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Com materiais recicláveis, artista cria casas das periferias em miniatura

No distrito do Campo Limpo, Marcelino Melo criou o 'Quebradinha' e faz peças que retratam as moradias na zona sul de São Paulo
Fotógrafo faz obras que simulam casas em SP
Crédito: Léu BrittoFotógrafo faz obras que simulam casas em SP

Morador do Jardim Piracuama, distrito do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, o fotógrafo Marcelino Melo, 25, mais conhecido como Nenê, improvisou no próprio quarto um ateliê. Com uma tábua e um banco ele produz algumas casas em miniatura. 

Nenê é criador do ‘Quebradinha’, iniciativa que reutiliza materiais recicláveis, como papelão e garrafas pet, para produzir réplicas de como são as casas nas periferias da cidade. “Quis materializar pensamentos e memórias das quebradas que fazem sentido pra mim”. 

O fotógrafo lembra que a ideia de reproduzir as casas nasceu sem intenção. “Nós, artistas, temos uma inquietação. E isso nasceu assim, já que eu crio as coisas sem fim, vivo inquieto querendo criar coisas e projetos”.

Ele diz que a fotografia, principalmente a aérea, o ajudou a ter uma memória recorrente de telhados e das cenas comuns das casas nas periferias. Há cinco anos, ele registra imagens da zona sul com um drone.

Durante a pandemia, por exemplo, tem registrado a mudança do cemitério São Luiz, na periferia da zona sul. No período, produziu séries fotográficas com imagens aéreas sobre a transformação do local, como a abertura de centenas de covas para as vítimas da Covid-19 na região.

As imagens do alto inspiraram a retratar as pequenas residências. A primeira casa foi feita em janeiro do ano passado.

Crédito: Léu BrittoMarcelino Melo usa as casas na periferia como exemplo para produzir miniaturas

A caixa d’água foi o pontapé da primeira obra. Depois veio o telhado, as paredes e demais elementos que dão forma a uma casa. Em média, ele gasta cerca de dois meses para fazer uma miniatura e vê a atividade como algo terapêutico, pois precisa se atentar aos detalhes. 

“É uma espécie de terapia que não me forço a fazer. Aí quando vem a referência na minha cabeça, decido que quero fazer uma casinha, como ela vai ser e aproveito os dias em que estou bem”.

Atualmente ele está dedicado à quinta miniatura, mas acrescenta que não é fácil. “Dá muito trabalho, mas eu não gosto de ficar sem fazer nada. Testo as coisas e tento materializar aquilo que, muitas vezes, está no meu subconsciente”, resume. 

Os materiais usados na produção são encontrados nos lixos do bairro. A madeira, encontrada em móveis como guarda roupas e estantes, e papelão são os itens mais usados por Marcelino.

“Uso basicamente o que acho nas ruas. Encontro bastante coisa nos mercados e nos lixos. Não me formei para fazer essa parada, então vou descobrindo na hora, os materiais e as técnicas”. 

Crédito: Léu BrittoA primeira casa foi produzida em janeiro deste ano no quarto do fotógrafo

Uma das técnicas é utilizar o papel machê. A massa produzida com papel picado molhado na água, coado e depois misturado com cola permite os formatos desejados.

Depois de produzidas, as casas são fotografadas e postadas nas redes sociais. Uma das coisas que Marcelino mais escuta são perguntas sobre o futuro das obras. Ele lembra que alguns se interessaram em comprar, mas ainda não decidiu se venderá as miniaturas. Pretende, contudo, fazer uma exposição.

Para dar vazão à ideia, Marcelino cita duas referências artísticas. Um deles mora perto de sua casa, o artista plástico especializado em grafite, Michel Onguer, e o cubano Jorge Mayet. “Falo muito com o Michel, meu amigo. O Mayet me provocou desde que vi uma exposição dele aqui em São Paulo com umas esculturas”, lembra. “As obras dele me trouxeram lembranças das casas na periferia”. 

Lucas Veloso

Jornalista, cofundador e correspondente de Guaianases desde 2014.

Guaianases, São Paulo

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