Brechó Original Favela quer incluir negros na moda

“Oiiin. Amanhã às 12h é suave. Cedo eu te chamo pra falar com que roupa vou estar”, é assim, pelo WhatsApp, que as negociações das roupas do Original Favela acontecem.

A ideia do brechó surgiu em 2015, quando a estudante de direito Anne Oliveira, 24, e sua amiga, Iris Ingrid Alves Oliveira, 21, que já comercializava algumas peças, estavam desempregadas.

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Hoje, três anos depois, as duas anunciam peças diariamente pelos stories das redes sociais, peças dos anos 1970, 1980 e 1990, ou inspiradas nesse período. “O nosso slogan diz: ‘Original Favela, a rua nos anos 70, 80, 90s’. Então, independente de tudo, o nosso foco são sempre essas décadas”, afirma Anne.

“É a época dos nossos pais. Sempre pensamos que nascemos no tempo errado pelo fato das melhores roupas, músicas terem sido lá atrás”, ressalta.

Moradoras de Itaquera, na zona leste da capital, e de Embu das Artes, na Grande São Paulo, a inspiração do nome veio da música Mandume, do rapper Emicida.

“Jesus de polo listrada, no corre, corte degradê /
Descola o pôster do 2pac, que cês nunca vão ser /
Original favela, Golden Era, rua no mic”.

Nos catálogos em que anunciam as peças, os modelos escolhidos são homens e mulheres negras, gays ou trans, que vivem nos bairros delas. Familiares e amigos também são convidados.

Modelo com uma das peças do Original Favela (Divulgação)

“Muita mina de quebrada não se acha bonita, muito mano não se acha bonito”, resume Anne. “Certa vez, depois de algumas fotos, um modelo falou pra gente que ele, com 23 anos, nunca tinha se sentido tão bonito e valorizado, e aquilo ajudou ele a se valorizar, e se amar. Isso vai ficar marcado pra sempre e é a nossa missão”, completa.

As peças são garimpadas toda semana em brechós de Mogi de Cruzes, Itaim Paulista, Itaquera, Guaianases, além de outros na zona sul, como Capão Redondo. Nas vezes em que surge trabalhos para produzir alguma marca ou artista, elas também recorrem aos “brechós de boy da Faria Lima”, como chamam os espaços localizados nos bairros mais ricos da cidade.

Depois de encontradas, as roupas são lavadas e costuradas, em caso de algum furo ou defeito. As entregas funcionam nas estações de trem e Metrô, com taxa de entrega de R$ 5. Além disso, elas costumam enviar pelos Correios, com frete por conta do comprador. A maioria dos clientes são da periferia e elas ainda não contam com uma sede fixa.

Apesar de boa parte dos trajes serem das décadas de 1970 a 1990, nos últimos meses, elas perceberam que algumas peças dos anos 2000 eram tendência e começaram a opções da época.

Brechó ainda não tem sede fixa e fotos são com modelos moradoras da zona leste (Divulgação)

Com mais de 15 mil seguidores nas redes sociais, elas participaram do projeto Melissa Meio-Fio, em novembro passado, residência artística de seis meses com outros 16 nomes que estão chamando atenção na cena da arte, moda e fotografia em São Paulo. O evento contou com um desfile de 29 modelos em co-criação com outros três artistas.

Neste ano, as empreendedoras assinaram com um grupo de artistas a campanha da Converse EUA. Foram três dias de trabalho com modelos de vários lugares para trabalhar no novo tênis da marca. “Foi muito legal a troca de experiência, sem sabermos falar inglês ou espanhol. Aprendemos muito”, comenta Ingrid.

Lucas Veloso é correspondente de Guaianases
[email protected]