‘Livros nunca são só livros’, diz criador de biblioteca comunitária em Suzano

A biblioteca comunitária Espaço do Saber, na rua da Alegria, número 26, é onde Pablo Neruda encontra Dante Alighieri espremido entre um Dan Brown e Clarice Lispector. Onde Nietzsche, no alto do seu niilismo, divide a mesa com Shakespeare e Machado de Assis.

Estes encontros inusitados ocorrem num pequeno cômodo, com pouco menos de 15 metros quadrados, no qual um casal de bibliotecários incentiva a leitura de crianças da comunidade do Rio Abaixo, em Suzano, na Grande São Paulo.

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A ideia surgiu em 2013, quando o vendedor autônomo Natanael Souza, 53, se sentia entediado por causa do desemprego – uma realidade que o assombra desde um acidente em 2007, quando ficou com sequelas auditivas e motoras. “Eu passava as madrugadas em claro pensando no que fazer. Precisava encontrar meu espaço, me sentir útil de novo”, lembra.

Foi quando sua esposa Cléo Souza, 45, sugeriu o empréstimo de livros. “Na hora veio a ideia de uma biblioteca na comunidade”.

Natanael começou o projeto após ter sofrido um acidente que impossibilitou o trabalho de vendedor (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Natanael conta que a comunidade sempre lhe pareceu apática em relação à educação e à cultura. À época, chamou alguns moradores para expor a ideia e definirem juntos as diretrizes de uma biblioteca comunitária. “No outro dia, rapaz, sumiram todos. Não sobrou um pra contar história. Com exceção de nós, é claro.”

Com poucos livros do acervo pessoal, o casal não tinha títulos suficientes para começar uma biblioteca. “Tivemos que começar do zero”, lembra Natanael, que contou com os esforços de Cléo e da filha Mel. A família percorreu todas as regiões de São Paulo em busca de doações. “Onde quer que fossem, traziam livros embaixo dos braços.”

ESPAÇO DO SABER

“Vocês vão vender livros?”, perguntavam os vizinhos, céticos ao ver Natanael, a esposa e a filha com pilhas e mais pilhas de obras nos braços. “As pessoas têm esse problema de achar que livros são só livros”, conta. “Para mim, não: livros nunca são livros.”

Em um cômodo de no máximo quatro metros quadrados, os três construíram a biblioteca. Montaram algumas prateleiras improvisadas com metade de um guarda-roupa e um criado mudo, e empilharam os livros como puderam – o excedente ficava no chão.

Alguns papelões serviam de letreiro para a recém-inaugurada biblioteca comunitária Espaço do Saber. O movimento, no entanto, não foi o esperado.

“Não vinha ninguém. Foi quando eu e a Mel começamos a abordar algumas crianças que aguardavam as vans para irem às escolas”, conta Cléo. “Levávamos alguns livrinhos conosco e perguntávamos: ‘Você gosta de ler? Lá em casa a gente empresta livros, sabia?”

Pouco a pouco, a notícia sobre os “tios que emprestavam livros” se espalhou por toda a comunidade do Rio Abaixo, tanto que o cômodo ficou pequeno para o trabalho. Havia ainda outro problema: as chuvas. “Quando chovia, era água por cima e por baixo, cara. Era um malabarismo que eu fazia para proteger os livros. E perdi muitos”, diz Natanael.

No ano passado, decidiram apostar em uma vaquinha on-line via redes sociais. Arrecadaram cerca de R$ 5 mil e construíram a biblioteca no antigo quarto do casal e da filha, e passaram a dormir no fundo da casa.

Os empréstimos funcionam como em qualquer biblioteca. As crianças ficam de dez a 15 dias com os livros e podem renovar o empréstimo de duas a três vezes. O espaço funciona de segunda à sexta-feira das 10h às 12h e das 15h às 18h.

Atualmente, com mais de mil títulos, os bibliotecários aguardam a chegada de outras prateleiras para acomodar o acervo e as novas doações.

Projeto atua com alunos do Rio Abaixo, em Suzano (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

FORMANDO LEITORES

De 30 a 40 crianças frequentam a biblioteca diariamente. No entanto, mesmo quando está fechada, não é raro ouvi-las gritar na rua: “Tio Na-ta-na-el”. As cenas seguintes são de um bibliotecário constrangido por ter de interromper a entrevista. “Não consigo deixá-las esperando”, revela. “Vamos, cumprimentem o tio jornalista que está fazendo um trabalho sobre a biblioteca”, sugere. Este repórter retribui com tapinhas e soquinhos. Natanael prossegue:

“Tentamos transmitir às crianças familiaridade com a biblioteca e com os livros. Infelizmente, ainda existe no Brasil – principalmente nas classes menos favorecidas – a biblioteca como um monstro, um dragão. As crianças ficam intimidadas, como se ali não fosse um lugar reservado a elas”, declara.

Buscando fomentar a leitura no cotidiano da comunidade, o casal deu início ao projeto Formando Leitores.  “Quando era pequeno, o barato não era só pegar o livro e levar para casa, mas ficar na biblioteca xeretando. Tento ensinar isso às crianças. ‘Vasculhem, fucem, ocupem a biblioteca”, afirma.

Cléo Souza estimulou o empréstimo de livros; biblioteca também tem ajuda da filha Mel (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

“A criança talvez não leia o livro inteiro. Talvez leia um pedacinho, de repente uma linha, uma oração, uma sentença. É possível que uma sentença de um livro fique gravada na memória para o resto da vida. O conhecimento se constrói assim: curioso, inocente.”

O projeto também atua em outras frentes. Há cerca de dois meses, o casal organizou a visita de 16 crianças a um circo na região. Nenhuma delas havia pisado em um espaço assim antes.

DOM QUIXOTE DO RIO ABAIXO

A paixão de Natanael por livros começou cedo. Pegar um livro, se sentar num canto qualquer, sem ninguém para importuná-lo “era como estar no céu”.

Aos nove anos, ele passava tanto tempo em casa, sozinho, que suas únicas distrações eram os livros e alguns poucos discos dos pais. “Ouvia Secos e Molhados, ouvia tanto e tão alto na vitrolinha, que a dona da casa onde morávamos vinha reclamar comigo”, conta.

Obra favorita do bibliotecário é Dom Quixote (Rômulo Cabrera/Agência Mural)

Natanael era um devorador de gibis e fotonovelas. “Diziam que as fotonovelas eram só para mulheres, mas eu lia a todas, sem distinção”.

No entanto, a obra que despertou-lhe o gosto pela literatura foi “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes. “Tem algo físico do livro. Era uma coisa tão sagrada que, quando segurei um Quixote pela primeira vez, eu repetia a mim mesmo: ‘Nossa, isso é um livro. Um livro.

“Na estalagem onde Dom Quixote e o companheiro dele pernoitaram, era como se eu estivesse lá também – era como se eu tivesse sido o companheiro deles”, lembra, sem conter a euforia. “Dom Quixote era meio louco, sonhador. Lutou contra moinhos pelo o que ele acreditava. Ainda hoje me sinto lutando contra moinhos”.

“Você não sabe com o que está lutando. Mas continua lutando para conseguir mostrar que aquilo que você acredita, aquilo que você sonha é importante. Sem dúvida, é o livro da minha vida.”

Se depender de Natanael, o espírito do bravo fidalgo Dom Quixote continuará vivo na memória das crianças da comunidade. Nem que seja uma sentença disso.

Rômulo Cabrera é correspondente de Suzano
[email protected]

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