora, que ensina história para estudantes do ensino fundamental II, cita que mudou a abordagem de suas aulas sobre escravidão depois de fazer uma disciplina sobre educação étnico-racial no mestrado.

“Precisei entrar no mestrado, passar por toda uma disciplina de educação étnico-racial – e eu já tinha seis anos de rede [municipal de ensino] – para entender que essa abordagem talvez não fosse a melhor”, diz Cibele.

“Hoje, por exemplo, trabalho muito com personalidades negras brasileiras, mulheres negras escritoras, cientistas”, conta. Além disso, ela defende que os avanços do tema na vida escolar precisam ser acompanhados de uma maior discussão sobre o racismo estrutural na sociedade.

“Enquanto a gente estiver numa sociedade que reproduz o racismo de forma tão natural, que não enxerga e não reflete, isso vai estar dentro da escola também porque a escola é um reflexo, é uma micro sociedade”

Cibele Lima, historiadora

Moradora e professora da cidade de Itapevi, na Grande São Paulo, Caroline Vaz, 30, conta que casos de racismo ainda acontecem entre alunos, mesmo com o tema aparecendo mais nas aulas.

“Muitas vezes um aluno vira para o outro e chama de ‘macaco’ como se fosse um bom dia”, relata a educadora da E.E. (Escola Estadual) Paulo de Abreu. Ela relata que já precisou agir diante de comentários racistas de estudantes e explicar que as ofensas são consideradas crime.

No dia a dia das aulas, Carol afirma que busca trabalhar a autoestima dos alunos negros e debater a pauta étnico-racil para além dos conteúdos que aparecem no currículo escolar, como aparthaid e escravidão.

Ela também critica o maior destaque dado por professores para a história da Europa nas aulas.

“A história da África é tão essencial quanto [a do continente europeu]”

Caroline Vaz, professora

A geógrafa Rose Bernardo, que é professora de ensino médio na E.E. Professor Clóvis de Silva Alves, em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, também defende que o currículo escolar dê ainda mais espaço aos conteúdos sobre outros continentes, para além do europeu.

“O aluno, às vezes, até confunde: acredita que a África é um país, que é tudo uma coisa só. Ele [o currículo escolar] poderia ser um pouco mais abrangente nesse sentido de tornar a África tão comum para o aluno quanto a Europa”, comenta.

“Se você fizer uma pesquisa entre os alunos, sobre qual país que eles gostariam de conhecer fora, eles quase nunca citam um país da África ou que está aqui próximo a nós, da América do Sul”, afirma Rose.

A professora lembra que o continente africano tem um dos biomas mais fascinantes do mundo, a savana, além de ser um local importante para as discussões sobre alimentação no planeta.

Professoras destacam a importância do conhecimento da cultura africana @Léu Britto/Agência Mural

Fiscalização

Uma das principais queixas de especialista em educação e de membros do movimento negro sobre os 20 anos da lei é a falta de fiscalização sobre o cumprimento da medida por secretarias municipais e estaduais de educação.

O tema é visto como importante inclusive para combater a diferença de aprendizagem entre alunos brancos e negros. Uma pesquisa com dados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) de 2019 mostrou que há uma diferença expressiva no percentual de aprendizado de estudantes brancos e pretos.

Feita pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) a pedido da Fundação Lemann, a pesquisa avaliou alunos do 5º e 9º ano, nas disciplinas de língua portuguesa e matemática.

Os resultados mostraram que as diferenças de aprendizagem aparecem mesmo quando os estudantes pertencem ao mesmo grupo socioeconômico.

Em matemática, entre os alunos de nível socioeconômico alto, 34,4% dos brancos têm aprendizado adequado, enquanto apenas 17,3% apresentam o nível de aprendizagem esperado. Entre os estudantes de baixo nível socioeconômico, 15,8% dos brancos têm o desempenho esperado na disciplina contra 8% dos negros.

Billy Malachias, consultor da área de educação do CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), explica que a Lei 10.639 é uma conquista do ativismo negro e movimentou a sociedade nas discussões sobre o racismo nos últimos anos, mas que o cumprimento dela não tem sido homogêneo em todo o país.

