“Chorei de felicidade no ônibus ”, diz estudante vencedor de prêmio sobre violência contra a mulher

Vinicius Cosseti se juntou a outros colegas da Escola Estadual Cyrene de Oliveira Laet em competição estadual

Da esquerda para a direita, a coordenadora Lourdes Bonano, o aluno Vinicíus Cosetti, e a professora Sandra Martins — crédito foto: Matheus Mendes

Oi, meu nome é Vinícius Cosseti, tenho 18 anos, sou aluno do 2º ano do ensino médio e acabo de viver uma experiência inacreditável.

Na verdade, a minha escola, a EE Dona Cyrene de Oliveira Laet — localizada no Jaçanã, zona norte da capital paulista — distribuiu entre todos um pouco dos méritos que nos levaram a esse prêmio.

Tudo começou com a professora Sandra, que dá aulas de língua portuguesa. Ela pediu para que eu escrevesse uma música falando sobre a Violência contra a Mulher.

O tema é sério e eu pouco sabia a respeito. Fazia parte do concurso “Vozes pela Igualdade de Gênero”, da Secretaria Estadual de Educação com o Ministério Público do Trabalho.

Sou poeta, adoro escrever — mas daí compor… Parecia loucura! Me chamem de louco, então.

Aceitei. Em dois dias, eu e o futuro cantor de rap Luan desenvolvemos a melodia.

O concurso previa um trabalho conjunto, coisa que aconteceu desde o primeiro momento, com nosso grupo chamado Vozes da Tribo. A verdade é que mesmo sendo diferente de tudo que eu já havia feito foi muito legal. Uma experiência surpreendente!

Aos poucos, a letra foi criando forma, mas precisávamos de ritmo e, para isso, buscamos os musicistas Arthur e Samuel, ambos com muito talento.

Samuel usou duas canetas para criar o compasso ideal para a melodia e o Arthur usou um teclado emprestado para tal. Mas ainda faltava algo…

O refrão precisava de mais força, e na primeira vez que a Thay colocou a voz dela ficou impressionante. O Samuel também acrescentou o saxofone a esse trecho… Perfeito!

Na Fábrica de Cultura do Jaçanã tivemos a primeira experiência mágica: era um estúdio de verdade e fomos gravados como profissionais, para todos nós era um momento de guardar na lembrança e no coração.

Uma música é como um filho. Vê-la nascer na folha de papel e crescer como nossa é muito gratificante e eu já estava feliz com todos a cantando na escola.

Fui o primeiro a saber que havíamos ganhado o concurso. Foram três finalistas. Aguenta coração! Lembro exatamente do dia que recebemos o resultado pela Lourdes Bonanno. Ficamos em segundo lugar.

Eu e a professora Sandra corremos pela escola toda para avisar todo mundo. O Luan ficou sem fala. O Samuel colocou a mão sobre a boca e perguntou umas três vezes se era verdade.

Acho que demorou para “cair a tal ficha”, mas, à noite, quando eu voltava do trabalho, chorei de felicidade no ônibus escutando a nossa música, chamada Voar.

A canção aborda a Lei Maria da Penha, com foco nas mulheres que têm medo de denunciarem algum tipo de agressão e que acabam ficando presas nessa rotina.

Hoje no Brasil, a cada quatro minutos uma mulher dá entrada no SUS por agressão doméstica, 405 mulheres são agredidas e 13 são assassinadas por dia nesse país. Isso precisa mudar, nossa música deseja contribuir para que no futuro fique extinto e a relação entre homens e mulheres seja definida na palavra RESPEITO:

“Uma atitude faz de homens e mulheres iguais,
junto com seus ideias
Eles só querem sonhar,
a sociedade melhorar
e juntos com a desigualdade acabar”

Segurando o troféu

A premiação ocorreu no dia 5 de dezembro e foi um dos melhores instantes da minha vida. Tive problemas técnicos para acordar — o despertador — e quase nos atrasamos, mas chegamos na hora.

Me senti um “astro pop” com jornalistas e educadores fazendo perguntas, tirando fotos e filmando. Aparecemos no SPTV! Sim, na Globo! Eu nunca imaginei nada disso.

As apresentações de música que tiveram foram incríveis: primeiro o grupo de rap formado por três mulheres, “As Trincas”; como esquecer?

Uma com a voz mais linda que a outra, o rapaz que ficou em terceiro lugar, Luiz Poeta, que tem quase a minha idade, contando sobre a história da composição dele, inspirada no que a mãe sofreu com o pai.

Eu percebia, a cada segundo, o quanto o tema era realmente importante e pensava se não poderia ter feito uma música ainda melhor.

A hora mais esperada por nós chegou. Enquanto víamos nosso vídeo, o grupo todo lá na primeira fileira ficou estático e eu não sabia como expressar minha felicidade. Me segurei para não chorar. No microfone todo mundo gaguejou. A gente sabia o que falar, mas era emoção demais para falar… O Luan, a Thay, o Samuel… O Arthur tremia e eu melhor nem falar…

Depois disso, já não conseguia prestar atenção em mais nada. Era um turbilhão de sentimentos envolvidos na concretização de um sonho.

Naquele instante, minha vontade era só gritar o mais alto possível e abraçar todos que acreditaram que a gente podia ser campeão.

Foi uma experiência incrível do começo ao fim e espero que outros concursos sejam lançados com temas tão fortes, necessários e importantes quanto esses.

Não fui o único a desfrutá-la, mas agradeço essa oportunidade a todos os colaboradores: Fábrica de Cultura, na pessoa da gestora Grace Miranda, a minha professora de língua portuguesa Sandra Martins e seu fiel escudeiro Matheus Mendes, a coordenadora pedagógica da escola que estudo Lourdes Bonanno e ao nosso diretor Edilson Henrique.

Aos meus queridos colegas Luan Braz, Samuel Bento, Arthur Vespasiano e Thailany Vespasiano, que toparam esse desafio — nós, integrantes do Vozes da Tribo.

Vincíus Cosetti, 18 anos, é muralista-estudante
do 3º ano da Escola Estadual Cyrene de Oliveira Laet

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