Lucas Andrade transforma biologia, quadrinhos, animação e divulgação científica em linguagem acessível
Arquivo pessoal
Por: Isabella Milena
Notícia
Publicado em 20.05.2026 | 20:28 | Alterado em 22.05.2026 | 15:28
Entre mergulhos em expedições científicas e storyboards para animações, o biólogo e ilustrador Lucas Andrade, 35, transformou a curiosidade da infância, vivida no Jardim Iporanga, bairro do distrito Cidade Dutra, na zona sul de São Paulo, em uma trajetória que conecta ciência, arte e periferia.
Mais conhecido como Lukera, Lucas é biólogo, educador, divulgador científico, ilustrador e artista independente. Começou a desenhar de forma autodidata ainda pequeno, por volta dos 4 ou 5 anos.
Tímido quando criança, Lucas encontrou na arte um caminho para se expressar e demonstrar afeto. “Eu gostava de desenhar para as pessoas, queria ver a reação da minha mãe quando ela voltava do trabalho, dar orgulho para ela. Depois comecei a desenhar para meus amigos também”, relembra.

Lukera pintando uma camiseta a mão @Arquivo pessoal
Já na adolescência, fazia capas de trabalhos escolares e buscava referências em mangás na internet, praticando sozinho a observação e o desenho. Curioso sobre diferentes temas, encontrou na prateleira de livros da mãe uma das motivações para estudar desenho e aprender mais sobre filosofia, biologia e literatura infantil.
Durante o ensino médio, Lukera passou a reconhecer a importância do território onde vivia, especialmente a partir do contato com o movimento cultural da região, marcado pela influência do rap. Artistas como Rael, Pentágono e Criolo, vindos do Grajaú, se tornaram referências.
Aos 15 anos, começou a trabalhar como jovem aprendiz. Com o incentivo de um colega, decidiu investir parte do salário em um cursinho pré-vestibular. Apesar de considerar áreas como web design e design de games por conta da afinidade com o desenho, seu sonho de infância era ser médico veterinário.
Foi no cursinho, aos 16 anos, que descobriu a paixão pela biologia. Após três anos de estudo, foi aprovado em ciências biológicas na USP (Universidade de São Paulo). Para se manter, passou a produzir camisetas pintadas à mão, personalizadas com temas escolhidos pelos clientes, desde bandas de rock até personagens da literatura brasileira.
“A ilustração das camisetas foi uma forma de bancar o meu sonho de estudar Biologia. O cursinho popular impactou muito a minha vida, me trouxe perspectiva social sobre a história do Brasil e geopolítica”, afirma. Mesmo seguindo na área científica, nunca abandonou a arte, que continuou presente em sua trajetória profissional e pessoal.

Lukera com seu primeiro quadrinho Servo dos Servos @Arquivo pessoal
A arte começou a se tornar fonte de renda com as camisetas, mas logo ganhou novos caminhos. Lukera participou de um coletivo do Capão Redondo, selecionado pelo edital público VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), e ilustrou 20 páginas da HQ Servo dos Servos, que abordava grupos extremistas na periferia.
Em 2015, ao lado do colega Diego Torres, criou a HQ Kauira Dorme. A obra foi impressa apenas em 2019, por meio de financiamento coletivo, e lançada na primeira edição da PerifaCon, evento dedicado à cultura nerd e geek nas periferias.
“Esse momento foi lindo. Um dos melhores da minha vida. A galera fez fila pedindo autógrafo. A PerifaCon abriu muitas portas e me deu confiança no meu trampo”, conta.

Lukera com sua banca na Perifacon, em 2024 @Arquivo pessoal
Apesar dos avanços, Lucas enfrentou dúvidas sobre seguir na arte por questões financeiras. A participação em coletivos foi fundamental para fortalecer sua trajetória como artivista. Em 2020, integrou o Corre Coletivo e produziu o roteiro e a ilustração da HQ O Inimigo Invisível, em parceria com o Sesc Interlagos.
A obra, vencedora do Prêmio HQ Mix 2021, aborda a prevenção da Covid-19 nas periferias, unindo arte, educação e divulgação científica. Como o lançamento foi na época da pandemia, a distribuição do livro foi realizada de casa em casa, pelas ruas dos bairros Jd. Guanhembu e Jd. Gaivotas.
Como biólogo, Lukera sempre sonhou em explorar a natureza: mergulhar, viajar e conhecer o mundo. As memórias de infância pescando com o pai na Represa Billings e o interesse por documentários e revistas como a National Geographic marcaram esse desejo.
Depois de atuar como professor, passou a se dedicar também à divulgação científica acessível. Em 2023, durante um voluntariado na Ilha Anchieta com a bióloga Gabriela Longo, nasceu o podcast Sinal de Vida.
A ideia surgiu de forma espontânea: com um gravador em mãos, começaram a registrar a experiência de campo. Durante a expedição, fizeram um registro raro da raia-chita (Aetobatus narinari), tipo de raia preta com pintinhas brancas que está em risco de extinção na lista global de ameaça às espécies.
“Todo dia a gente mergulhava em busca dela. No podcast, você se sente lá com a gente, como se fosse um diário de campo”, explica.
O podcast narra a jornada dos dois biólogos em uma ilha desabitada, entre mergulhos, desafios, descobertas e histórias do território. O projeto é uma produção do Alô, Ciência? com apoio do Instituto Serrapilheira.

Lucas Andrade no set de filmagem com o cachorro Caramelo @Arquivo pessoal
A entrada de Lucas na animação surgiu de forma orgânica: das camisetas aos quadrinhos, dos quadrinhos às ilustrações e aos storyboards, técnica utilizada para desenhar cenas antes de um filme ser produzido.
Com experiência em publicidade e audiovisual, foi convidado para desenvolver storyboard e animação do filme Caramelo, da Netflix. Antes disso, já havia produzido animações para documentários do Corre Coletivo e para o documentário Vânia e Valéria.
O convite para ilustrar a animação Caramelo simbolizou um momento de reconhecimento e expansão na trajetória de Lukera. O artista afirma que sempre teve o desejo de desenvolver um trabalho capaz de impactar positivamente as pessoas e encontrou, na união entre arte e biologia, o caminho para concretizar esse propósito.
Ao comunicar a ciência de maneira afetiva, a partir da perspectiva de quem veio da periferia, Lukera também utiliza a arte como ferramenta para abordar causas importantes e ampliar representações.
“Se eu posso inspirar a pessoa a acreditar um pouco mais em si, na quebrada onde ela está, é também manter essa chama acesa, se eu não seguisse meus sonhos, eu faria coisas copiadas, sem identidade. Eu agradeço muito por ter ouvido essas batidas do meu coração”, finaliza.
Jornalista, produtora audiovisual e fotógrafa independente. Apaixonada por música, rolês culturais e viagens.
A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.
Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.
Envie uma mensagem para republique@agenciamural.org.br