“Mãe, me coloca numa escolinha de futebol?”. Esse era o pedido mais recorrente do filho de Sidinéia Aparecida Chagas, 35, educadora social e moradora da Barragem, em Parelheiros, zona sul de São Paulo. “Eu falava: ‘não tenho condições de pagar o uniforme e transporte para você’. Foi daí que pensei, já tenho a base mínima, por que não ser treinadora dele?”.
A ideia rendeu frutos. Aos poucos foram chegando os sobrinhos e outros meninos do bairro e assim se formou o Perifemanos, em 2018, um time de várzea masculino de Parelheiros que atua também como projeto social, com o objetivo de empoderar a comunidade através do futebol e da arte.
A iniciativa contou com o apoio das irmãs Sideilde, 45, Silvia, 39 e Silvani, 31, que tiveram a ideia de ampliar um projeto de futebol de várzea feminino que elas criaram, em 2014, chamado Perifeminas, e estendê-lo também para os meninos. “Meu filho já me acompanhava os jogos do Perifeminas”, complementa.
“Sempre tivemos como referência a literatura, principalmente a feminina. Eu e minhas irmã Silvani somos fundadoras de bibliotecas comunitárias na região”.
O projeto está em processo de formalização, o que deu a chance de angariar patrocínios, receber doações e fortalecer as ações. Hoje a iniciativa tem acesso a equipamentos públicos do território para os treinos, como quadra escolar, quadra e campo de futebol da comunidade.
“A gente ainda sonha em ter o nosso espaço físico e nosso maior desejo é se tornar uma instituição de referência no esporte, na educação e na cultura, dentro do território de Parelheiros. Estamos criando pontes para gerar possibilidades de projeto de vida para além do futebol”.
Sidinéia passou a treinar o Perifeminos, time infantojuvenil masculino de Parelheiros @Arquivo pessoal
O filho de Sidineia, Octávio Chagas, 16, ficou afastado das quadras da várzea, fazendo rachão em família de vez em quando. Atualmente segue jogando no Perifemanos e mãe coruja diz que sempre incentiva o filho, lembrando que ele é o real motivo pelo qual o projeto foi criado.
“Eu vou sempre mostrando para ele a importância dele para o coletivo, porque não quero que esse projeto não acabasse nunca”, comenta.
Octávio inspirou a mãe a transformar a paixão pelo futebol de várzea em projeto social @Arquivo pessoal
Formação atual do Perifemanos Sport Club @Arquivo pessoal
Sidineia com filho e a esposa Débora que trabalha no coletivo nos primeiros torneios do Perifemanos
Uma mãe para a comunidade
Sidinéia e as irmãs já jogavam em competições escolares do Jardim Orion, em Interlagos, zona sul de São Paulo. A mãe, Maria Aparecida, 68, passou a acompanha-las nas partidas na juventude – e às vezes aproveitava para aprender futebol. “Ela via a bola e queria chutar. Talvez tenha sido um sonho dela na infância e não teve oportunidade”.
Assim que mudaram para Parelheiros, em 2014, elas mesmas começaram a reunir a comunidade para partidas de diversão, onde homens se vestiam de mulheres e mulheres de homens, valendo algum prêmio. Mas mesmo com esse entrosamento, havia resistência dos homens para que as meninas jogassem na quadra do bairro.
“Eles diziam que não era nosso lugar. Então, já que a gente não pode jogar, vocês também não vão! E sentávamos no meio da quadra para impedi-los. Éramos taxadas como encrenqueiras, mas fazíamos feminismo sem nem saber que era esse nome”.
Na parte da frente, da esquerda para a direita, Sidinéia (segunda), Silvia (quarta), Sideilde (na ponta). Atrás de Silvia está Silvani. Juntas, as irmãs fundaram o Projeto @Arquivo pessoal
Em 2016, receberam o convite de um amigo para jogar em um festival de futebol contra outro time. Até então, elas e as irmãs não tinham cogitado a possibilidade de formar uma equipe feminina. Foram buscar mais jogadoras, mas tiveram dificuldade, porque muitas estavam envolvidas com a maternidade ou porque a família e os maridos proibiam.
No dia do torneio, uma surpresa: 30 mulheres apareceram para jogar, mas o time adversário não. “Ficamos tristes de não poder jogar, mas a gente decidiu se reunir e daí começamos a fazer parte da Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros e colocamos o nome do time de Perifeminas, que deu origem ao trabalho que desenvolvemos hoje”, conta.
Elas formaram um time sub-16, para menores de 16 anos, e outro para quem tinha entre 16 e 50 anos. Eram mulheres de diferentes faixas etárias, que de alguma forma estavam recuperando um tempo que ficou para trás, como acredita Sidinéia.
“Acolhemos todas as mulheres e seus corpos em um mundo que preza o rendimento e as exclui sem desenvolver suas competências”, diz. “Não temos grito de guerra, mas de paz: ‘precisamos encorajar mais mulheres a se atrever a mudar o mundo’, quando conhecemos essa frase da escritora nigeriana Chimamanda, ela se tornou nosso mantra”.

