‘A educação básica depende das universidades públicas’, defende professora

Professora da rede pública de São Paulo avalia motivos dos protestos desta quarta-feira (15) e como as políticas adotadas na educação podem afetar moradores das periferias

Claudia Maria Luciano, 57, foi uma das educadoras que participou dos protestos nesta quarta-feira (15) contra cortes na educação. Professora na escola estadual Aurélio Campos, em Interlagos, zona sul de São Paulo, a docente afirma que o corte de despesas no ensino superior afeta também a educação básica.

“Indiretamente quem acaba sendo prejudicado com isso é a educação básica. Nós estamos junto com eles [universidades] contra o corte”, afirma.

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O governo alega que houve contingenciamento de 35% e que não é um corte. No entanto, bolsas foram suspensas e diversos setores da educação pública e privada participam de atos pelo Brasil e na Avenida Paulista.

Na Grande São Paulo, ao menos 14 cidades tiveram escolas fechadas em função do protesto. Para Claudia, a ação também é um momento de reivindicar melhoria na situação dos professores da rede estadual. “Faz parte das mobilizações gerais da educação do Brasil. Nós temos todos os setores da educação mobilizados”.

Professora em Interlagos, Claudia participou do ato na Avenida Paulista (Acervo Pessoal)

Como foi a mobilização para participar do protesto?
Temos feito assembleias, porque a situação para o professor do estado está bem difícil. Essa PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que a gente chama de PEC do fim do mundo, os 20 anos de congelamento de verba. Você não tem verba na escola pública. Tinta para imprimir para os alunos é coisa que parece ouro na escola. Fora todas as precariedades físicas que temos. Escolas que não têm nenhuma cortina para o sol não bater no rosto dos alunos, imagina se vai ter um laboratório de informática. Na minha escola os professores de educação física dão aula em um pátio.

A dificuldade também é vista nas famílias dos estudantes?
Os pais em sua grande maioria desempregados ou com empregos precários. Na minha escola, por exemplo, eu tenho criança que tem como alimentação só a comida da escola. Então, eles ficam sem comer o dia todo e chegam na escola com fome. E agora essa questão de mudança, essa reforma da previdência que vai afetar muito os professores. Já tem uma situação difícil para lidar, tem professor que já não está aguentando mais nem o tanto que tem para aposentar, imagina se aumentar.

E quais os problemas dos professores?
Antigamente, professor tinha problema só de varizes, porque ficava de pé. Depois passou a ter de voz. Agora tem problema de pressão alta. Ele não toma água, porque se toma dá vontade de fazer xixi e não para para ir ao banheiro, porque não tem com quem deixar os alunos. Sabe esse ciclo?

Como você acha que os cortes nas universidades podem impactar a escola pública?
A educação básica depende fundamentalmente das pesquisas que são feitas nas universidades públicas. Tudo o que é feito para a melhoria do conhecimento está dentro das universidades públicas. Se a gente tem alguma coisa hoje que pode salvar o conhecimento desse país, está dentro da universidade pública. Indiretamente quem acaba sendo prejudicado com isso é a educação básica. Nós estamos junto com eles [universidades] contra o corte.

Qual a importância do ensino superior para a periferia?
É fundamental. Todas as pessoas que acessam o ensino superior acessam uma possibilidade de atuar no próprio espaço na periferia. E a melhoria das condições de vida são evidentes. Tanto que quem atua nas periferias, a Cristiane [professora do Grajaú que possui um projeto sobre reúso de óleo] mesmo, o trabalho que ela faz. É uma pessoa da periferia, acessou o ensino superior e tem esse projeto na periferia. Tem um professor ligado a geografia, mas ele faz um trabalho com horta para os alunos se apropriarem do espaço lá no Varginha [bairro na divisa do Grajaú e Parelheiros]. Tem outro que trabalha com música. Há vários exemplos. É o ensino superior. E quem está protagonizando? São os professores.

Na sua escola todo mundo parou?
De manhã a escola estava fechada. E a tarde tem os professores eventuais. Eles dificilmente param, porque se param corta o vínculo deles. O administrativo vai funcionar, porque não conseguimos convencê-los a parar. Mas os professores efetivos não vão dar aula.

Os alunos estão engajados, estão perdidos, como está isso por parte dos alunos?
Nas escolas onde existe, por exemplo, um grêmio livre, autônomo, já existe essa discussão. Por aqui na nossa região os alunos apoiam os professores, mas mesmo assim a gente tem feito reuniões com os pais para explicar os motivos da nossa paralisação e também para conscientizar a população de que a tarefa nossa como parte intelectual da sociedade é mostrar o outro lado que a grande mídia não mostra. Dificilmente os professores não têm o apoio dos pais. Se há em alguma outra escola, eles não se manifestam. E no dia de hoje está lindo o apoio, porque esse governo trata o povo como trouxa, mas o povo se faz de bobo para viver, mas de bobo não tem nada.

A gente ouviu falar na mídia sobre a mobilização de pais de alunos de escolas particulares, mas não ouvimos de escolas públicas.
Sabe por quê? Existe uma razão para isso. Os nossos pais são trabalhadores e, no geral, precarizados, então eles não podem ir com a gente. Mas eles vão lá e dizem: é isso aí mesmo professora, tem que ir para a luta. É difícil os nossos pais deixarem um dia de serviço, que é o ganha pão, para ir lá para a Paulista com a gente. A nossa população é uma população muito pobre. Se não for trabalhar, não come. É diferente. Na escola particular, o pai ou a mãe pode negociar no trabalho ou não trabalha.

O apoio na escola pública é maior para as paralisações?
Acho que o apoio na escola pública é maior, porque sentem na pele o que a gente sente. E hoje a escola é o ponto de luz que existe na periferia. Na periferia você não tem uma praça iluminada, você não tem um teatro, não tem um cinema, não tem uma quadra, não tem uma iluminação pública para que as crianças e os adolescentes possam ficar na rua, porque a rua também é um espaço de socialização. Então, onde isso acontece? É na escola, mas a escola está jogada para as traças.

Priscila Pacheco

Jornalista, correspondente do Grajaú desde 2015. Atualmente, é editora-adjunta. Curte viajar e ler. Ama gatos e gastronomia.

Grajaú, São Paulo