“A Marcha da Consciência Negra é importante, mas não pode ser só isso”

Thaís Cabral, 33, parou o olhar no nada, num ponto fixo. Andava ao meu lado, mas parecia estar a quilômetros de distância. A multidão também seguia em frente. Palavras de ordem ecoavam na fria tarde paulistana. Garoava e ventava no último dia 20 de novembro de 2017, Dia da Consciência Negra. Evento que, há quatorze anos, passou a fazer parte da programação do Novembro Negro em São Paulo.

A data faz referência à morte de Zumbi dos Palmares, líder do quilombo mais importante, localizado na Serra da Barriga, em Alagoas, durante o período colonial no Brasil.

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O mês é marcado por mobilizações sociais que apoiam o combate ao racismo e exigem a garantia e ampliação dos direitos da população negra. Também reúne atividades culturais e educacionais em diversas instituições espalhadas pela cidade e pelo país.

Neste ano, o tema foi “Contra o racismo e o genocídio: por um projeto político de vida para o povo preto”.

Enquanto caminho ao lado de Thaís, pergunto se estava tudo bem com ela, se precisava de algo. Tudo estava ok, me respondeu, emendando a frase, reflexiva: “Estou pensando em algumas coisas, no meu amigo que foi agredido por ser negro”.

Thaís falava sobre o ator Diogo Cintra, 24, que foi espancado na madrugada do último dia 15, nas imediações do Terminal Parque Dom Pedro II, na região central, com a conivência de agentes de seguranças do local.

Os espancadores acusaram Diogo de ser um ladrão, quando, na verdade, ele era a vítima. O ator estava sozinho naquela noite tentando voltar do terminal para sua casa, no Capão Redondo, periferia da zona sul.

O Terminal Parque Dom Pedro II é um dos mais importantes pontos de acesso às periferias nas madrugadas de São Paulo, desde 2015. Há dois anos, o ex-prefeito Fernando Haddadda havia criado a Rede de Ônibus da Madrugada, ou simplesmente “Noturno”.

Desde então, parte da frota circula de meia-noite às 4h, em intervalos de 15 e 30 minutos, atendendo bairros distantes das quatros zonas da cidade, como onde Diogo mora.

De volta à marcha, o trajeto teve início no vão livre do Masp (Museu de Arte de São Paulo), na Avenida Paulista, em direção às escadarias do Teatro Municipal, na Praça Ramos de Azevedo.

Ao longo do percurso, encontramos amigos e conhecidos. Nos abraçamos em meio a um “Tamo junto” — jargão reproduzido inúmeras vezes, de forma natural, em nosso cotidiano.

Era a primeira Marcha da Consciência Negra que Thaís participava. Atriz, ela nasceu na capital paulista e morou por um ano e meio na Alemanha. Compromissos profissionais sempre a impediram de comparecer ao evento. Não dessa vez. Tudo o que ela mais queria era sair de casa para “engrossar o caldo”.

O caldo foi engrossado por mim, por Thaís e por organizações estudantis, coletivos artísticos negros, representantes da capoeira, representantes das religiões de matriz africanas, movimentos quilombolas, trabalhadores em greve, coletivos de mulheres negras, baterias de percussão que acompanhavam o canto dos manifestantes. Todos seguindo. Juntos.

No início da caminhada, o caminhão de som havia sido proibido de seguir à frente da marcha, pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Mais adiante, tudo resolvido. Ele já estava agregado a nós, e ditava a velocidade dos milhares passos. A batucada dava o ritmo e a pulsação.

Tiramos fotos, cantamos, lemos cartazes e faixas, e nos impressionamos com a quantidade de pessoas que descia conosco a rua da Consolação. Um mar de gente junto, junto com a gente.

Já se aproximava das 18h. O dia ainda estava claro. Thaís e eu então nos separamos em frente à Praça Roosevelt. Mas entendemos perfeitamente que estarmos juntos foi vital, reivindicando por nós e pelos nossos, lutando por nós e pelos nossos.

“É preciso fazer mais. A marcha é importante, mas não pode ser só isso”, disse a atriz que, agora, pretende estar como pode contribuir com a luta contra o racismo.

A marcha havia germinado um sonho na paulicéia. Um sonho que é sonhado coletivamente. Nessa hora respondo a Thaís: “Tamo junto”.

Nos misturamos aos irmãos e irmãs negros e negras, marchando juntos, cantando juntos, sonhando juntos, e lutando pelos nossos direitos, para que um dia possamos todos e todas (Thaís, eu, Diogo) andemos sozinhos e sozinhas, onde e quando quisermos, sem o risco de sermos subjulgados e espancados.

André Santos é correspondente do Jardim Fontális

André Santos

Jornalista, correspondente do Jardim Fontalis desde 2017. Integrante do Coletivo Favela em Cena de teatro (ator e diretor). Ama carnaval e jura que é baiano (tem que checar isso aí, ok?).

Jd. Fontalis, São Paulo

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