APOIE A AGÊNCIA MURAL

Colabore com o nosso jornalismo independente feito pelas e para as periferias.

OU

MANDE UM PIX qrcode

Escaneie o qr code ou use a Chave pix:

apoie@agenciamural.org.br

Agência de Jornalismo das periferias

Raphaela Guimarâes/Agência Mural

Por: Raphaela Guimarães

Notícia

Publicado em 29.04.2026 | 17:48 | Alterado em 29.04.2026 | 17:48

Tempo de leitura: 4 min(s)

Ao acordar, Esther Gabrielly, 4, pede leite antes de sair para a creche no CEI Manga Rosa, no Jardim Letícia, zona sul de São Paulo. A mãe, Daiane Jesus, 33, conta que a filha consome, em média, três mamadeiras por dia, mas nos últimos meses manter a rotina tem pesado no bolso.

Isso porque o leite em pó que deveria ser entregue pela prefeitura de São Paulo no programa Leve Leite não chega desde novembro do ano passado. Sem receber o item básico da alimentação da filha, Daiane precisou da ajuda de familiares.

“Eu recorro à minha sogra, que virou uma segunda mãe para mim. A prefeitura não cumpre o calendário de entrega. Dizem que é a cada quatro meses, mas acabamos recebendo só duas vezes por ano, a cada seis meses”, afirma Daiane, que é auxiliar de limpeza.

Embalagem do leite em pó do Programa Leve Leite, da prefeitura de São Paulo @Raphaela Guimarães/Agência Mural

Dados obtidos pela Agência Mural, por meio do Portal 156 da prefeitura de São Paulo, mostram que apenas no primeiro trimestre de 2026 foram registradas 7.984 reclamações relacionadas ao Programa Leve Leite. Desse total, 3.956, dizem respeito à não entrega do leite.

Os atrasos se repetem em diferentes regiões da cidade. Em distritos como Jardim Ângela,Jaçanã, Sacomã, Jardim São Luís e Capão Redondo, famílias relatam atrasos de até cinco meses. As queixas também se repetem nas redes sociais e sites de reclamações.

O Programa Leve Leite oferece quatro quilos de leite em pó, a cada quatro meses, para crianças de até cinco anos em vulnerabilidade social (ou até o final do ensino fundamental I para crianças com deficiência).Para ter direito ao benefício, é preciso ter cadastro no CadÚnico e estar matriculado nas creches e pré-escolas municipais da capital paulista.

A prefeitura realiza três ciclos de entregas de leite durante o ano, em períodos pré-determinados. Para as crianças menores de um ano, o leite é retirado pelos responsáveis na escola. Após esta idade, é entregue em casa, pelos Correios.

O programa foi criado em 1995 e hoje atende 360 mil crianças por ciclo.

Quase 8 mil reclamações

Apenas no primeiro trimestre de 2026, o Portal 156 registrou 63,2% do total de reclamações do Leve Leite computadas ao longo de todo ano de 2025 (12.621), segundo dados da prefeitura de São Paulo. Os números, porém, podem ser ainda maiores, já que nem todas as famílias formalizam reclamações.

A dona de casa Ellen Souza, 28, moradora do Capão Redondo, é um desses casos. Mãe de Sophia, 9, e Samuel, 4 – crianças matriculadas na rede municipal com direito ao benefício, ela afirma que a entrega do leite, prevista para novembro do ano passado, só ocorreu em abril de 2026. A data limite para entrega era março. Ela, porém, não registrou reclamação.

‘Demora demais. Dizem que é a cada quatro meses, mas, na prática, recebo duas vezes por ano ou até uma’

Ellen, dona de casa

Sem o complemento alimentar dos filhos, a única saída é tentar prorrogar o pagamento. “Quando preciso comprar, pego fiado no mercadinho perto de casa e pago depois”, diz.

O terceiro ciclo de entrega do Leve Leite do último ano estava previsto para ocorrer entre 18 de novembro de 2025 e 27 de março de 2026, a depender do CEP da criança. No final de abril, centenas de famílias ainda não receberam o alimento.

