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Comida caseira preta e indígena é destaque de restaurante em São Miguel Paulista

Areté Comedoria garante “prato feito arrumadinho” em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo

Pequeno e aconchegante, o restaurante Areté Comedoria está localizado em uma das principais avenidas de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, com a proposta de oferecer uma “comidinha caseira feita com carinho. Um prato feito, mas com um visual diferenciado”.

Aberto em 30 de setembro de 2017, é um empreendimento familiar com forte apelo aos traços culturais da negritude, observáveis na decoração do espaço, com namoradeiras negras enfeitando o ambiente, e na figura da dona e das garçonetes que costumam utilizar turbantes ao servirem os clientes.

O filé de merluza com molho de maracujá é o destaque da casa. O peixe vem empanado e a carne crocante se desmancha na boca. O molho levemente apimentado dá acidez e suculência ao prato.

Prato da Aretê Comedoria, na zona leste de São PauloAnna Beatriz Garcia

Para os vegetarianos, a Areté oferece um ratatouille com abobrinhas, berinjelas e pimentões cobertos por camadas de queijo branco, provolone e muçarela derretida, que dão liga ao prato saboroso.

Os pratos principais são acompanhados por um arroz soltinho e um feijão bem temperado. Todos com gosto de comida caseira, cuidadosamente organizados para garantir uma bela apresentação. Porque comida feita em casa também tem requinte, como diz o slogan do restaurante: “seu prato feito arrumadinho” – e isso a Areté garante em opções como o filé mignon recheado, o filé de pernil e a tradicional feijoada de quarta-feira.

Os três anos de operação bem sucedidos são fruto do esforço e da inventividade da ex-professora de história e assistente social Ivone Ferreira da Silva, 59 anos, que nunca havia pensado em empreender.

Todos os seus anos de trabalho foram dedicados ao funcionalismo público. Em 2017, desfrutava da aposentadoria dos sonhos e vivia “tranquila fazendo crochês, tricôs e caminhadas, como toda pessoa idealiza”. Mas num chamado surge a ideia de abrir um restaurante.

A garçonete Letícia Silva, Ivone Ferreira e filha Anna Beatriz GarciaDivulgação

Primeira da família negra e numerosa de São Miguel Paulista a cursar o ensino superior, Ivone relutou em criar um empreendimento, mesmo paquerando um ponto disponível para aluguel.

Inicialmente, uma amiga comunicou a intenção de passar o ponto onde tinha um bar. Durante uma visita ao estabelecimento, a luz penetrante do pôr do sol “seduziu” Ivone. Iluminados pelo sol de fim de tarde, ela e o marido se apressaram em pensar em um nome para o restaurante. Começaram então as buscas por nomes indígenas para batizar o lugar. Após algumas horas de pesquisa chegaram a Areté, que significa “um dia festivo e alegre”.

Segundo Ivone, festas são um traço forte da família. Antes da pandemia do coronavírus, eram realizadas rodas de samba na noite da primeira sexta-feira do mês no local.

“Seria muito comum as pessoas esperarem um nome africano, por conta da nossa ancestralidade mais visível, mas a gente também tem uma história indígena. Embora menos expressiva do que a ascendência africana. A gente também pensou na história do bairro”, explica Ivone, que uniu as raízes da família com as de São Miguel, ambos indígenas. 

Ivone, que se dizia “sem tino para o comércio”, tomou gosto pela gestão do restaurante, que vem ganhando visibilidade no bairro, além de se manter estável “resistindo nesta pandemia que enfrentamos”, diz. Apesar da equipe pequena, composta por ela, o irmão Marcelo, cozinheiro de mão cheia, e a garçonete Letícia, a Areté manteve a operação e expandiu o delivery.

Ao narrar o trabalho que hoje desempenha com tanto amor, ela enfatiza que “a culinária é treta”. “Se a gente pegar a história desse país, quem sempre executou os afazeres de alimentação é a figura da mulher preta, mesmo que no serviço doméstico ao alimentar o outro”, conta a empresária que exalta a ancestralidade na condução dos negócios.

Inspirada pela negritude ancestral da família, Ivone constrói a identidade visual de sua marca com influências do povo preto e indígena, enquanto o irmão desenvolve o resgate da identidade negra nos pratos. 

O ambiente plural construído pela mistura cultural, somado à comida saborosa, agradam a clientela. “Atendemos o médico e o peão de obra, e tem que caber todo mundo. Acho que a nossa imagem promove esse trânsito”, afirma Ivone. 

SERVIÇO:

Areté Comedoria
Endereço:  Avenida Pires do Rio, 175A – São Miguel Paulista, São Paulo – SP
Telefone: (11) 2667-7001
Preço médio: R$ 22
Horário de funcionamento: Segunda a sábado, das 11h às 16h
Formas de pagamento: Cartões de débito, crédito e VR (Alelo, VR, Sodexo)
Opções ovolactovegetarianas e veganas: Sim
Redes sociais: Instagram: @aretecomedoria | Facebook: @aretecomedoria
Observações para encomendas: Entregas em um raio de 3 km com entregador próprio
Wi-Fi: Sim
Acessibilidade: Não

O texto faz parte da cobertura especial para o Prato Firmeza Preto: Guia Gastronômico das Quebradas de São Paulo, feito em parceria com a Énois Conteúdo.

Weslley Galzo

Jornalista em formação e correspondente de São Miguel Paulista desde 2019.

São Miguel Paulista, São Paulo

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