Alexandre De Maio usa jornalismo em quadrinhos para contar histórias da quebrada

Morador da Casa Verde, na zona norte, jornalista é um dos finalistas do prêmio Jabuti com o livro Raul

“Não planejei, nunca, ser jornalista”. Quem diz a frase é o jornalista e ilustrador Alexandre de Maio, 41, autor de “Raul”, livro de jornalismo em quadrinhos finalista na categoria quadrinhos do Prêmio Jabuti deste ano. Os premiados serão anunciados nesta quinta-feira (28), em São Paulo. 

Raul é o primeiro livro solo de De Maio. A obra conta a história de Rafa, um “raul”, apelido dado para especialistas em golpes de cartão de crédito. O personagem, com nome fictício, mas história real, passa por altos e baixos e chega a se tornar uma revelação do rap nacional.

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Após uma série de longas entrevistas, De Maio reconstrói a trajetória de Rafa neste livro-reportagem em quadrinhos. Cercado pelas influências do hip hop, a carreira do jornalista do bairro do Limão, na zona norte de São Paulo, também possui reviravoltas.

Quando mais jovem, era um devorador de revistas. “Cresci sem internet”, conta. Em uma época que as publicações eram a principal fonte de informações para muita gente, ele sentia falta de algo voltado para o rap, que crescia no país com a ascensão dos Racionais MC’s e outros.

Crédito: Alexandre De Maio/DivulgaçãoDe Maio é autor de Raul, livro que é um dos finalistas do prêmio Jabuti

“Meus primeiros quadrinhos falavam bastante de direitos humanos, que era o que o rap falava na época”, diz.

Ele largou os estudos no 1º ano do Ensino Médio. A partir daí, passou a trabalhar em diversas áreas. Foi diagramador para publicações menores, além de desenhar para marcas pequenas.

Como não encontrava uma revista voltada ao hip hop, De Maio decidiu criar a própria publicação sobre o assunto. Assim nascia a revista Rap Brasil, em 1999. Além de entrevistas com cantores e artistas do meio, a publicação ainda possuía quadrinhos dele.

Com a Rap Brasil, viu a chance de fazer o que gostava e ainda preencher uma lacuna do mercado. A revista falava de um tema que, apesar de estar em alta na época, era ignorado pela mídia: o hip hop. Foram 10 anos de publicações.

“Naquele tempo havia uma discussão sobre a imprensa, que era ‘a mídia distorce o que a gente fala’. Então para ganhar confiança do movimento, eu publicava as entrevistas na íntegra, mesmo que houvessem erros de português ou gírias”, relembra. 

Funcionou. Com a Rap Brasil, ele ganhou a confiança dos leitores e dos entrevistados. “Recebia muitas cartas, enchia uma sala só com sacos de lixo cheios de cartas dos leitores. Metade delas vinham de presídios”, relata.

Com o tempo, Alexandre lançou outras publicações sobre hip hop, chegou a ter quatro revistas nas bancas, um programa de rádio, além de dirigir videoclipes de rap. Conheceu a esposa, com quem é casado há 16 anos e tem três filhas, em gravações para o rapper Mocotó.

QUADRINHOS

Em 2006, publicou a primeira história em quadrinhos, com texto do escritor Ferréz: “Os inimigos não mandam flores”, uma ficção com toques de realidade. Quatro anos depois, publicou o primeiro quadrinho jornalístico no Catraca Livre. Também teve reportagens em quadrinhos publicadas em outros veículos como a Revista Fórum, Estadão, Folha de S. Paulo e Agência Pública.

Ele conta que a trajetória no jornalismo é um pouco incomum, pois diferente de quem cursa a graduação, ele teve os primeiros contatos com a produção jornalística na prática. Para ele, uma coisa puxou a outra. 

“Por causa do jornalismo, pude conhecer periferias do Brasil inteiro. Eu não tinha ouvido falar sobre os números da periferia, eu estava lá” 

Alexandre relembra o episódio em que foi para São Mateus, na zona leste, entrevistar o grupo Consciência Humana, que na época sofria ameaças da polícia. Viu que a casa de um deles havia sido invadida e o sofá da sala cravado de balas.

“Te dá uma bagagem de vida e de consciência social das coisas, saber chegar e saber sair de qualquer tipo de lugar”. 

Em 2013, De Maio ganhou o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, pela reportagem  “Meninas em jogo””, que aborda a exploração sexual de menores em Fortaleza (CE). O trabalho foi feito em parceria com a jornalista Andrea Dip para a Agência Pública.

“Foi a matéria mais complexa que já fiz, pelo tamanho da apuração, com mais de 30 entrevistas que, no final, resultaram em mais de 80 páginas de reportagem. Foi uma apuração em outro estado, ouvindo muitos órgãos públicos”, conta.

Crédito: DivulgaçãoDe Maio também produziu Minas da Várzea, HQ reportagem da Agência Mural

QUADRINHOS E A PERIFERIA

De Maio aponta que hoje histórias sobre as periferias possuem mais destaque na mídia, em comparação com os anos 2000, quando começou a carreira. Sobre o jornalismo em quadrinhos, compara o momento com o início do jornalismo literário, na década de 1960.

“As pessoas não entendiam, achavam que aquilo não era jornalismo”. Ainda hoje, ele acredita que a modalidade está na fase de ser entendida e reconhecida. “Não tem como trabalhar com novidade e ser popular. É uma escolha”.

Alexandre cita nomes da “nova geração”. Carol Ito, Helô D’Angelo e Robson Vilalba são alguns deles. “Eu diria que dá para contar nos dedos. Mas hoje já existe uma galera produzindo coisas bem bacanas quando o assunto é esse”.

Na Agência Mural, De Maio desenhou a HQ Minas da Várzea, reportagem sobre futebol feminino de várzea em Parelheiros, distrito do extremo sul de São Paulo.

Pietra Alcântara

Jornalista, correspondente da Vila Medeiros desde 2019.

Vila Medeiros, São Paulo

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