Mamadeira de leite faz parte da rotina de crianças em casa @Raphaela Guimarâes/Agência Mural

Há também casos em que o benefício sequer chega às casas das crianças. É o que relata uma mãe que preferiu não se identificar, moradora do Jardim Ângela com um filho de 1 ano matriculado no CEI Adail Tini de Araújo. Ela afirma nunca ter recebido o leite.

“Perguntei na secretaria da escola e me disseram que ainda não tinham entregado no meu CEP. Eu até questionei se eles tinham anotado de fato o NIS [Número de Identificação Social] do meu filho, se estava no cadastro, e eles disseram que sim, mas até hoje o leite nunca foi entregue”, explica.

Quantidade insuficiente

Para a dona de casa Fabiana Veller, 40, mãe de duas crianças com direito a receber o leite, o problema vai além do atraso. Segundo ela, a quantidade distribuída não acompanha o consumo real de uma criança.

“Eles acham que um quilo de leite em pó dá para o mês inteiro, mas não dá. Um pacote não dura uma semana aqui. Eu sempre preciso comprar pelo menos duas caixas, o que dá cerca de R$140 por mês”, diz Fabiana, moradora do Jardim Maristela, no Sacomã.

<>
Nos mercados da zona sul de São Paulo, o preço do leite integral custa R$5,85, o valor impacta no orçamento das famílias

Nos mercados da zona sul de São Paulo, o preço do leite integral custa R$5,85, o valor impacta no orçamento das famílias @Raphaela Guimarães/Agência Mural

O leite em pó custa R$ 22,99 a lata, com os altos preços algumas mães pedem ajuda da família comprar o alimento

O leite em pó custa R$ 22,99 a lata, com os altos preços algumas mães pedem ajuda da família comprar o alimento @Raphaela Guimarães/Agência Mural

De acordo com pais e responsáveis ouvidos pela reportagem, os quatro pacotes entregues por ciclo, previstos para durar quatro meses, têm durado cerca de um mês e meio. No caso de bebês, a duração tende a ser menor, já que a alimentação é majoritariamente baseada em leite.

Desde 2017, o Programa Leve Leite da prefeitura de São Paulo opera com três ciclos de entrega por ano, oferecendo quatro pacotes de 1 kg de leite em pó a cada quatro meses.

Segundo a prefeitura de São Paulo, no 3º ciclo de 2025, 362.115 crianças foram habilitadas para receber o leite e todas foram atendidas, incluindo 41.117 nos distritos citados pela reportagem.

A gestão afirma que “não houve interrupções nas entregas e que o programa segue sem mudanças recentes”. A afirmação contrasta com os relatos de mães ouvidas pela reportagem, que apontam atrasos de até cinco meses e casos de não entrega.

A Secretaria Municipal de Educação informou ainda que a distribuição é feita pelos Correios, com aviso prévio por SMS. Caso a entrega não seja concluída, o leite fica disponível por até sete dias em uma agência próxima.

As entregas de leite do primeiro ciclo de 2026 estão previstas para ocorrer entre 7 de abril e 31 de junho, segundo cronograma oficial da prefeitura de São Paulo.

receba o melhor da mural no seu e-mail

Raphaela Guimarães

Jornalista, pós graduada em Marketing pela USP e mãe de um menino. Apaixonada por comunicação com propósito, busca promover justiça social através da informação. Ama contar histórias que inspiram e gerar mudanças positivas.

Republique

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias, uma organização sem fins lucrativos, tem como missão reduzir as lacunas de informação sobre as periferias da Grande São Paulo. Portanto queremos que nossas reportagens alcancem outras e novas audiências.

Se você quer saber como republicar nosso conteúdo, seja ele texto, foto, arte, vídeo, áudio, no seu meio, escreva pra gente.

Envie uma mensagem para republique@agenciamural.org.br

Reportar erro

Quer informar a nossa redação sobre algum erro nesta matéria? Preencha o formulário abaixo.

PUBLICIDADE