Por isso, segundo ele, é preciso haver um monitoramento do que vem sendo feito nas cidades, vinculando o repasse de verbas aos municípios a indicadores de redução de desigualdade na educação.

“A mudança dos indicadores de desigualdade de aprendizagem entre alunos negros e brancos só vai ocorrer efetivamente se as diretrizes curriculares estiverem sendo implementadas”

Billy Malachias, consultor de educação

“A gente consegue ter a percepção da melhora da qualidade da educação e a diminuição da desigualdade entre os grupos negros e brancos? Isso é um indicativo de que o município está agindo corretamente e que pode acessar mais recursos”, diz Billy.

O professor explica que as escolas precisam investir em educar os alunos para uma sociedade diversa e que falar na pauta étnico-racial é educar para essa convivência.

Billy sugere um novo olhar para tudo o que a África tem para ensinar. “São os africanos que introduziram aqui técnicas de mineração, técnicas agrícolas. E isso não aparece de uma forma dinâmica, associado aos processos constitutivos do Brasil.”.

“A escola tem muito a aprender com a África”, finaliza.

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Angolano morador da zona leste fala do preconceito vivido por imigrantes africanos https://agenciamural.org.br/angolano-morador-da-zona-leste-fala-do-preconceito-vivido-por-imigrantes-africanos/ https://agenciamural.org.br/angolano-morador-da-zona-leste-fala-do-preconceito-vivido-por-imigrantes-africanos/#respond Wed, 23 Feb 2022 22:39:19 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=28888 O angolano e professor universitário Alceu Paulo Lunganga, 47, imigrou para o Brasil por vontade própria, para estudar tecnologia da informação. São oito anos vivendo em São Paulo, mas ainda assim, ele diz que deixar o país de origem não é uma escolha fácil. Ainda mais quando se é um imigrante africano. “Vim para aumentar […]

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O angolano e professor universitário Alceu Paulo Lunganga, 47, imigrou para o Brasil por vontade própria, para estudar tecnologia da informação. São oito anos vivendo em São Paulo, mas ainda assim, ele diz que deixar o país de origem não é uma escolha fácil. Ainda mais quando se é um imigrante africano.

“Vim para aumentar meus conhecimentos. Felizmente hoje sou professor universitário de formação. E estou empregado, diferente de muitos companheiros que encontram-se desempregados lamentavelmente”, conta Alceu, morador dodistrito de Artur Alvim, na zona leste.

Para ele, o Brasil é um país acolhedor que em muito lembra a Angola. “Nas periferias do meu país, as pessoas na sua maioria são mais solidárias umas com as outras. E aqui também tenho constatado isso”, analisa.

No entanto, episódios recentes como o caso de Moïse Kabagambe – congolês de 24 anos morto no Rio de Janeiro no primeiro mês do ano – refletem o preconceito vivido por imigrantes africanos no país.

Moïse Kabagambe foi morto em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio @Facebook/Reprodução

O assassinato brutal de Moïse fez com que a Coalizão Negra por Direitos denunciasse o Brasil à ONU (Organização das Nações Unidas), pedindo medidas contra o racismo e a xenofobia. A reação, tanto da população quanto da polícia, teria sido diferente se Moïse fosse um imigrante de origem branca, aponta a Coalizão.

Sobre Alceu, mesmo tendo a experiência de acolhimento desde quando chegou, ele também não escapou de sofrer casos de racismo e xenofobia por parte de brasileiros. Ele relata dois casos que aconteceram no Metrô de São Paulo.

“Ia para o trabalho e de repente alguém soltou um pum no vagão. Começaram olhares e conversinhas e percebi que estavam falando de mim porque apontavam o dedo”, relembra. Constrangido, o professor lembra que preferiu sair dali.

“É chato quando você é acusado de algo que você não fez. Para evitar mais atritos e outras situações negativas, preferi trocar de vagão”, lamenta.

O outro caso que Alceu relata foi mais direto e violento. Ao oferecer seu assento para uma mulher que aparentava estar com dores no joelho, ele recebeu como resposta cheia de racismo.

