Copa do Mundo: familiares, amigos, Jardim Fontális e Josimar

Semana de Copa do Mundo e as mensagens no celular não param de mostrar convites para assistir aos jogos. Os eventos são variados, desde bares na Vila Madalena, Vila Olímpia, Pinheiros, aos eventos como Fan Fests espalhadas pela cidade.

Mas a verdade é que eu não curto assistir à Copa assim. A culpa é do primeiro Mundial que vi. 

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Minha primeira lembrança de Copa do Mundo foi em 1986. Estávamos na casa da minha madrinha, Dona Julinda, no recém ocupado bairro do Jardim Filhos da Terra, na zona norte de São Paulo, chamado também de Serra Pelada, em alusão ao grande garimpo que existia no Pará.

Estávamos ao redor de uma pequena TV sobre a geladeira, assistindo à terceira partida da seleção brasileira no mundial do México, quando um chutaço deu início a festa, aos 41 minutos do primeiro tempo de Brasil e Irlanda do Norte.

Os adultos se abraçavam, riam e jogavam cerveja para o alto. Lembro do cheiro de churrasco, da alegria, dos abraços e alguém me levantando acima das cabeças. O jogo já estava 1 a 0 para o Brasil naquela altura, mas o chute gerou uma comoção imediata, uma obra de arte de uma seleção que praticava o futebol arte. Alegria geral.

O jogador na tela parecia nos imitar. Com os braços para cima, ele corria para todos os lados. Era Josimar, lateral-direito do Botafogo, convocado de última hora para o Mundial. Meu primeiro herói.

Não lembro quando começaram a existir as Fan Fests e os telões superdimensionados que atraem milhares de pessoas para ver o torneio, mas a ideia nunca me agradou. Nem quando foi no Brasil em 2014. Talvez porque a cerveja seja cara e não dá pra ouvir a narração. Ou porque junte muita gente, vire festa, azaração. Já com meus amigos o papo não desvia. É futebol.

Moradores mantêm tradição que começou durante criação dos bairros nos anos 1980 (Magno Borges/Agência Mural)

TURMA

Moro no mesmo bairro desde 1992. A primeira Copa do Mundo que vi no jardim Fontális, também na zona norte, foi em 1994, quando fomos campeões.

Tínhamos poucas televisões no bairro e saiamos de garagem em garagem vendo qual casa tinha colocado o televisor para fora para assistir de ‘convidado’. Meus amigos e eu não possuíamos televisão em casa e foi assim que comemoramos nosso primeiro título. 

O futebol juntou minha turma.

Todas as amizades que tenho desde a infância começaram no campinho de futebol aqui do bairro. Campinho esse que fizemos com nossas próprias mãos. Invadimos as construções e pegamos caibros e madeiras para as traves e ao lado de um rio criamos nosso ‘parquinho’ predileto.

Nossa obra deu tão certo que ainda hoje é a principal praça no entroncamento dos bairros Sobradinho e Recanto Verde, com uma quadra de concreto, em péssimo estado de conservação, no mesmo local onde há mais de duas décadas construímos nosso templo, digo, campo.

Nas Copas seguintes como a de 1998, já havia diversos televisores no bairro. Mas queríamos continuar vendo os jogos juntos, então, estabeleceu-se a tradição.

Aqui tudo que é consumido (cerveja, carne, refrigerante, pinga, limão, açúcar e gelo), é comprado por meio do famoso rateio: R$ 20 de cada um e a boa vontade para revezar na churrasqueira e servir as bebidas, como aprendi naquela Copa de 1986.

Discutimos táticas, jogadores, juízes e qualquer coisa relativa ao jogo. Vimos o tetra e o penta assim, atravessando as madrugadas. Lamentamos muitas derrotas também. Em 2014, não havia saído a primeira rodada de carne da churrasqueira e nem esgotado a primeira cerveja aberta e as esperanças já estavam perdidas contra a Alemanha.

Mas, este ano tem mais.

Lajes e garagens já estão prontas, não vamos sair do bairro para assistir nos lugares da moda. Vamos nos juntar novamente e seguir nosso ritual dos últimos 24 anos, celebrar o nosso encontro e o nosso modo de ver o futebol. E não se trata da dicotomia do que é ser ‘raiz’ ou ‘nutella’. Falo de comunhão.

