Conheça 7 mulheres incríveis nas periferias de São Paulo

Muralistas de diferentes bairros da cidade revelam mulheres que as inspiram e compatilham suas histórias

Historicamente, 08 de março, é um dia político, de luta e resistência. Em torno da data giram diversas histórias sobre a sua verdadeira origem e sejam quais forem as teorias, a data é um dia para reconhecer o protagonismo das mulheres — todas elas, que enfrentam preconceito, desigualdade de gênero, assédio, abuso e violência.

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Nossas muralistas resolveram homenagear sete mulheres inspiradoras das Periferias de São Paulo que você precisa conhecer.

Dona Cida

Dona Cida em seu aniversário de 67 anos— Foto: Letícia Marques

Aparecida André da Silva da Hora, conhecida pelos vizinhos como Dona Cida, é uma senhora de 67 anos, que mora há 47 no Jardim Carumbé, região da Brasilândia, zona norte.

Para ajudar nas despesas da casa, foi empregada doméstica e nunca fugiu de um dia sequer de trabalho. Mas há 13 anos, complicações em sua saúde começaram a surgir e ela precisou parar de trabalhar. Enfrentou dificuldades financeiras, o câncer, a morte do marido, mas nunca deixou de sorrir e encarou tudo corajosamente.

Sempre acreditou em um Deus bondoso, e isso é uma das coisas que fazem as pessoas a admirarem. Hoje, vive com seu filho do meio e tem 5 netos. Voltou a trabalhar, mesmo não tendo mais a saúde de antes. Com o dinheiro do seu próprio suor está “batendo a laje” em sua casa, um sonho que ela e o marido sempre tiveram desde que chegaram ao Jardim Carumbé.

D. Cida é minha avó, e para mim é uma mulher admirável, sinônimo de resistência, força e fé. Ela traz no seu olhar o cansaço das lutas, mas no seu coração a gratidão por tudo que viveu. É uma guerreira da periferia, que inspira e distribuí muito amor a todos que convivem com ela.

Por Leticia Marques, correspondente da Brasilândia/Cachoeirinha

Evani

Evani levou o bronze nas Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016 — Foto: Julia Reis

Atleta paralímpica, Evani Calado representa desde 2010 a cidade de Taboão da Serra, na bocha, esporte onde bolas são lançadas ao chão e precisam ficar próximas de uma menor.

Três vezes por semana ela treina no último andar do prédio de esportes do CEU Campo Limpo, com a dedicação de quem conquista o mundo por meio do esporte. Com o trabalho atravessa barreiras e é inspiração para uma equipe de outros 18 paratletas dedicados em fazer o esporte ser conhecido e reconhecido por mais pessoas.

Evani tem uma paralisia cerebral, que foi causada pela demora no parto. Porém sua mãe, Aquitéria Calado, só descobriu a deficiência mais tarde. A paratleta conquistou bronze nas Olimpíadas do Rio, no Campeonato da América Latina na Colômbia e muitos outros dentre o país. Para mim, ela é, sem dúvidas, um exemplo de mulher incrível!

Por Júlia Reis, correspondente de Taboão da Serra

Kátia Cilene

A roupa molhada é resultado de uma entre centenas de trabalho de parto que ela já acompanhou — Foto: arquivo pessoal

Doula há seis anos, Katia Cilene Souza, 41, acompanhou mais de 100 mulheres em trabalho de parto e já realizou diversas rodas de conversas gratuitas sobre parto humanizado na região da Guarapiranga, zona sul da cidade.

A conheci ainda na minha adolescência em um encontro de jovens da igreja, após muitos anos fiquei sabendo da roda e sobre o trabalho que desenvolve com mulheres na periferia. Nos reencontramos e conheci um outro lado dessa mulher. É fantástico o que ela faz e emocionante ler cada relato de parto que ela compartilha.

Algumas mulheres que conheci durante uma dessas rodas, só mostrou o quanto ela foi fundamental em um momento tão sensível e único na vida delas. Além do apoio e suporte que ela dá, se faz presente a doação, o empoderamento da mulher e de que sem informação não há escolha. Sem dúvida, ela é para mim exemplo de doação e de uma mulher incrível com uma história que inspira muitas outras.

Por Cíntia Gomes, correspondente do Jardim Ângela

Luiza

Luiza Bruna do Nascimento Souza, primeira funcionária trans do MAS — Foto: Paloma Vasconcelos

Conheci Luiza Bruna do Nascimento Souza por um feliz acaso da vida. Estava fazendo meu TCC e a vi no metrô voltando do trabalho. Meses depois, fui atrás dela para convidá-la para participar do meu trabalho final. A vida de Luiza é feita de desafios. Travesti, negra e nordestina, ela é a primeira funcionária trans do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP.

