Biologia, astrologia e ufologia inspiram grafiteiro de Mauá

Como educador, artista trabalha para mudar a realidade de jovens da comunidade.

Trabalho do artista pode ser encontrado nas ruas de Mauá e na linha 10 — Turquesa da CPTM — Foto: Laiza Lopes/Agência Mural

Em meio aos vinis de rap trazidos pelo tio, lá pela década de 90, Evandro Ribeiro, 27, encontrou uma paixão: expressar as necessidades da periferia pela arte. À época, Evandro era criança, mas já se inspirava pelo o que o movimento hip-hop representava. Foi mesmo em 2010 que o artista, morador do Jardim Zaíra, em Mauá, na Grande São Paulo, começou a usar as paredes das ruas e as linhas dos trens para dar vida às suas obras. “Comecei nos anos 2000, com o movimento já consolidado, mas isso não quer dizer que eu não seja original ao que é o grafite”, afirma Evandro, que possui vários trabalhos nos trilhos da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Feitos de pintura em spray e látex, os traços do grafiteiro combinam o verde com contorno marrom, fazendo uma alusão ao mato e a terra, muito encontrados na região de Mauá. Segundo o artista, o município sofreu alterações com o processo de urbanização, que fez com que, ao longo dos anos, a região fosse tomada por indústrias.

A arte do grafiteiro mescla temas como biologia, astrologia e ufologia. “Eu só sou o que sou por morar aqui, pela educação e vivência que eu tive”, comenta. Ele também aborda o vegetarianismo, ideologia que acompanha desde 2008, e a luta pela igualdade racial. “Faço um personagem verde, com os pés no chão”, conta Evandro, que também desenvolve pinturas em telas.

Arte do grafiteiro mistura astrologia, biologia e ufologia para falar sobre questões sociais / Pintura faz alusão aos sentimentos fantasmas, nesse caso, o amor — Fotos: Laiza Lopes/Agência Mural

Graças ao trabalho nas ruas, Evandro se descobriu educador e percebeu que poderia mudar a realidade de jovens da comunidade por meio da arte. Em 2015, o artista foi convidado para atuar como professor no CEEP (Centro de Educação Estudos e Pesquisas), onde pode ensinar os traços do grafite. “Uma das principais dificuldades do projeto era angariar alunos, eu andava em várias escolas para fazer divulgação”.

Em seis meses, 20 alunos foram formados e o resultado final está estampado em um muro no Parque das Américas, localizado em Mauá. Ele também acumula trabalhos como educador em outras regiões de São Paulo, além de atuar na alfabetização de adultos e idosos.

Durante a trajetória como educador, Evandro lidou com crianças em situações de risco, adultos analfabetos e muita desigualdade social. “´Meu trabalho é gratificante, me sinto peça fundamental para mudar o dia a dia dessas pessoas”, conta o artista, que também já deu aulas na Fundação Casa.

Evandro sempre sonhou em fazer Educação Artística, mas conseguiu uma bolsa para o curso de Designer Gráfico. Formado, hoje o artista acredita que o curso o ajudou a reforçar a ideia de que é possível produzir o próprio trabalho e viver disso. Atualmente, o grafiteiro não tem trabalho fixo e não se vê morando em outro lugar. Em Mauá, ele tem a calmaria e o ambiente ideal para desenvolver sua arte em forma de crítica às desigualdades, e atuar como disseminador do grafite para a comunidade.

Apesar do apreço pelo lugar onde vive, Evandro também sonha em conhecer outros países importantes para a cultura do grafite, como a Alemanha, EUA, Chile e outros que são referências para o movimento.

Por Laiza Lopes, correspondente de Mauá

Produção da série: Priscila Pacheco, correspondente do Grajaú

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