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Artistas e coletivos culturais de Salvador sofrem com prazos de edital diante de lockdown

Beneficiados pela Lei Aldir Blanc, grupos artísticos querem novas datas para finalizarem suas produções
A produtora cultural Tulymar Costa, que faz parte do grupo de afoxé Filhos do Congo, em Cajazeiras | Moisés A. Neuma/Agência Mural

A situação de lockdown em Salvador tem deixado a produtora cultural Tulymar Costa, 39, preocupada com os prazos de finalização dos projetos que ela produz com o grupo de afoxé Filhos do Congo, em Cajazeiras. 

Tulymar faz parte dos cerca de cinco mil agentes culturais que receberam apoio financeiro, por meio da Lei Aldir Blanc, para desenvolverem projetos, a partir de janeiro deste ano. Todos os grupos contemplados devem executar suas propostas até abril. 

“Esse prazo é muito curto. Temos um documentário e oficinas com sete afoxés, que precisam de momentos presenciais. Mas como tem pessoas idosas, a gente está com dificuldades para agendar esses encontros e nosso prazo final é 23 de março”, conta Tulymar, que disse já ter solicitado prorrogação para 26 de abril.   

Desde o último dia 26 de fevereiro, a cidade passa por restrições das atividades não essenciais como forma de conter o avanço da Covid-19. Na última terça, as medidas restritivas foram prorrogadas até as 5h da próxima segunda-feira, 8 de março. 

Para o produtor cultural Cairo Costa, 33, do Jaca (Juventude Ativista de Cajazeiras), outro grupo contemplado pela lei Aldir Blanc, o curto espaço de tempo também foi algo apontado como um dos problemas com o edital. 

Grupo Jaca (Juventude Ativista de Cajazeiras), que foi contemplado pela lei e vai procurar 4 saraus | Arquivo pessoal

“Já era algo determinado nas regras. Achei pouco tempo, poderia ir até junho, julho. Mas apesar disso, a proposta realmente era super válida. O que a gente não esperava era que a situação da pandemia de alguma forma piorasse tanto”, diz Costa.

O grupo tem como proposta quatro apresentações on-line do Sarau Jaca de Poesia, durante os próximos quatro sábados deste mês. Costa explica que duas edições já estão prontas para ir ao ar e como a Covid-19 impôs limites à produção. 

“Temos gravado dentro das recomendações necessárias para não expor as pessoas ao risco, com números reduzidos de pessoas; isso de alguma forma dificultou um pouco o processo de execução”, diz. 

Por outro lado, Costa enxerga que o auxílio do edital e o universo virtual podem impulsionar os trabalhos artísticos nessa época de pandemia. “O edital trouxe a possibilidade de construir um sarau de poesia com mais qualidade e expor nas redes sociais e plataformas de streaming. Isso é extremamente importante no atual cenário em que estamos vivendo, pois as redes sociais se tornaram de certa forma o palco dos artistas, né?”. 

Também com quatro apresentações virtuais marcadas do espetáculo teatral Gota D’Água, entre os dias 31 de março e 4 de abril, a atriz Evana Jeyssan, 30, moradora do Engenho Velho de Brotas, conta ter encontrado dificuldades, principalmente, na fase de ensaios da peça, por conta da pandemia. 

A atriz Evana Jeyssan, que interpretará a protagonista Joana na peça Gota D’Água, ensaiando em casa | Moisés A. Neuma/Agência Mural

“Estamos vivendo em um cenário em que a gente não pode aglomerar. E o teatro sem aglomeração é muito complicado. É um elenco com 14 pessoas, sem contato mesmo. A cada 15 dias fazemos um teste de covid e, mesmo assim, seguimos os protocolos todos: máscara, gel… Também trabalhamos com escalonamento, com cenas individuais, e isso faz com que a gente perca muito tempo, dentro de um curto espaço. Temos um prazo de dois meses para estrear algo inédito”, explica. 

A atriz diz que durante janeiro os ensaios foram virtuais e que em fevereiro começaram os presenciais, interrompidos recentemente com o lockdown. Além do tempo, Evana ainda lista dificuldades como ensaiar em casa, dificuldades com internet e a conciliação das agendas dos atores.

“Temos a maioria de um elenco negro e que não vive só desse trabalho. Todos os dias estamos nos reinventando para poder fazer o melhor trabalho possível dentro desse cenário. Mas acreditamos que esse prazo pode ser prorrogado, porque está babado. Estamos na expectativa que fique para um pouquinho mais adiante”, diz. 

Sobre as apresentações on-line, a atriz, que vive a protagonista Joana, vê como positiva a possibilidade de levar arte para os lares das pessoas diante do cenário atual. 

“Como os teatros estão fechados, as pessoas agora vão poder assistir a peça em casa. Então, isso é uma boa novidade também para que todos tenham acessibilidade ao projeto. E a gente ganha novos caminhos, novos rumos e meios de fomentar essa arte”. 

A Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc – Lei 14.017 – foi sancionada em 29 de junho e regulamentada em 18 de agosto de 2020, estabelecendo um conjunto de ações para garantir uma renda emergencial para trabalhadores da Cultura e manutenção dos espaços culturais durante o período de pandemia. 

O Governo Federal repassou R$ 3 bilhões para os estados, distrito federal e municípios, para aplicarem em linhas de ações predeterminadas pela Lei, em prol da cultura. Desse total, Salvador recebeu, em 11 de setembro, cerca de R$ 18.755.126,00 para serem distribuídos até 31 de dezembro de 2020

Segundo a Fundação Gregório de Mattos, há 500 atividades previstas até abril, na cidade, que foram contempladas pelos editais beneficiados pela Lei Aldir Blanc. A agenda desses eventos têm sido divulgadas por meio das redes sociais da instituição, no Instagram @fgmoficial e na página do Facebook https://www.facebook.com/fgmcultura.

Cleber Arruda

Cofundador e correspondente da Brasilândia desde 2010. É jornalista do Valor Econômico e voluntário do projeto Animais da Aldeia. É canceriano, gosta de cachorros e de viajar por aí.

Brasilândia, São Paulo

Moisés Augusto

Articulador e correspondente do bairro Engenho Velho de Brotas em Salvador, BA, desde 2020. Adora literatura Brasileira, Anime/mangá e Carnaval. É soteropolitano, filho de uma Alagona com um Pernambucano.

Salvador/BA

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