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‘A Laura deixou uma grande missão para mim’, diz mãe de travesti assassinada na zona leste de SP

No Dia Internacional contra a LGBTfobia, mãe de Laura Vermont, travesti assassinada em 2015, afirma usar o nome da filha para lutar pela causa trans

No Dia Internacional contra a LGBTfobia, a Agência Mural lembra o legado deixado por Laura Vermont, travesti assassinada em 2015, aos 18 anos, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. Em 20 de junho de 2015, a jovem foi assassinada de forma brutal na avenida Nordestina, uma importante via da região.

Quase seis anos após a morte, a mãe de Laura, Zilda Laurentino, 60, não esquece da filha um único dia. Ela passou a usar o Vermont no nome e a lutar pela causa trans.

A mais nova das três filhas da matriarca, Laura era a alegria da casa. Contou muito cedo sobre a identidade de gênero e teve acolhimento da família. Com apoio dentro de casa, o medo de Laura e da família era em relação ao mundo lá fora. O que infelizmente se confirmou.

Mas a morte de Laura não foi em vão, pelo contrário. Laura plantou muitas sementes, principalmente em casa. Zilda entrou para a ONG Mães pela Diversidade, organização criada em 2014 por mães e pais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

Laura também virou nome do Centro de Cidadania LGBT em São Miguel Paulista “Quem diria que teríamos um centro para população LGBT aqui na zona leste?”, questiona Zilda.

Zilda Vermont, mãe da travesti Laura Vermont | Caê Vasconcelos/Agência Mural

A mãe conta que passou a acreditar no espiritismo depois de receber cartas psicografadas de Laura, pedindo que ela continuasse a luta por justiça e direitos.

“A luta ainda é grande. O que me fortalece é que a Laura deixou uma grande missão para mim. Nas cartas [psicografadas] ela sempre diz: continua porque a luta é nossa”, afirma.

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Para a mãe, a filha veio para esse mundo com uma missão: resgatar vidas. “Laura abria conta nos comércios e comprava calçado para todo mundo que não tinha. Ela não media esforços para ajudar. Quantas vezes fiquei apavorada porque ela chegava com três ou quatro amigos, falando que foram expulsos e que ela queria acolher?”.

Até virar ativista e continuar o legado da filha, Zilda enfrentou uma depressão severa. Tudo mudou quando ela começou a receber mensagens de mães de pessoas LGBTs pedindo ajuda.

“Amem os seus filhos. Abracem os seus filhos. Lá fora a gente não sabe o que pode acontecer. Seja o que os filhos forem, apoie. Repito isso a todo instante. Os filhos precisam de amor. Muitas mães me procuram para dar orientação. Mães que expulsavam seus filhos, hoje os aceitam.”

Ajudar outras mães e jovens trans a reergueu. “Costumo ir na Parada LGBT e muitos jovens vêm me abraçar falando que, se hoje há mais liberdade, é por causa da Laura. Sinto a presença dela quando estou nesses espaços. É o que me mantém em pé”, completa Zilda.

Ela lembra que, ainda na década de 1990, começou a lutar contra a LGBTfobia sem entender que estava fazendo isso.

“Tinha um restaurante no centro de São Miguel e coloquei um funcionário gay para trabalhar comigo. Ninguém aceitava. Foi a maior confusão, mas falei para ele continuar comigo.”

No mesmo ano da morte da Laura, o Brasil registrou 113 pessoas trans e travestis assassinadas no país, segundo dados do Observatório Trans. Em 2020, o número saltou para 175 assassinatos de acordo com o dossiê da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Segundo a ativista, a LGBTfobia nas quebradas melhorou, mas ainda existe.  “Depois da partida da Laura, deu uma melhorada. A Laura movimentou tudo mesmo. Mas ainda não é o suficiente. Quando abriu o Centro de Cidadania, fui ameaçada pela família dos policiais envolvidos na morte dela”, desabafa. 

Na última semana, a família de Laura ganhou na Justiça o direito à indenização do Estado, que reconheceu que  houve omissão de socorro e que os policiais que atuaram no caso mentiram em depoimento. O crime ainda aguarda julgamento

Zilda Vermont passou a usar o nome da filha | Caê Vasconcelos/Agência Mural

O LEGADO DE LAURA VERMONT

O jornalista Luiz Fernando Uchôa, 37, era um dos melhores amigos de Laura e lembra que a morte teve impacto na Família Stronger, coletivo da zona leste que acolhe pessoas LGBTs sem aceitação da família biológica. 

“Não conseguimos lidar com a questão da morte da Laura e, principalmente, do jeito que tudo aconteceu”, cita. 

Luiz concorda que um dos legados de Laura é existir um centro, com seu nome. “Isso demarca a questão de que nós não vamos mais aceitar a questão da LGBTfobia institucional”, resume.

“Vamos ocupar os espaços, sim. Os nossos corpos, os nossos afetos, vão circular livremente independente da zona da cidade a qual estivermos residindo, transitando.”
Luiz Fernando Uchôa, um dos melhores amigos de Laura Vermont

Ações educativas em escolas, além de centros culturais, com a temática da diversidade sexual e de gênero, são algumas políticas públicas que deveriam ser adotadas no município para evitar ou

Altar de Laura Vermont, na casa de Zilda | Caê Vasconcelos/Agência Mural

tras mortes, sugere Luiz, que é também especialista em gênero.

São estratégias com o objetivo de promover segurança para que as pessoas LGBTs se manifestem com liberdade na cidade. “Acredito que fazendo essas ações em locais pontuais da periferia, que demarcam maior concentração de pessoas, a gente consiga avançar na questão dos trabalhos comunitários. As igrejas fazem isso”, aponta. 

Outra questão que impede a instauração de uma política que atenda essa população é a ausência de dados. Atualmente, somente a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) coleta dados das mortes e violências cometidas contra a população trans no país. 

Uma das críticas à falta dos números é a covereadora Carolina Iara (PSOL), que já trabalhou na Prefeitura de São Paulo. “Não há esse mapeamento. Na verdade, [não tem] nenhum preparo à pauta trans no executivo paulistano”, disse em reportagem do 32xSP

Segundo Symmy Larrat, presidenta da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos), a ausência da informação prejudica as ações municipais à população, além de invisibilizar. 

A opinião dela é a mesma de Luiz. “Nossa população não é mapeada, né? Se ela não é mapeada, portanto, não há dados, não há tipificação. Só posso te dizer que são muitas mortes, mas há algo muito vago”, explica.

Para tentar mudar o cenário, ele comenta ser necessário pressionar os vereadores em prol de verba para realizar a coleta dos dados. “Exigir que esse mapeamento entre na cota orçamentária do município ou o vereador destinar uma verba para isso. Sem dados não há como fazer políticas públicas efetivas”, finaliza. 

Caê Vasconcelos

Homem trans, jornalista, correspondente de Vila Nova Cachoeirinha desde 2017. É corintiano e apaixonado pela cultura hip hop. É autor do livro-reportagem "Transresistência: Pessoas trans no mercado de trabalho" (Dita Livros, 2021) e repórter especializado na editora LGBT+.

Vila Nova Cachoeirinha , São Paulo

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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