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Bairro dos protestos contra a morte de Guilherme, Vila Clara tem ações de grupos culturais

Por: Carolina Figueiredo

Localizada entre os bairros de Americanópolis e Jardim Miriam, a Vila Clara ganhou repercussão na imprensa nesta semana após protestos pela morte do jovem negro Guilherme Silva Guedes, 15, se espalharem pela região na zona sul de São Paulo. 

O crime causou revolta na comunidade formada por bairros antigos e que possui diversos grupos que tentam diariamente melhorar a realidade coletiva por meio da cultura. 

Alguns deles criaram na última quarta-feira (17) um memorial para Guilherme na Praça da Feira Livre, na avenida Cupecê. 

Cartazes com pedidos de justiça e paz foram colados nos muros, e quem passa pelo local pode deixar uma flor ou uma oração, mas o principal objetivo é garantir que a história não caia no esquecimento. “A gente está lutando mesmo é pra sobreviver”, diz o estudante de artes Filipe Fontes, 23.

Fontes é um dos exemplos de ação da juventude da região. Ele mora na Vila Clara desde que nasceu e, junto com amigos também do bairro, criou o Coletivo Calundu em 2016. 

Moradores fizeram painel em homenagem a Guilherme, morto nesta semana @Filipe Fontes/Divulgação

Focado em atividades culturais, o grupo promove saraus e performances artísticas em escolas da região. “A arte sempre sai da periferia e vai para os grandes centros. A gente quis fazer esse caminho inverso, de trazer a arte da periferia para a periferia”, diz Filipe.  

Impossibilitados de continuar as atividades por conta da pandemia, o grupo cultural criou o projeto Quebrada de Quarentena, site que reúne informações sobre a situação do coronavírus em vários bairros de Cidade Ademar. 

Além do monitoramento do número de casos na região e dicas para prevenção, a plataforma reúne depoimentos de moradores de bairros como Vila Clara, Pedreira e Vila Joaniza.

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Com 193 mortes confirmadas ou suspeitas por conta do novo coronavírus registradas desde o início da pandemia, Cidade Ademar é o sétimo distrito onde a Covid-19 é mais letal em São Paulo, de acordo com dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde em 12 de junho.

Além disso, essa periferia da zona sul de São Paulo também entra no quadro da desigualdade da capital paulista. Matéria do 32xSP mostra que Cidade Ademar é uma das seis subprefeituras da cidade que não contam com nenhum leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) pela rede pública de saúde.

Com a crise econômica e a alta do desemprego, líderes comunitários têm se articulado para arrecadar alimentos e suprimentos básicos para a população. “A comunidade se organiza para que a própria comunidade não sinta fome”, frisa Filipe. “A gente percebe que os ônibus continuam lotados, as pessoas continuam trabalhando. Parece que não está acontecendo nada, a diferença é que a galera usa máscara agora”, diz. 

Cartaz em protesto a morte de Guilherme @Filipe Fontes/Divulgação

HISTÓRIA DO BAIRRO

A revolta dos moradores durante a semana por conta da morte de Guilherme foi noticiada por diversos veículos de imprensa. Jornais das principais redes de televisão e posts na internet titubeavam para localizar a área. Diadema, Jabaquara, Americanópolis ou Cidade Ademar?

A Vila Clara fica dentro do distrito de Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, e está perto do limite entre São Paulo e a cidade de Diadema, na região do Grande ABC. 

Entre as principais vias do bairro estão a rua Rolando Curti, onde morava Guilherme e onde os protestos se iniciaram na última segunda-feira (15). 

Também é uma via importante a Avenida Fúlfaro, que faz a ligação do miolo da área com a Avenida Engenheiro Armando de Arruda Pereira, utilizada pelos moradores para acessar a estação Jabaquara na linha 1-Azul do metrô, que é a mais próxima do bairro. 

O nome Clara foi uma homenagem à primeira namorada de Vicente Fúlfaro, imigrante italiano que foi dono de chácaras em Cidade Ademar, segundo o web desenvolvedor André Pazini, 23, criador da página Foco no Jardim Miriam.

Cidade Ademar tem mais de 260 mil moradores @Carolina Figueiredo/Agência Mural

Pelas redes sociais e de maneira colaborativa com os moradores, ele faz postagens sobre os acontecimentos da área. A ideia surgiu após Pazini sentir que muitas informações sobre a região não chegavam na imprensa tradicional.

“A gente chegou pra ser uma opção que a pessoa tem a certeza de que vai encontrar algo do lugar dela sendo falado, e cada vez mais quero que o conteúdo do Foco chegue na porta de casa de cada morador”, diz. 

Em maio de 2017, resolveu criar também um portal e reunir histórias sobre a origem de bairros da região. No ano passado, foi atrás de descobrir as origens do nome da Vila Clara, cujo surgimento é semelhante ao de outras periferias da capital. 

O distrito de Cidade Ademar era inicialmente uma região de chácaras e com um ambiente predominantemente rural. 

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A partir dos anos 1950, com o êxodo de nordestinos e mineiros para a capital, os primeiros bairros da região começaram a se formar, conforme mostra pesquisa do economista Aquiles Coelho, morador da Vila Missionária.

Representando uma região de 12 km² e com mais de 266 mil moradores, segundo o último censo do IBGE (2010), Cidade Ademar enfrenta diariamente os problemas já conhecidos nas periferias brasileiras, com falta de acesso à direitos como transporte, saúde, educação e cultura. 

Para Coelho, as diversas dificuldades impostas à periferia não são capazes de barrar a potência que a região possui. “Nós temos outros pontos de vista sobre a realidade, sobre o mundo, e a gente consegue imprimir isso a partir do que a gente cria”, diz, enfatizando que, à despeito de problemas materiais, a riqueza humana da quebrada é enorme.  

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