“A primeira coisa que ouvi foi: ‘Eu não sento onde você senta. Está me estranhando?’ E aí começou o horror de discriminações e xingamentos. Com vários palavreados pejorativos”

A situação só não ficou pior porque outras pessoas interviram. “Minha sorte é que no vagão onde estávamos havia pessoas de bom coração. E se indignaram com o comportamento da mulher e me defenderam.”

Esses casos não foram os únicos sofridos por ele. “São várias situações que levaria até horas, dias ou mesmo semanas para terminar de contar. Infelizmente”, desabafa.

Alceu Paulo Lunganga conta sobre casos de racismo no Metrô @Arquivo Pessoal

Essa é a realidade de muitos outros imigrantes ou refugiados que vivem por aqui. São Paulo é o terceiro estado com mais decisões referentes a refúgio, perdendo apenas para Roraima e Amazonas, que fazem fronteira com a Venezuela.

E um levantamento feito em 2019 pela Caritas Arquidiocesana de São Paulo junto com a Acnur, a agência da ONU para refugiados, mostra que 55% dos entrevistados moravam na zona leste da cidade, região onde reside Alceu Paulo Lunganga.

Atualmente 1,3 milhão de imigrantes residem no Brasil. E as solicitações de reconhecimento da condição de refugiado também aumentaram, passando de cerca de 1,4 mil, em 2011, para 28,8 mil, em 2020.

Os dados fazem parte do projeto “2011-2020: Uma década de desafios para a imigração e refúgio no Brasil” e foram produzidos pelo OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais).

Ainda em âmbito nacional, de acordo com informações do Conare (Conselho Nacional para os Refugiados), nos últimos cinco anos foram mais de 75 mil decisões sobre pedidos de refúgio no país, muitos deles vindos de países do continente africano. Dos dez países com o maior número de refugiados no Brasil, cinco ficam na África.

São esses imigrantes e refugiados negros os que acabam se tornando alvos frequentes, afirma Alceu.

“Todos os dias e em todos os lugares, basta colocar o pé para fora. Não importa, se houver imigrantes de várias origens no momento, o mais visado sempre é o africano de pele escura. Quem chama isso de vitimismo é porque não vivenciou.”

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Will Smith, Marielle Franco e Chavoso da USP: escola homenageia figuras negras https://agenciamural.org.br/will-smith-marielle-franco-e-chavoso-da-usp-escola-homenageia-figuras-negras/ https://agenciamural.org.br/will-smith-marielle-franco-e-chavoso-da-usp-escola-homenageia-figuras-negras/#respond Thu, 27 Jan 2022 20:58:17 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=27954 Em meio a tijolos e materiais de construção de uma reforma ainda em andamento, a escola municipal Virgílio de Mello Franco, no bairro do Jardim Helena, na zona leste de São Paulo, se prepara para receber os alunos no dia 7 de fevereiro. Após dois anos de pandemia de Covid-19, e ainda com a incerteza […]

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Em meio a tijolos e materiais de construção de uma reforma ainda em andamento, a escola municipal Virgílio de Mello Franco, no bairro do Jardim Helena, na zona leste de São Paulo, se prepara para receber os alunos no dia 7 de fevereiro.

Após dois anos de pandemia de Covid-19, e ainda com a incerteza causada pelo avanço da variante Ômicron, o início das aulas em 2022 tem um sentimento diferente. Isso porque, no ano passado, o diretor Edilson da Silva Cruz, 34, e a professora de artes Patrícia Alves, 34, lideraram junto aos alunos uma intervenção artística que homenageia figuras negras nas portas das salas de aula.

“A gente estudou a presença do racismo na sociedade, não só como ações individuais, mas como um problema estrutural e institucional também”, diz o diretor.

“Pensamos em uma intervenção que tem a ver com a arte, e coloquei essa questão: se o racismo é uma questão institucional, e a gente está em uma escola, que é uma instituição, temos que fazer alguma coisa.”