Aos 44 anos, ela mora em São Paulo há pouco mais de dois anos e é uma das moradoras na Casa Florescer, primeiro centro de acolhida para mulheres transexuais e travestis da cidade de São Paulo. Depois de um ano como Orientadora de Público do MASP, ela foi promovida e hoje trabalha na loja do museu. Luiza é sinônimo de resistência e de muita luta.

Por Paloma Vasconcelos, correspondente de Vila Nova Cachoeirinha

Dona Maria

Dona Maria com seu livro, mostra uma de suas inspirações: suas flores no quintal — Foto: Thalita Monte Santo

Uma das maiores inspirações de mulher na periferia, para mim, é a Dona Maria, 74, moradora do bairro Bonsucesso, em Guarulhos, Grande São Paulo. Poetisa, aos 72 anos, publicou o seu primeiro livro: Minhas Composições.

O livro traz 34 poemas que tratam de situações pessoais — em sua maioria, os dias tristes que passou em seu casamento. Mas também reúne poemas sobre pequenos detalhes cotidianos, que são motivos de alegria para ela.

Por conta da escrita, um dos seus sonhos de criança sempre foi ser professora, e antes de se preparar para isso já ensinava os irmãos e os primos na roça. Durante algum tempo, trabalhou em uma biblioteca escolar e aproveitava para ler Machado de Assis.

Sofreu muito durante o tempo em que foi casada, e isso ainda a entristece. Apesar disso, ela não deixa de sorrir e admirar os passarinhos e abelhas que aparecem em seu quintal, para depois transformá-los em poesia. Por isso, para mim, ela é uma mulher incrível!

Por Thalita Monte Santo, correspondente de Guarulhos

Roberta

Roberta é educadora social e dá aulas para adolescentes — Foto: Paloma Vasconcelos

Roberta Ferreira Domingos, 24 anos, é a representação da resistência feminina e negra para mim. Ela mora na Vila Nova Cachoeirinha e, apesar de sermos vizinhas há muito tempo, só na época da faculdade viramos amigas.

Enquanto eu começava Jornalismo, ela estava na metade do curso de Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Antes disso, ela estudou no Colégio Salesiano Santa Teresinha, em ambos ela foi bolsista e sempre conta isso com muito orgulho.

Quando você conversa com Roberta, aprende muito de militância e cristianismo. Ela é educadora em uma obra social e dá aulas para jovens de 15 anos e entende bem como assuntos sociais devem andar lado a lado com a religião.

Entre os temas que ela gosta de debater com os alunos estão machismo, racismo e LGBTfobia — esse último assunto, mesmo não sendo uma vivência pessoal, ela faz questão de discutir.

Por Paloma Vasconcelos, correspondente de Vila Nova Cachoeirinha

Virgínia

Virgínia sonha em fazer uma faculdade de direito para ajudar as pessoas que precisam — Foto: Reprodução campanha

Moradora na cidade de Poá, na Grande São Paulo,Virgínia Rodrigues Pereira, 44, dribla o preconceito no mercado de trabalho vendendo os salgados que faz em sua própria casa. Lutando contra o estigma relacionado a quem já passou pelo sistema carcerário, desde que saiu da prisão ela é empreendedora e tira disso a renda para o sustento de sua família.

Após enfrentar um cisto hemorrágico e a morte do pai, incluindo a falta de recursos, Virgínia encontrou dificuldade em manter o empreendimento em 2017. No entanto, de um contato para gravação de conteúdo na internet nasceu uma amizade que trouxe a saída para o problema de Virgínia: uma “vaquinha” online para arrecadar dinheiro e ajudá-la a curto prazo.

Vinda de Ilhéus, na Bahia, a cozinheira é de uma família acostumada a fazer “bicos” e a nunca ficar parada. Foi no projeto Recomeçar, de uma ONG poaense, que desabrochou a ideia de ser empreendedora. Em junho do ano passado ela recebeu seu certificado do curso profissionalizante em que aprendeu como administrar um próprio negócio. A iniciativa foi feita juntamente com o projeto “Rexista”, dos estudantes da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

E ela não quer parar por aqui. Sonho em fazer uma faculdade de Direito, pelo que sofreu, pois não tinha quem a defendesse. Para mim, ela é sinônimo de mulher incrível.

Por Tamiris Gomes, correspondente de Poá

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