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Após não encontrarem, moradores criam o ‘GPS do álcool gel’ na zona sul de São Paulo

Iniciativa partiu de uma moradora do bairro Pedreira, que não encontrou o produto em alguns comércios da região

“Em tempos de coronavírus, estamos todos com dificuldade de encontrar um item raro e muito importante para quem ainda não teve o privilégio de ser dispensado do trabalho, e  continua tendo que usar o transporte coletivo”. Assim começa a postagem feita pela advogada Mayara Torres, 24, moradora da Pedreira, zona sul da cidade.

No mesmo texto, ela anunciou que em parceria com uma página de bairro no Facebook faria um mapa colaborativo para ajudar as pessoas a encontrarem o produto. “Você também sabe de algum lugar na nossa quebrada onde tem álcool gel para vender ou onde o produto está para chegar? Então comenta aqui nesse post”, dizia a mensagem. 

Mayara lembra que a ideia surgiu depois de procurar o produto em um atacadão, dois supermercados, cinco farmácias e não achar o álcool em gel. Outra preocupação era o pai cardíaco, que não ainda não havia dispensado do trabalho. “Ele seguiria nas ruas e não conseguiria lavar as mãos sempre que precisasse”, disse. 

Depois de algumas conversas com amigos, imaginou que a página do bairro poderia ser a ajuda que precisava para alcançar mais ajuda. “Eles aceitaram em fazer os posts”, comenta; Conforme a pessoas iam falando, ela ia atualizando os pontos no mapa.

Na tarde desta quinta-feira (26), o mapa online contava com 12 espaços no bairro, com endereço e valores.

Ela lembra que em algumas postagens, as pessoas reclamavam dos preços abusivos em alguns lugares onde era possível achar. “Eu também notei uma elevação considerável nos preços desse produto, não só aqui na quebrada, mas na cidade como um todo”, diz. “Em alguns lugares da cidade o preço subiu 300%. Uma elevação de preços assim não se justifica. É oportunismo”. 

Um levantamento da Agência Mural mostrou que a reportagem visitou 88 lugares da capital e da Grande São Paulo, sendo que em apenas 13 tinham o álcool em gel.

Nas últimas semanas, o produto tem sido indicado por especialistas médicos como medida para higienização das mãos – um dos principais cuidados para reduzir a velocidade do contágio. 

Segundo a apuração, onde ainda havia álcool, os preços variaram. Em Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, o único local com o produto vendia álcool gel a R$ 5,60 e R$ 10. A maioria dos estabelecimentos, contudo, ultrapassou os R$ 15. No Pimentas, em Guarulhos, uma farmácia vendia 500 ml pelo preço de R$ 25.

OUTRAS PREOCUPAÇÕES

Para Mayara, ‘já tem se reconhecido que as comunidades serão as grande vítimas do coronavírus’. Ela diz que isso é porque as pessoas nas periferias vivem em situação precária, que impedem a adesão às políticas de prevenção, como o isolamento ou mesmo o uso de água e sabão.

“O que pode ser simples e fácil de cumprir por alguém de classe média, muitas vezes chega a ser impossível para alguém que vive na favela”, diz a advogada.

Ela diz que as áreas pobres são os últimos lugares em que o Estado chega com ‘políticas públicas de qualidade’. “É por isso que a mobilização coletiva é tão importante e se torna ainda mais essencial nesse cenário de pandemia. Quando as pessoas se organizam e se dispõem ajudar umas às outras, os impactos negativos de uma crise devastadora como essa que estamos vivendo tendem a ser minimizados”, resume. 

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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