Hoje a maioria de nós já são pais, tios e tias e estamos passando a tradição para os mais novos, do nosso jeito, que não é melhor nem pior que nenhum outro. Foi assim que aprendemos a ver Copa e assim vamos continuar.

André Santos é correspondente do Jardim Fontális
[email protected]

0 thoughts on “Perus 84 anos: trens, cimento e a construção do Brasil”

  1. Que lindo Ana Beatriz!
    Nos olhos e na voz dessas crianças é que realmente está a nossa esperança de um país melhor.
    Pessoas inocentes que conseguem enxergar o que muitos ignoram.
    É a vida de verdade,o sorriso estampado,o brilho nos olhos que mal sabem o que ainda vai ter que enfrentar.
    Um super abraço de toda família Centro Comunitário do Embura.
    Felicidades linda.

  2. Um raio x dessas pequenas Almas, que acreditam e sonham em um país onde tudo parece estar pedido, surge através da pureza e simplicidade o nascer da esperança dentro desses pequenos gigantes.
    Ainda vale a pena sonhar!

  3. Uma linda crônica, repleta de alma e total conhecimento do cenário atual de nosso país.
    São palavras assim que nos inispiram à lutar por mais um dia.
    Parabéns!!!

  4. Parabéns. Sou testemunha do seu ganho de saúde física, emocional e psicológica. Pois a bicicleta proporcionou a conscientização dos alimentos que lhe trazem energia e vitalidade e daqueles que intoxicam tirando o vigor pro esporte. Sua conquista de um corpo mais sadio e moldado também é digna de congratulações.

    1. Pessoa incrível, estudamos juntos e realmente sua história de vida é algo que muitas pessoas que tiveram a oportunidade de conviver um pouco com ele aprendeu muito.

  5. Fantástico ! Com todos percalços que a periferia oferece na prática esportiva, eis uma superação e motivação para deixarmos de ser sedentários ! Parabéns Mauro pela iniciativa !

  6. Olá,
    Gostaria de saber se a possibilidade de receber bolsa de estudos para esse curso em específico. Que Muito fazer, mas não possuo recursos no momento para investir.

    Desde já agradeço.

    1. Olá, Sheila! Muito obrigada pelo contato e interesse pelo curso. A atividade é oferecida pela faculdade, logo, vale tentar direto com a Fespsp a possibilidade de conseguir alguma bolsa.

  7. Paulinho, esta sim é a mais linda forma de Dizer Eu Te Amo Para um Pai!
    Você fez uma linda homenagem, para o Tio Paulo, que é Paizão de toda Família.
    Deus abençoe a todos os Filhos.

  8. Zorade, ai sim meu grande sobrinho, que homenagem de arrepiar.! Digo nunca vista, (é claro)pois cada um é um…Quanta sabedoria vestida de aparente ignorancia! O jeito de ser do meu irmao meio estranho, superou os grandes modos finos de criar seus filhos…Quanta riqueza de carater , de valentia também,ele apresentou a voce e a essa exelente Mae que te trouxe ao mundo…Familia pequena nas de grande peso..kkkk em todos os sentidos…No seu relato voce se esqueceu de falar sibre a bondade do coraçao dele…Tem umas histórias de caridade dele que admiro!…Parabéns pela homenagem ! Que Deus lhe proteja , que cada vez mais sua intelugencia seja ativada….abraços

  9. Olá boa tarde,
    Gostaria de parabenizar pela iniciativa e tbm Têmos que girar essa informação e cobrar de forma correta e pacífica dos responsável para tal , tendo em vista que somos moradores da região Têmos essas e outras dificuldades sendo que todos nós vamos receber visitas Nos próximos dias de político ou de seus prestadores de serviços prometendo o que não se cumpre ,uma vez que se não formos no dia votar somos obrigados a pagar multa e tenho certeza que todos nos não deixamos de pagar e quando se trata de olhar um pouco pra lado mínimo que é ,transporte, segurança, iluminação, etc.. Nos não temos respaldo ,então diariamente ouvimos relatos e acontecimentos que cada dia dificulta mais a vivência no bairro, só lembrando que mesmo sendo uma APA todos aqui são eleitores que seguem a risca com suas obrigações e o que queremos é o mínimo se iníciando pelo Respeito aos moradored e direito de ir e vir que já não temos mais.
    Att:
    Gilmar Rodrigues

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