O diretor e a professora em frente ao desenho do Chavoso da Usp @Patrícia Vilas Boas/Agência Mural

Resultado de um TCA (Trabalho Colaborativo de Autoria), uma atividade obrigatória para os alunos que estão concluindo o ensino fundamental na rede pública de São Paulo, os cerca de 60 estudantes puderam conhecer, debater e escolher em conjunto quais figuras negras gostariam de homenagear.

Entre os escolhidos estão o ator internacional Will Smith, a vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018, o líder norte-americano Martin Luther King Jr., a biomédica Jaqueline Goes de Jesus, responsável por sequenciar o genoma da Covid-19 no Brasil, e Thiago Torres, conhecido como “Chavoso da USP“, que esteve na escola para palestrar aos alunos.

“Acho importante para as crianças que estão chegando se sentirem mais representadas”

Vinicius Augusto Rodrigues da Silva, 14, aluno do 9º ano.

Em uma roda com cinco alunos entre 13 e 15 anos do 9º ano da escola, os jovens puderam contar o que mais gostaram no projeto e qual a importância da representatividade negra para eles.

“Com esse projeto, a gente pôde abrir portas para outros assuntos relacionados ao racismo”, acrescentou a aluna Lohaine Nicole de Souza Silva, 13.

Cada sala de aula, batizada com o nome do artista e/ou ativista, ganhou a preferência de um aluno.

A estudante Evelly Rodrigues da Silva, 14, por exemplo, disse ter a sala “Martin Luther King Jr.” como sua favorita. “O que ele defendeu, o que ele fez pela população negra, não tem como esquecer, foi incrível.”

Martin Luther King Jr. foi um dos maiores líderes do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Seu discurso “I Have a Dream” (Eu Tenho um Sonho, na tradução livre), proclamado durante a Marcha sobre Washington em 1963, entrou para a história da luta por igualdade racial.

Davi Silva de Carvalho, 15, por sua vez, tem como favorita a sala “Will Smith”. “Desde pequeno eu assistia à série dele e ele sempre falava sobre esse termo (racismo).”

Já Marina Cavalcanti Veras, 14, escolheu, entre todas as demais salas, a da vereadora Marielle Franco, “porque ela (é) do Brasil, defendeu muito e morreu defendendo o conceito dela. E acho que por isso ela morreu também”, disse.

Artistas das quebradas

Para reprodução da imagem de personalidades negras do Brasil e do mundo, a intervenção contou com o apoio voluntário de artistas plásticos da quebrada.

“Em 20 anos de grafite, eu nunca tinha participado de uma pintura relacionada a figuras/celebridades negras da história em uma escola”, diz o artista Alexsandro Gomes dos Santos, 36, conhecido como “Chuck Gomes”. “Acho que é um dos projetos mais bonitos que eu já participei na minha vida.”

Os alunos Vinicius, Davi, Marina, Evelly e Lohaine participaram da ação @Patrícia Vilas Boas/Agência Mural

Além dele, colaboraram com as pinturas Jéssica Maria dos Santos, 23, conhecida no área do grafite como “Cat” e Pedro Henrique Silva, 22, o “Predu”.

As turmas foram separadas em quatro grupos de 15 alunos cada, para respeitar o limite de capacidade em sala de aula, em um formato híbrido devido à Covid-19. Ao longo da intervenção, os estudantes puderam acompanhar de perto todo o processo de grafitagem.

“Muitos (alunos) não conheciam as figuras representadas e tiveram esse conhecimento através do grafite. Traz mais conhecimento tanto para eles quanto para nós, artistas”, conta Jéssica.

“Entender essa questão é muito mais que entender uma imagem”, acrescentou Predu, com relação a importância de utilizar a arte para expressar a mensagem antirracista. “Então esse projeto, ele não só está falando, como falará, por muito tempo, sobre essa questão.”

A professora de artes, Patrícia, conta que gostou de perceber o impacto do projeto inclusive na percepção dos adolescentes em relação à própria aparência, ao colocar em evidência personalidades negras.

“[Percebemos] o quanto eles querem estar se colocando, em relação à aparência, iguais ao que a mídia coloca. Então o bom desse projeto foi perceber esse autoconhecimento, essa autovalorização, isso foi bem legal.”

