As faces do grafite nas periferias de São Paulo

Grafite de Jerry Batista, grafiteiro do Grajaú, na zona sul. Arte traz elementos locais como água e natureza (Priscila Pacheco/Agência Mural)

Hoje, 27 de março, comemora-se o Dia Nacional do Grafite. A data foi criada em homenagem ao artista etíope radicado no Brasil Alex Vallauri, que morreu neste dia no ano 1987. Para celebrar essa arte, o Mural contará durante toda a semana a história de alguns grafiteiros das nossas quebradas.

O grafite é uma arte periférica e um dos ícones do hip hop. Diz a história que o seu berço foi construído nos guetos de Nova Iorque na década de 70. Todavia, há quem explique que as coisas não são bem assim. Se em Nova Iorque está o berço, o útero que o gerou é a Jamaica, país localizado no mar do Caribe.

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Quem explica melhor esse surgimento é o artista e educador Wellington Neri, 32, conhecido como Tim. Ele conta que a história do grafite passa por Nova Iorque na época do surgimento do hip hop e lá toma forma. Mas a sua origem tem traços na Jamaica, local onde já existiam movimentos que tocavam um som como os que conhecemos atualmente. “Muita gente vê o grafite colado na linguagem hip hop nova iorquina e esquece desse pedaço que vem da Jamaica”, diz Tim.

Tim ainda conta que o grafite brasileiro carrega a influência de Nova Iorque e Jamaica, e, especificamente em São Paulo, é influenciado por artistas de vanguarda. Casos de Alex Vallauri, Carlos Matuck e Tupinãodá, um dos primeiros grupos de grafiteiros do Brasil. Alex Vallauri também é uma referência no grafite de cunho político. Protestou contra a Ditadura Militar nos muros. Já a pegada mais forte do hip hop vem com Binho Ribeiro e Tinho, artistas que apareceram nos anos 1980.

Assim, observando as transformações pelas quais o grafite passa de acordo com o lugar e contexto histórico, conversamos com alguns grafiteiros das periferias da capital e Grande São Paulo para saber um pouco sobre o que marca a arte que produzem e quem são suas referências.

“A nossa relação com o território impacta na nossa prática”, Tim, grafiteiro do Grajaú

O grafiteiro Carlos Alexandre Emílio, 34, o Carlinhos RooTSM (TSM de Todos São Manos), por exemplo, é admirador do Speto, Os Gêmeos, Shock e do carioca Marcelo Eco. Carlinhos relata que usa muitas cores por causa da maneira como enxerga a cidade onde vive, Mairiporã, Grande São Paulo. “Enxergo Mairiporã com essa natureza para todos os lados, o céu e a paisagem única que ela tem”. Além disso, destaca a questão da aldeia, pois Mairiporã é conhecida por muitos pelo apelido de “Aldeia Pitoresca”. “Trago essa origem e raízes nas minhas máscaras, sempre misturo algo afro e também indígena”.

A natureza também se reflete no trabalho produzido por Evandro Ribeiro, grafiteiro de Mauá, Grande São Paulo. Ribeiro conta que gosta de combinar verde com marrom para fazer alusão ao mato e a terra da cidade, mesclar biologia, astrologia e ufologia na arte que produz. Além disso, destaca o vegetarianismo e a luta pela igualdade racial em suas pinturas.

No Grajaú, zona sul da capital paulista, Tim conta que o destaque é da água pelo contato com a Billings, represa que cerca o distrito e é considerada um dos maiores mananciais em área urbana do mundo. Para o artista, a natureza interfere até no comportamento dos grafiteiros. “A gente tem uma postura mais fraterna, paciente, mais de diplomacia. A água e o verde trazem essa calmaria”, comenta. Além de ser elementos frequentes na produção artística de quem veio do Grajaú. “A nossa relação com o território impacta na nossa prática”, finaliza Tim.

Grafite de Mauro Neri, irmão do nosso entrevistado, o Tim, no Grajaú (Priscila Pacheco/Agência Mural)
Já João Paulo de Alencar, o Todyone, que anda grafitando a história de imigrantes em Guaianases, zona leste, revela que a construção de sua arte tem marcas de professores do ensino médio e da mãe. “Minha mãe é costureira e sempre desenhou modelos de roupas e pessoas em pé aqui em casa”. Outra referência é Heitor dos Prazeres, carioca e compositor de samba, que também pintava. Todyone acredita que o sambista, morto em 1966, é um artista negro que não foi reconhecido por pintar o cotidiano das favelas do Rio de Janeiro e usar guache nas pinturas. “Então, tenho como carro chefe levar no meu trabalho a referência do povo negro, as questões étnicas e raciais”, argumenta.

Hoje, o grafite borbulha das periferias aos centros das cidades. Inclusive, grandes museus recebem exposições de trabalhos inspirados neste movimento artístico. Só em São Paulo podemos destacar a Pinacoteca, o Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC), o MASP e até a Bienal de Arte. Apesar da fama e expansão, o grafite não escapa de polêmicas junto com a pichação.

Quando o prefeito de São Paulo João Dória apagou grafites na avenida 23 de maio no início de 2017 e defendeu punição aos pichadores, a discussão sobre o espaço dessas duas manifestações voltou a ganhar força. Voltou, porque não é coisa nova. Entre tantos exemplo, é possível destacar 1988, época na qual o então prefeito Jânio Quadros declarou no Diário Oficial de São Paulo que queria punição severa para pichadores. E, 2008, quando a gestão do prefeito Gilberto Kassab apagou um mural também na avenida 23 de maio.

Agora, a nova da prefeitura de São Paulo é a criação do Museu de Arte de Rua (MAR). “Não estamos fazendo uma ação pontual, pois a grafitagem passa a ser uma política pública e consolidará São Paulo como a capital mundial do grafite”, afirma o secretário municipal de cultura André Sturm.

O edital do projeto já está disponível e expõe que os participantes devem firmar o compromisso de não veicular propaganda política partidária, religiosa ou de cunho ofensivo. Agora basta saber o que pode ou não pode ser considerado ofensivo. Alex Vallauri, o homenageado da data de hoje, poderia ter problemas com isso por sua arte política.

Priscila Pacheco, Lucas Veloso, Laiza Lopes, Humberto do Lago Müller
Correspondentes do Grajaú, Guaianases, Mauá e Mairiporã

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