De quando Perus se tornava o centro da cidade em Dia de Finados

Na zona noroeste de São Paulo, o feriado de 2 de novembro movimentava a economia da família André, como relata Jéssica Moreira

Em dia de Finados, as ruas de Perus ficavam completamente ocupadas por todo quanto é jeito de “automóvi”. Fuscas, brasílias e kombis traziam famílias inteiras com seus lanches de queijo e presunto no pão pulmann guardado no saco plástico. Uma fila quilométrica se formava nas adjacências do Cemitério Dom Bosco.

O bairro da região noroeste da capital, de ares interioranos, vivia um verdadeiro dia de metrópole nesse feriado santo. O tio Tiago guardava o Herbert — um fusca branco todo mimoso de placa CWE -0255 — na garagem e ele só saía de lá quando a noite se aproximava.

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A nossa casa ficava a 15 minutos do cemitério. E era andando que a maior parte da população se locomovia pelas ruas nessa data, para assistir à missa principal, realizada sempre na placa de homenagem aos presos políticos mortos pela ditadura e enterrados na vala comum. Acho que era o único dia do ano que a população simples falava em Ditadura Militar.

Pelo caminho, me lembro bem. Um tanto de gente vendia os mais diversos formatos de flores — lírios, azaleias, girassóis — enquanto outra parte aproveitava para se beneficiar do comércio de velas, água, cerveja e sorvete para a criançada. O sol não dava trégua aos passantes. Crianças vestidas de anjo, pessoas cumprindo promessas às almas.

Para os que viam de carro, a solução era deixar a caranga em algum dos estacionamentos improvisados ao redor. Era aí que um dia fúnebre se tornava motivo de festa na minha família.

Nessa época, a casa do Tio João era justamente em frente à necrópole peruense. Seu quintal de 400m² era o espaço perfeito para guardar muitos carros. Era só atravessar a rua e a pessoa já estava com o pé no “cemity”, forma carinhosa que meu pai chamava o local.

Crédito: Jéssica Moreira/Agência MuralCemitério de Perus, na região noroeste de São Paulo

Ele, o tio Tiago, meu irmão e os primos todos viravam franelinhas profissionais. Cinco reais por uma hora. “Vai mais pra esquerda, colega”. “Ali na direita tem mais um lugar sobrando. Aquela paraty já tá de saída”. Eles se divertiam e tiravam, cada um, mais ou menos uns R$ 200.

“Ihhhhhh, vai bater, vai bater….ai, bateu”, eu lembro da cena do pai falando para um senhor que havia encostado sem querer querendo noutro carro. 

O senhor, franzino, com cara de quem não havia dormido toda a madrugada, havia perdido o filho em um acidente, o enterro tinha acabado naquele exato momento. 

O pai, compadecido, mexeu a cabeça como ele costumava fazer, olhou pro lado e só disse: “ Meus sentimentos. Deixa quieto isso aí. Pode ir embora, ninguém nem vai ver, vai com Deus, viu, deu R$ 15 tudo”.

No fundo da casa, o churrasco rolava solto, com samba, tubaína e cerveja gelada. Era o dia de almoçar com as primas mais velhas, comer bolo de chocolate e ir embora só quando a tarde caísse.

Era chegada a hora da volta pra casa, do fim da festa em família, e do marasmo peruense de novo se instaurar nas esquinas e calçadas, agora tão bucólicas. Só dali a um ano, Perus voltava de novo a não ser borda, mas centro das atenções.

Jéssica Moreira

Jornalista, correspondente de Perus desde 2010.

Perus, São Paulo

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