Agência Mural

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‘Economia e o meio ambiente não estão desconectados da questão racial’ https://agenciamural.org.br/economia-e-o-meio-ambiente-nao-estao-desconectados-da-questao-racial-diz-pesquisadora/ https://agenciamural.org.br/economia-e-o-meio-ambiente-nao-estao-desconectados-da-questao-racial-diz-pesquisadora/#respond Fri, 19 Nov 2021 20:15:57 +0000 https://www.agenciamural.org.br/?p=25176 Tainá Freitas Medeiros, 30, mora em Jandira, cidade da Grande São Paulo, e faz parte do “Lójúkojú”, coletivo que pesquisa sobre os efeitos e as manifestações do racismo estrutural na sociedade. Criado em 2020, o grupo tem realizado estudos sobre o tema e a presença desse cenário na imprensa. O primeiro deles analisou programas de […]

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Tainá Freitas Medeiros, 30, mora em Jandira, cidade da Grande São Paulo, e faz parte do “Lójúkojú”, coletivo que pesquisa sobre os efeitos e as manifestações do racismo estrutural na sociedade. Criado em 2020, o grupo tem realizado estudos sobre o tema e a presença desse cenário na imprensa. O primeiro deles analisou programas de entrevistas na TV. A presença de pessoas brancas entre entrevistados e debatedores beirou os 90%. Outra análise foi a menção ao termo racismo estrutural como palavra chave de reportagens na imprensa – algo que vem crescendo nos últimos anos. Nesta entrevista à Agência Mural, Tainá analisa essa percepção de maior discussão sobre o tema nos últimos anos, mas alerta: “O racismo não pode ser tratado como fatalidade”. Embora estrutural, não podemos apagar responsabilidades. Também aponta que casos como o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, ou de João Alberto, por seguranças no Carrefour, aumentaram a discussão no noticiário sobre casos de discriminação racial. No entanto, ela defende que é necessário discuti-lo além dessas tragédias ou do mês de Novembro, quando há o Dia da Consciência Negra, por conta da morte de Zumbi dos Palmares. Para ela, é necessário que a questão apareça em outras reportagens sobre pautas como política, economia e meio ambiente. “A gente sempre vê esses temas sendo extremamente pautados na mídia, mas raramente sendo conectados com a questão racial”. Tainá Medeiros faz parte do coletivo Lójúkojú Tainá Medeiros faz parte do coletivo Lójúkojú Como foram os resultados das pesquisas sobre a presença de pessoas negras nos programas de televisão? A gente faz uma segmentação do perfil tanto raça, também por gênero e estávamos procurando pessoas com deficiência. No “Roda Viva”, a gente estuda um período de 2016 até agora, o período mais recente. A gente se depara com um número majoritário de quase 92% das pessoas brancas entre as que participaram como entrevistados ou como debatedores. E a mesma proporção praticamente se repete também no programa “Conversa com Bial”. Vimos uma presença sempre branca, masculina. O que isso representa? Esses programas, a mídia, os meios de comunicação, refletem a reprodução das desigualdades de várias formas. Os resultados das nossas pesquisas dão alguns indícios sobre o papel da mídia e as desigualdades, a sub-representação de vários grupos: da população negra, da população indígena, de mulheres, pessoas com deficiência. O que é o racismo estrutural? Nos baseamos em autores como Lélia Gonzalez, Clóvis Moura, Silvio de Almeida, e também o livro estipulado “Racismo Estrutural” do professor Denis de Oliveira. O nosso entendimento sobre racismo estrutural tenta avançar de uma ideia de que o racismo se limita as relações pessoais, as ofensas, a discriminação. É compreender o caráter estrutural do racismo, como ele está presente na história do Brasil, na construção da sociedade que a gente vive e passar a enxergar como que ele influencia a forma que a gente vive, as instituições, nossa vida política, social e econômica.
Apesar de o racismo estrutural ser determinante, estar presente nas estruturas de todos os âmbitos da sociedade, é importante enxergar as responsabilidades individuais
