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Biblioteca comunitária funciona dentro de cemitério em Parelheiros, na zona sul de SP

Espaço criado em 2010 reúne mais de 4.500 livros e funciona na antiga casa do coveiro; cemitério protestante é um dos mais antigos da capital

Para frequentar a biblioteca comunitária Caminhos da Leitura, os visitantes precisam entrar em um lugar diferente. É atrás da capela do cemitério Colônia, um dos mais antigos da capital, que fica um acervo de 4.500 livros e muitas histórias dos moradores de Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. 

Fundada em 2009, a biblioteca é mantida por jovens “escritureiros”, nome pensado a partir da junção de três palavras: escrita, aventureiros e Parelheiros. Eles tinham como objetivo fomentar a leitura e a literatura nos bairros periféricos da região.

Com o apoio do IBEAC (Instituto Brasileiro de Estudo e Apoio Comunitário), a biblioteca comunitária deu os primeiros passos em 2008.

Ainda sem muitos recursos e alocados em uma sala da UBS (Unidade Básica de Saúde da região) Colônia, esses jovens iniciaram um projeto com o intuito de estudar os 60 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos.

Depois de dois anos de parceria com a UBS, a biblioteca precisou ceder o espaço pois a sala seria usada para a instalação de um consultório odontológico na unidade. Não demorou para que achassem um lugar público onde os trabalhos pudessem continuar: a antiga casa do coveiro.

“Quando a gente chegou aqui, a casa não tinha uma aparência muito boa, parecia uma casa abandonada”, relata Sidnéia Chagas, 28, fundadora e mediadora da biblioteca Caminhos da Leitura. “Nós ressignificamos esse lugar, com a ajuda da comunidade e dos jovens que ainda atuam no projeto”.

Para a mediadora, o endereço atual além de ser diferente e chamar atenção, também é uma forma de quebrar estereótipos e preconceitos sobre cemitérios.

Biblioteca comunitária recebe alunos no cemitério ColôniaAnderson Meneses/Agência Mural

NO CEMITÉRIO

Instalada no cemitério há 9 anos, a biblioteca já foi alvo de críticas e sustos. Alguns questionavam o ambiente para manter os livros e o respeito aos familiares dos mortos. Com o tempo, porém, o espaço foi sendo entendido pelos frequentadores. 

Em visita à biblioteca, estudantes de uma escola próxima puderam fazer um tour pelo cemitério, acompanhado pelos mediadores que explicaram a história do lugar.

Para a estudante Emilly Diane, 14, o preconceito das pessoas as impedem de conhecer coisas novas. “É um lugar diferente, mas é incrível e muito importante o trabalho que eles fazem”, diz. 

A estudante se diz apaixonada pela leitura e querer trabalhar na biblioteca um dia. Estar perto das lápides não seria um problema, afirma.

Emily diz que não teria problema em trabalhar na biblioteca, mesmo ao lado do cemitérioLuana Nunes/Agência Mural

O estudante do 9◦ ano, Leandro Felix, 14, ficou impressionado com a organização e a quantidade de livros do lugar. “Deve ter uns mil livros aqui, e é tudo arrumadinho, né? Pode levar livro para casa?”, questiona, empolgado.

Ter um espaço de leitura perto de sepulturas leva a histórias engraçadas, conta Rafael Simões, 26, um dos jovens que atua na biblioteca desde a fundação.

“Estávamos reunidos conversando sobre coisas sobrenaturais e do nada escutamos coisas caindo na cozinha e a luz piscando. Foi assustador, mas depois nos demos conta de que era por causa da forte chuva e da ventania que acontecia na hora”.

Segundo Sidnéia Chagas, as pessoas já têm medo só pelo fato de estarem na extensão de um cemitério. Mas que por outro lado, o efeito psicológico até aumenta a atenção do que é discutido no local.

“Muitas pessoas deixaram de frequentar a biblioteca por causa dessa cultura que se criou sobre o medo de passar em um cemitério e não só por isso, mas também pela religião, e a gente entende”, fala a fundadora.

Sidnéia Chagas é uma das criadoras da bibliotecaLuana Nunes/Agência Mural

“A gente aproveita esse contexto de estarmos num lugar diferente para falar sobre a vida, para falar sobre a morte, sobre resistências e principalmente sobre a juventude e nossas lutas diárias”, conclui.

Fundado em 1829 pelos alemães, é o mais antigo cemitério particular da capital e está localizado no bairro Colônia, onde uma comunidade de imigrantes alemães começou a ser formada ainda no século 19. Foram eles que criaram o cemitério protestante. 

Quem visita a biblioteca se impressiona pela quantidade de livros e pelas cores vivas que decoram o ambiente. As obras são separadas por faixa etária e temas. As salas foram pensadas e planejadas para receber tanto o público adulto quanto o infantil. “Fizemos a seção infantil com prateleiras baixas, para que as crianças se sintam independentes na hora de escolher o que querem ver e ler”.

Leandro Felix visitou a biblioteca pela primeira vezLuana Nunes/Agência Mural

Alguns desses livros já não cabem mais no mesmo lugar e precisam ficar guardados em caixas, mas nem sempre foi assim. Além das doações dos próprios escritores e da comunidade, muitos foram comprados pelos jovens que atuam no projeto, com recursos conquistados por meio de editais.

Além de trabalhar diariamente nas instalações do cemitério, o grupo exerce outras funções e encabeça projetos ligados à leitura. Um deles é dar aulas para professores serem novos mediadores.

“Separamos um curso por módulo e tema, voltados para a mediação, para que professores e educadores possam ser leitores e lerem para outras pessoas”, conta a mediadora.

Eles também organizam eventos como saraus e a comemoração do aniversário do projeto em julho. Neste ano, planejam realizar a primeira FeLiPa (Feira de Literatura de Parelheiros) no dia 11 de novembro. 

Luana Nunes

Jornalista, fotógrafa, correspondente desde 2018 do lugar tão tão distante chamado Parelheiros e criadora do site 47km.

Parelheiros, São Paulo

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