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Conheça Valmir Batalha, indígena que é padre e professor em Ferraz de Vasconcelos

Entre os rituais nas aldeias e na igreja, na Grande São Paulo, Valmir dá aulas de filosofia, história e sociologia, além de gravar vídeos no YouTube

Aos 51 anos, Valmir Batalha tem diversos papéis na vida. Há duas décadas é padre e celebra missas na Capela Nossa Senhora Aparecida, em Ferraz de Vasconcelos, cidade da Grande São Paulo. No mesmo município, dá aulas de filosofia, história e sociologia para estudantes do ensino médio e fundamental. 

A 2.300 km dali, é considerado uma liderança indígena na aldeia Pedra Tinideira, dos povos pipipã, em Floresta, cidade do estado de Pernambuco.

Padre indígena Valmir Batalha, 51, na Capela Nossa Senhora Aparecida, em Ferraz de Vasconcelos, na Grande SP | Renan Omura/Agência Mural

Também é criador do canal Brasil: cultura invisível, em que ensina acontecimentos históricos na perspectiva dos povos nativos. 

Sobre transitar nestes diferentes espaços, ele diz que “não mistura as crenças”. “Participo dos rituais nas aldeias e na igreja sou padre”, resume. 

“Acreditamos em divindades com nomes diferentes, mas com representatividade semelhantes, seja Deus para os cristãos ou Anduré (espírito fundador) para os povos pipipã.”

Valmir descobriu ser indígena na adolescência quando começou a observar os hábitos da avó, com quem morava na área rural de Mata Grande, município de Alagoas. 

“Ela tinha os mesmos costumes que os indígenas. Morava em uma casa pau a pique, forrava a cama com folhas de bananeira e fazia comidas típicas dos nativos. Tudo isso me fez questionar se eu pertencia a alguma etnia”, conta.

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Para entender a origem da família, foi até uma aldeia em Serra Grande (AL), onde encontrou com indígenas que conheciam um falecido tio. Durante a conversa, soube que pertencia à etnia pipipã por parte de pai. Já a mãe era do povo pankararu, também do Pernambuco. 

“Nós, indígenas, gritamos por reconhecimento “, afirma Valmir Batalha | Renan Omura/Agência Mural

A própria família evitava abordar o tema, havia o temor da expulsão de suas terras pelos fazendeiros. Ele atribui isso à tentativa de silenciamento dos povos indígenas — o que infelizmente ainda é comum no país. 

Valmir explica que na década de 1970, os nativos passaram a ser reconhecidos como pessoas, mas hoje estão perdendo os direitos conquistados. 

“Nós, indígenas, gritamos por reconhecimento. Nosso cocar é uma arte que nos pertence. Não é uma fantasia de escola de samba.”

Mudou-se para São Paulo aos 17 anos para se dedicar aos estudos. Fez a primeira graduação em filosofia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) e ao mesmo tempo seguiu com a formação sacerdotal.

Depois cursou doutorado em ciências sociais na mesma instituição e pós-doutorado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), onde se dedicou aos estudos do ressurgimento de seu povo, pipipãs.

Após ter descoberto a origem, manteve contato com a região. A cada seis meses, vai à aldeia Pedra Tinideira, em Pernambuco, para ministrar aulas de ensino básico e verificar se está tudo bem com as pessoas. Ele costuma ficar hospedado durante duas semanas em uma casa de pau a pique que ganhou dos pipipãs.

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Casa de Valmir de pau a pique construído pelos pipipãs na aldeia Tinideira, em Floresta Arquivo Pessoal
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Aldeia Pedra Tinideira, em Floresta, município de Pernambuco Arquivo Pessoal
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Os povos pipipãs professam o catolicismo e os rituais de origem Arquivo Pessoal

Os povos da região também participam das aulas feitas por Valmir em Ferraz de Vasconcelos. Por meio de reuniões virtuais, reúne os estudantes paulistas com os alunos indígenas da aldeia pipipã e promove uma troca de conhecimentos.

O objetivo é desconstruir estereótipos sobre os povos originários e reforçar a importância de respeitar as diferentes culturas. 

É INDÍGENA, NÃO ÍNDIO 

“Estamos em 2021 e a maioria das pessoas não sabe que o termo ‘índio’ é errado. A maneira certa de referir é ‘indígena’.”

A definição de “índio” no dicionário é um elemento químico e o termo também é preconceituoso, explica Valmir. “Foi uma maneira dos colonizadores reduzirem a pluralidade das diferentes etnias.”

O professor aponta algumas falhas nos ensinos das escolas, como livros de história que abordam o período de colonização do Brasil na perspectiva dos europeus, porém não mencionam a realidade dos indígenas.

“Muitas faculdades também acabam priorizando o lucro, em vez da qualidade de ensino. É comum ver professores que nunca estiveram em uma aldeia, ensinando de forma equivocada ou até preconceituosa por seguir uma determinada religião”, desabafa. 

“Nós, indígenas, gritamos por reconhecimento “, afirma Valmir Batalha | Renan Omura/Agência Mural

Para Valmir, o preconceito que os povos originários sofrem atualmente é parecido com a opressão que vivenciaram no período de colonização do país.

“Se nós, católicos, erramos no passado, oprimindo os nativos, hoje algumas igrejas agridem a fé de outras pessoas e tentam impor a sua”, diz. Existem aldeias que não praticam mais os rituais de origem e passaram a proferir apenas o evangelho, o que contribui para o esquecimento da cultura originária.

“Os indígenas que se converteram a outra religião muitas vezes entram em conflito com os próprios parentes que ainda seguem os rituais. Essa desunião enfraquece ainda mais os laços”, conta.

Para ele, é essencial que as pessoas se respeitem. “E que as autoridades também se deem respeito. Afinal, não só os indígenas, mas os ciganos, os quilombolas, os umbandistas, candomblecistas e todos os grupos minoritários [e religiosos] também devem ser respeitados”, conclui.

Renan Omura

Jornalista, correspondente de Suzano desde 2019. É autor do livro-reportagem Caputera: chacinas em Mogi das Cruzes e finalista do 12° Prêmio Santander Jovem Jornalista. Apaixonado pela escrita, acredita que a comunicação é uma ferramenta para diminuir as lacunas sociais.

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