Vocês perceberam uma crescente das pessoas pesquisarem sobre o racismo estrutural na internet? A gente fez uma coleta de matérias que tinham o racismo estrutural como palavra chave, desde janeiro de 2010 até dezembro de 2020. Em 2020, foi um ano em que o debate nos pareceu estar crescendo. Esse tema estava sendo cada vez mais citado na mídia, mais ouvido, uma expressão usada frequentemente nas redes sociais e uma certa popularização do termo. Mas tiveram alguns episódios que contribuíram para isso. O assassinato do George Floyd, nos Estados Unidos, do menino João Pedro, morto dentro dentro de casa no Rio de Janeiro, e o próprio Big Brother de 2020 reverberaram várias discussões sobre racismo e sobre racismo estrutural. Você diria que com esses debates em alta estamos avançando por uma sociedade antirracista? Esse é um um ponto que talvez a gente possa até considerar positivo, de que o conceito está nas discussões no Instagram e especificamente nesse nosso trabalho, vimos que a aceitação do conceito tem sido cada vez maior, mas é necessário um aprofundamento. Uma apropriação melhor de como tem sido utilizado. De que forma ele tem sido utilizado? Me lembro que dentro dessa amostra de textos que a gente leu tinha um caso de uma participante de um reality show que tinha feito declarações especificamente racistas. A matéria falava sobre isso e ela saía em defesa própria dizendo que o que ela tinha dito era um ato de racismo estrutural. A gente achou muito curioso porque isso ilustra bem uma concepção que tem sido reforçada: de que o racismo estrutural é uma coisa abstrata e nesse caso especificamente parece que foi o racismo estrutural que proferiu as ofensas e acabam levando a um entendimento de que o racismo é uma fatalidade. Como o racismo estrutural deve ser analisado? Apesar dele ser determinante, estar presente nas estruturas de todos os âmbitos da sociedade, é importante enxergar as responsabilidades individuais. Apesar dele ser um problema estrutural. O fato dele ser um um problema estrutural não tira das pessoas responsabilidades individuais, institucionais ou empresariais. – a gente pensando também no papel da imprensa.
Falta ainda na mídia uma reflexão mais profunda sobre o seu papel e sobre a sua responsabilidade na reprodução de desigualdades, na reprodução do racismo e que para mudança desse cenário é preciso a tomada de atitude
Como o jornalismo pode melhorar nas abordagens sobre o racismo estrutural? Uma coisa que nos chamou a atenção foi o quanto a gente carece de discussões que falem sobre o racismo estrutural quando pensamos em economia ou na questão ambiental. Por exemplo, a discussão do teto de gastos (medida que limitou as despesas do governo com investimentos), de todas as medidas econômicas ao longo da pandemia, como o auxílio e a reforma trabalhista. A gente sempre vê esses temas sendo extremamente pautados na mídia, mas raramente sendo conectados com a questão racial, mesmo sabendo que as populações negra e indígena são as principais afetadas quando há medidas de austeridade econômica, de corte de gastos, de redução de benefícios sociais. Vemos isso sendo muito pouco tratado ou quase nunca discutido. Como vê as discussões da COP 26 e essa questão? Por mais que a mídia fale sobre isso e sobre todo o desmonte do governo na área ambiental, vemos isso sendo pouco contextualizado nos efeitos que traz para população quilombola e indígena. São problemas que não se desconectam da questão racial. A gente sabe a quem todo o desmonte de políticas nesses dois campos afetam diretamente. Tem um endereço certo. E com certeza tem a necessidade de se debater, de colocar a questão racial nesses debates. Na verdade eu acredito que elas nem se desvinculam. Acredito que às vezes é mascarada, mas não tem como a gente desvincular. Qual o papel da imprensa nesse sentido? Sabemos que falta ainda na mídia uma reflexão mais profunda sobre o seu papel e sobre a sua responsabilidade na reprodução de desigualdades, na reprodução do racismo e que para a mudança desse cenário é preciso a tomada de atitude, de posicionamento. É preciso fazer essa autocrítica e a gente sabe também o choque ideológico que há entre os grandes grupos de mídia ou a mídia hegemônica brasileira para olhar para história, olhar para trás e rever atitudes e rever posicionamentos.Agência Mural

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