“Quebrada Queer” discute sexualidade e gênero na periferia

Cinco jovens dos extremos de São Paulo lançaram na semana passada o grupo Quebrada Queer, coletivo composto por cinco integrantes de várias regiões da Grande São Paulo.

Com mais de 300 mil visualizações no Youtube e atingindo o topo do ranking das músicas no Spotify, o cypher [estilo de música que tem como objetivo reunir MC’s para abordar diferentes temas] é o primeiro composto por rappers LGBTQ+ na América Latina.

No clipe de estreia, o coletivo aborda a luta LGBTQ+ e tenta representar a união de forças no intuito de trazer mais representatividade para o público que por muito tempo é mantido em espaços invisíveis.

O grupo trata nas músicas sobre a conscientização, os riscos de ser gay, negro e periférico, e celebra a importância de se reafirmar dentro de diversos espaços. 

A Agência Mural fez um bate papo com cada um sobre como começaram suas carreira e como eles se juntaram para formar o coletivo.

Tchelo Gomez, 26, teve a ideia do nome do grupo

“Na escola cês zoavam, hoje cês batem palmas / E eu que dou risada, quando paro pra pensar”

Marcelo Gomes Augusto da Silva, 26, se nomeou Tchelo a partir do momento em que viu a necessidade de deixar a música como hobby e torná-la mais profissional. Criado na cidade de Jandira e morador de Barueri, na Grande São Paulo, é formado em publicidade e propaganda. 

Foi por conta de uma inquietação que Tchelo teve a ideia de criar a cypher. Ele conta que começou a pesquisar quantas cyphers de LGBTQ+ negros existiam na cidade e até mesmo no país, e não conseguiu encontrar nenhuma. Depois, resolveu entrar em contato com os outros quatro rappers para começar a por a ideia em prática.

O nome do cypher, inclusive, veio de Tchello. Assim que reuniu todos em um grupo de WhatsApp, ele nomeou a conversa como “Quebrada Queer”. “Não foi algo pensado, eu precisava de um nome para colocar no nosso grupo de conversa e esse foi o primeiro que me veio em mente. Até falei que era provisório, mas eles gostaram da sonoridade do nome”, relembra.

Ano passado, o rapper lançou um  EP intitulado “TCHELO”, que migra das cordas e acústico, aos beats com toques de R&B e funk, algumas de suas maiores inspirações.

Harley Melo, 21, é do Capão Redondo e defende a discussão do tema nas periferias

“Esse é só o primeiro desabafo que tá entrando pra história / E, com certeza, o meu pai não ia se orgulhar”

Harlley, o mais novo dos cinco, nasceu e cresceu no bairro do Capão Redondo, extremo sul da capital. Para ele, a trajetória no mundo artístico começou cedo. “No teatro eu até me engajei, mas desde pequeno sempre gostei muito mais de cantar”, conta.

Foi por meio de um amigo que iniciou a trajetória no hip hop. Suas primeiras apresentações foram na casa de cultura do bairro, onde recebeu apoio e motivação para continuar com a música. “Foi incrível, o Capão sempre me acolheu, me abraçou. Depois que abri o show do Rico Dalasam no meu bairro, pude sentir que estava no caminho certo, porque o público lá é muito diferente para mim, é especial”, afirma.

Antes do Quebrada Queer, Harlley lançou o EP “Unlovers” em dezembro do ano passado. Ele mantém uma tatuagem na mão direita com o mesmo título para registrar a realização do sonho. Hoje, junto ao grupo, faz shows com seu próprio repertório nos festivais e espaços de seu bairro.

Lucas Boombeat, 24,passou por várias regiões da capital antes de entrar no grupo

“Ninguém me dá voz / Eu já tenho voz”

Lucas Fidelis já morou no Ipiranga, na zona sudeste, em Ubatuba, no litoral do estado, e no Grajaú, zona sul da capital, onde passou a maior parte da sua vida. Hoje, sai todos os dias de casa no Jardim Fontalis, na zona norte, para continuar uma trajetória que começou aos sete anos.

“Apesar da minha precoce performance artística, eu sempre fui repleto de rejeições na vida, não só como bicha mas como o filho bastardo também”, argumenta o cantor.

Antes de se tornar Boombeat, Lucas era operador de telemarketing. Mesmo dentro de um emprego estável, decidiu não deixar seu sonho de lado porque acreditava que chegaria em algum lugar.

A entrada na cena do mundo do rap foi graças a rapper Bivolt, sua amiga de infância. “Comecei a enxergar o hip hop de outra forma quando comecei a produzir minha irmã Bivolt, foi através dela que eu iniciei meus primeiros versos de rap”, conta.

O rapper  vai lançar até o final do mês o primeiro single solo oficial chamado “Guerreiros e Guerreiras”.

Murillo Zyess, 22, participa de eventos de rap desde os 14 anos

“Vai ter bicha no RAP sim! / E eu nem sou pioneiro.”

Mesmo não sendo o primeiro, Murillo Zyess faz rap no Jardim Ângela, zona sul da capital, desde os 14 anos. “Comecei a colar em batalha de rap com meus primos, eles faziam freestyle, e eu ficava assistindo e os admirando. Aquilo foi se tornando muito significativo pra mim”, conta.

Para o rapper, a cena serviu como instrumento de autoafirmação e empoderamento, em que mecanizava seus pensamentos a partir da composição sobre sua vivência. Com inspirações como Cardi B, Wiz Khalifa, Nicki Minaj e Rico Dalasam, já fez parceria com Gloria Groove e incentiva junto com o Quebrada Queer a discussão e visibilidade LGBTQ+ nas quebradas.

“No Recinto” é o título do primeiro de seu EP lançado no ano passado, em que conta com a música “Liga o Mic”, single com mais de 250 mil visualizações no Youtube.

Guigo, 26, veio do rock e se interessou pela arte de drag queen

“Só mais um trago desse amargo que eu vivi / Com tantas notas, chora! Que hoje eu vou sorrir.”

Guilherme Leoni, 26, mudou muito do que era aos 14 anos de idade. Na adolescência, se interessou pelo rock em Guarulhos, na Grande São Paulo, cidade onde mora e cresceu. Entrou para uma banda de hardcore e saiu três anos depois por não ver mais sentido naquilo.

“Foi nesse meio tempo que comecei a me descobrir enquanto indivíduo e que comecei a descobrir minha sexualidade e entender o que eu queria fazer”, conta.

Aos 17, descobriu que gostava da arte drag queen. A mudança do campo hardcore para o drag começou depois que o rapper assistiu a shows e se enxergou naquela forma de expressão.

O sucesso foi grande e as viagens para performances começaram a surgir. Porém, Guigo parou de dublar porque queria dar vida a própria voz. Encontrou no rap um espaço para sua arte e começou a procurar alguém que pudesse produzi-lo. “Foi onde mais encontrei dificuldade. Devo ter procurado mais de 40 produtores, por baixo”, recorda.

Nessa procura, Leoni passou por situações abusivas que o fizeram perder fé na música. A situação mudou quando a produtora Drica Lara o apresentou ao Base MC que produziu o EP Medusa. 

Sobre o trabalho do Quebrada, Guigão enfatiza que foi aberto um novo caminho sobre o tema. “Não importa quanto as pessoas vão discordar disso, mas a gente acabou de cravar uma bandeira extremamente colorida onde o espaço sempre foi preto e branco.”

Os cinco componentes da Banda Queer (Fotos e Vídeo: Paula Rodrigues/Agência Mural)

Julia Reis e Wallace Leray são correspondentes de Taboão da Serra e do Grajáú

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