A chuva na Cantareira e os tempos em que corríamos para pegar a roupa do varal

Muralista relembra desenvolvimento de bairros da região do Tremembé, na zona norte de SP e substituição da mata por moradias

Barulho ao longe,
‘Embranquecimento’ na serra,
corre, que lá vem ela,
A chuva.

Toda a infância foi assim, correndo na frente dela, correndo atrás dela, correndo nela. As chuvas eram nossas amigas em algumas ocasiões e inimigas em outras.

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Quando me mudei, em 1992, para Associação Sobradinho, bairro pequeno adjacente ao Jardim Fontalis, ainda não havia ruas abertas no loteamento na zona norte de São Paulo. Andávamos por trilhas que levavam a única rua da região, sem asfalto. Hoje, ela é a via ‘principal’, batizada de Barão Carlos de Sousa Anhumas.

O loteamento era um clarão no meio do mato. Não por acaso, já que nos situamos próximo da Serra da Cantareira, que já foi bem mais visível para quem vive por aqui.

Essa era uma região de plantio, chácaras e sítios. Com o avanço da cidade, os antigos moradores resolveram vender as terras e assim foram surgindo novos bairros, como o Sobradinho. Já existiam o Jardim Fontalis, o Recanto Verde, o Jardim Corisco, Furnas e Joana D’arc.

Mas nosso bairro era o mais verde da região. Nas imediações de nossas casas havia plantações, roçados, sítios. Chegávamos a eles andando bem pouco dentro da mata e, sim, algumas vezes a gente pegava umas frutas. Nosso campinho ficava ao lado de um riozinho de água limpa e tinha um brejo onde os sapos cantavam a beça durante a noite.

Durante as tardes de verão, enquanto jogávamos futebol ou empinávamos pipa, o tempo fechava e era preciso manter o olhar e os ouvidos atentos. Nossas mães nos incumbiam de vários afazeres domésticos, já que a maioria delas trabalhava fora de casa. Entre as tarefas, estava retirar a roupa do varal caso chovesse. E sempre chove no verão.

Jogadores ainda jogam futebol na chuva, mas bairro vive nova situação (André Santos/Agência Mural)

Como nativos da mata que éramos, sabíamos distinguir o barulho e a visão da chuva. Os meninos olhavam pra Serra da Cantareira e era possível ver aquela cortina d’água vindo em nossa direção. “Corre!” Alguém gritava e saíamos em disparada pra salvar a roupa da água e nossas nádegas das cintas.

Muitas vezes éramos ultrapassados pela chuva nesse trajeto e toda corrida era em vão. Nos causava um certo êxtase essa prova contra a mãe natureza, corríamos dando risada.

Quando a chuva vinha do lado da mata alta (um morro coberto de árvores), o que nos avisava sobre a chegada era o barulho das gotas de água nas folhas das árvores, barulho forte, o volume ia aumentando: “Corre” E começava aquela prova excitante e divertida.

Logo após recolhermos a roupa, corríamos de volta ao campinho e o jogo na chuva começava: muita lama, tombos, risadas. Virou tradição o jogo na chuva.

TRANSFORMAÇÕES

Numa manhã, no final dos anos 1990, um espanto: uma ocupação surgiu na mata alta, já havia moradias construídas com madeira, plásticos, papelão. Num domingo, quando o time do Fontalis foi jogar no famoso campo do Olaria, surpresa: havia uma ocupação no meio do campo. As marcas geométricas do campo de futebol deram lugar a um amontoado de moradias improvisadas. O campo nunca mais foi visto, e nascia o Jardim Martins Silva.

Muitas outras ocupações surgiram e loteamentos legais também. Hoje a serra se encontra distante do Sobradinho, do Fontalis. Só a vemos de longe. E a chuva quando chega, chega sem aviso. Alguns pontos dos bairros sofrem com enchente pela impermeabilização do solo. Hoje ninguém mais amassa barro, nem tem mais riozinho nem sapos.

Moradia é um direito constitucional. Se há terras disponíveis e pessoas precisando de casas, que ocupem, acho legítimo, não é esse o ponto. Falo sobre um bairro da minha infância que já não existe mais. Mal de quem envelheceu no mesmo lugar e que já não o reconhece, coisas de nostalgia.

O que há no entorno agora são novos bairros, Vila Ayrosa, Flor de Maio, Vila Talarico, Jardim São Luiz, Jardim Martins Silva. Nos últimos meses, foram mais duas ocupações, e menos árvores a vista.

Antes, quando a gente ultrapassava a entrada da Subestação de Furnas (empresa que atua no segmento de geração e transmissão de energia) e cruzava o rio que corre ao lado dela em direção ao Sobradinho e ao Fontalis, o clima ficava mais fresco. Muita gente comentava: “Passou as Furnas já fica frio”. Hoje, sem tantas árvores, não sentimos mais aquele friozinho de quem está chegando em casa, em seu território.

Moradia é um direito constitucional. Se há terras disponíveis e pessoas precisando de casas, que ocupem, acho legítimo, não é esse o ponto. Falo sobre um bairro da minha infância que já não existe mais. Mal de quem envelheceu no mesmo lugar e que já não o reconhece, coisas de nostalgia.

Ao menos uma tradição ficou daqueles tempos. O futebol na chuva é realizado ao menos uma vez por ano, geralmente na semana que antecede o Natal/Samba da Árvore. Se chover, sempre chove (apesar de a Cantareira não mais nos avisar, ela prefere olhar de longe agora) aparecerá alguém com uma bola na rua e os marmanjos e crianças se misturam pra brincar na chuva, pra brincar com a chuva, já sem a preocupação com as roupas no varal.

André Santos é correspondente do Jardim Fontális
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André Santos

Jornalista, correspondente do Jardim Fontalis desde 2017. Integrante do Coletivo Favela em Cena de teatro (ator e diretor). Ama carnaval e jura que é baiano (tem que checar isso aí, ok?).

Jd. Fontalis, São Paulo

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