A catraca que não é livre

Pela segunda vez no ano, Prefeitura de São Paulo bloqueia bilhetes únicos. Desta vez, foram somente os passes livres

Arte: Magno Borges/Agência Mural

Começo do mês. Quando a sua dieta que tanto promete deveria começar, o juramento de que vai economizar dinheiro surge como um lembrete e você renova as cotas que já estão acabando no seu bilhete único.

Ao sair do meu trabalho com esses três compromissos na cabeça, fui cumprir o mais importante. Não comprei uma barrinha de cereal, mas depois do trabalho, fui até a estação de metrô mais próxima, Terminal Barra Funda, na zona oeste da capital, na expectativa de recarregar as cotas que já estavam no limite.

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Em meio a uma fila enorme e pessoas que não param de aparecer em uma das maiores estações de São Paulo, ao meio-dia parecia que eram 18 horas.

Me preocupei com o horário, pois minhas aulas começariam em 30 minutos, e o almoço que comi muito rápido ainda estava tentando digerir em meio à correria. Fui ao lugar onde ficam as máquinas automáticas de recarga que quase ninguém sabe o significado. À minha frente, um moço que parecia estar na mesma situação depositou seu bilhete na expectativa de que prosseguisse sua viagem. “Bilhete único bloqueado”. Ao soltar um daqueles palavrões que a gente repete algumas vezes ao dia, ele saiu, sem entender nada.

Aflita, eu era a próxima da fila. E sem esperar dois segundos, já obtive resposta. Sim. “Bilhete único bloqueado”. Insistente, tomei a mesma ação três vezes. Olhei pro relógio e minha aula começava em 15 minutos, o momento exato em que o trem que sai da Barra Funda para na estação República, da linha vermelha.

Sai repassando mentalmente todas as vezes que isso aconteceu. E ,surpresa, notei que nenhuma. Então fui até o guichê para pedir informação. “Seu Bilhete está bloqueado. Tem que ligar lá na SPTrans e ver o que aconteceu…”

10 minutos. Vi que não tinha jeito e comecei a procurar notas perdidas dentro da mochila desorganizada em meio a papéis de segunda via de cartão de crédito. Comprei minha passagem e passei para a parte nobre da estação. Daquelas pessoas que não tinham o bilhete bloqueado, sabe? Prossegui viagem.

Sem o mínimo incentivo para estudar, terei de tirar 114 reais por semana para conseguir este feito

Ao telefone, lutando com o sinal, recebi a resposta de que isso tudo aconteceu por falta de atualização de documentos e de que eu precisaria comparecer a algum posto da SPTrans para levar o comprovante de renda mínima e de matrícula. Também deveria informar se utilizo ônibus e trilho para me locomover até o local onde estudo. “Mas a minha faculdade já não enviou isso?”, perguntei. “A senhora terá de comparecer para atualizar mesmo assim”.

Sem aviso prévio, fiquei ciente de que não poderia usar meu bilhete até arranjar tempo para ir a um posto SPTrans. Tempo e dinheiro.

Uma pessoa que pega dois ônibus e um metrô para ir e voltar para casa gasta em média R$22,80 por dia. Isso dá um total de 114 reais por semana.

Ora, talvez teria me programado para ir ao posto antes de virar o mês e resolver tudo isso de maneira antecipada. Mas não vi nada nos cartazes dos ônibus, ou nem nos jornais que sempre notificam uma “operação” da prefeitura na cidade linda de São Paulo.

Sem o mínimo incentivo para estudar, terei de tirar 114 reais por semana para conseguir este feito. Pois deve parecer muito fácil sair de casa às 6h da manhã para trabalhar e chegar às 20h depois do estudo. Além de se organizar para caber tudo nas 24 horas que o dia oferece, só me exigindo como condição, algumas horas de sono.

A promessa da prefeitura é de que o problema será solucionado em breve, e que isto é um problema no sistema devido as novas regras para utilização do passe livre, que reduz as horas de uso. No começo do ano mais de 9,9 mil pessoas compareceram nos principais postos da SPTrans para solucionar o problema.

Procurada, a SPTrans não informou o número de pessoas prejudicadas ou as causas oficiais dos bloqueios até o fechamento deste post. Nas redes sociais, a página oficial da empresa orienta que os estudantes insistam no procedimento até que a leitura do cartão seja correta ou compareça a um dos postos de recarga. São inúmeras as reclamações.

Na esperança de ser só um problema técnico, rodei pelos terminais de São Paulo na caça às cotas. A tão temida palavra “bloqueado” continua se repetindo nos visores, e os R$ 22,80, somados na conta do fim do mês me atualiza de mais um dia.

Por Julia Reis, correspondente de Taboão da Serra
[email protected]

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