Quem são os conselheiros tutelares das regiões mais disputadas de SP

No Jardim Helena e no Itaim Paulista, na zona leste, integrantes de associações de moradores e que participam de trabalhos sociais conquistam vagas em disputa marcada pela religião

Há quase 20 anos, Lindinalva Gomes de Brito, 58, é conhecida na Vila Seabra, na zona leste de São Paulo, como Nalva do Leite. Ela entrega por semana 130 litros de leite toda segunda-feira e quinta-feira, das 8h às 9h30, cedidos pela Semab (Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Abastecimento). 

Pouco depois de começar esse trabalho social, Nalva decidiu que queria ser conselheira tutelar. “Foram quatro tentativas sem sucesso”, conta. “Na terceira vez, consegui ser suplente e foi recompensador o trabalho. Aprendi muito”, conta Nalva. 

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Como suplente, ela assumiu o cargo quando o titular tirou férias ou precisou pedir licença. Neste ano, Nalva foi eleita para ser conselheira no distrito do Jardim Helena, uma das regiões que teve a disputa mais acirrada na capital. 

Por ali, ao menos 38 moradores disputaram uma das cinco vagas de conselheiro. No distrito vizinho do Itaim Paulista, foram 43 postulantes, e outros 40 disputaram em São Miguel Paulista. Ao todo são 52 conselhos tutelares espalhados por toda a capital. 

A avaliação dela é que o número de movimentos sociais na região pesou. Ela mesma é fundadora da Associação de Moradores Nossa Senhora de Lurdes – nome escolhido em homenagem à sua mãe. 

Na suplência, afirma que os casos mais marcantes que vivenciou foram os de crianças em situação de vulnerabilidade social com pais usuários de drogas. “Embora o trabalho seja de encaminhamento para outros órgãos competentes, a gente acaba se envolvendo sentindo a dor daquela criança”, conta Lindinalva. 

Crédito: DivulgaçãoNalva do Leite venceu no Jardim Helena

Cabe aos conselheiros fiscalizar casos de discriminação racial, social, a falta de oferta de serviços públicos em saúde e educação, denúncias de trabalho infantil, violência, entre outras violações dos direitos dos jovens.

Este ano, a disputa pelos conselhos tutelares chamou a atenção do Brasil por conta da disputa entre integrantes de igrejas católicas e evangélicas, em meio ao acirramento político. 

Estreante nas disputas do conselho tutelar do Jardim Helena, Renato Souza, 38, atribui a vitória ao apoio de Deus, familiares e da igreja evangélica que congrega. No entanto, a atuação esportiva foi a que mais pesou para sua entrada. Ex-atleta profissional de futebol, ele participa do time 11 Paulistas, que possui uma história de 39 anos.

Além disso, fundou o projeto Desafiando Gigantes, onde dá aulas gratuitas de esporte para crianças e adolescentes. “Meu maior sonho era fazer algo pela periferia. Pelas pessoas mais desfavorecidas. Por meio do esporte eu consigo fazer”, conta Souza.  

As dificuldades enfrentadas por moradores do bairro também foram apontadas como um fator para a propagação de candidatos. Perto dali está o Jardim Romano, marcado pelas enchentes no começo do ano. Em 2010, o alagamento chegou a durar um mês impossibilitando crianças de ir à escola e pais de irem aos seus empregos. 

“Nessas horas são os projetos locais que ajudam. Corremos atrás de cestas básicas e roupas”, diz Renato. Ele diz que a meta são os casos de falta de vagas em maternidades e creches, mas espera continuar estimulando atividades esportivas na comunidade.

CARREIRA LONGA NO CONSELHO

Edemir Melo, 40, o Alemão, é conselheiro tutelar desde 2011 e foi reeleito neste ano, no distrito do Itaim Paulista. Formado em direito, conquistou o primeiro lugar com 1.119 votos. Neste ano, disse que teve receio de participar em meio o aumento de concorrentes na região. 

“Embora eu já faça um trabalho social há 20 anos na comunidade, tive medo de participar. Eleição facultativa é muito difícil, há pouca divulgação da prefeitura”, conta Alemão. 

Alemão conta com uma rede de apoio de amigos e familiares que ajudou na divulgação. Ele frequenta a igreja católica, mas afirma não usar a religião para fazer propaganda.

“Como advogado me sinto habilitado para desenvolver esse trabalho. Cresci vendo a violação de muitos direitos infantis e a falta de políticas públicas”, diz Alemão. 

Crédito: DivulgaçãoRosinha foi eleita para mais um mandato no conselho

Outra figura conhecida na região é Maria Amparo dos Santos, 56, a Rosinha. Desde 1998, ela tem concorrido ao conselho tutelar do Itaim Paulista. 

Atualmente, no quarto mandato seguido, foi eleita com 1.005 votos, ocupando o segundo lugar da composição, e enfatiza a defesa do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). “As nossas crianças sofrem muito. É preciso ter muito amor para poder lidar”, conta Rosinha. “Os piores casos são os que os pais são usuários de drogas, porque a criança tem muitas dificuldades de convivência, falta de higiene, alimentação, abandono”.  

Neste caso, os pais são encaminhados para tratamento no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), mas muitos não comparecem, o que resulta na retirada da guarda. 

Rosinha é formada em pedagogia, mas o primeiro contato com o trabalho infantil foi na juventude, quando era monitora em um projeto social para crianças e adolescentes. Depois disso, não se desvinculou mais da causa, ingressou no Fórum regional da Criança e do Adolescente, no qual trabalha com as demandas locais. 

Ela critica a forma como a questão religiosa foi colocada na disputa pelos conselhos neste ano. “Muitos usam de artimanhas religiosas para conseguir votos e também lidar com os casos infantis, e essa não é a resposta. É preciso olhar para o caso como um todo”.

Danielle Lobato

Jornalista, correspondente de Itaim Paulista desde 2016.

Itaim Paulista, São Paulo

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