Delivery e preço justo: as apostas de uma feira de orgânicos em Diadema

É em um galpão no final da rua Dona Maria Aparecida dos Santos, no bairro Vila Conceição, em Diadema, na Grande São Paulo, que funciona aos sábados, das 14h às 17h, uma feira formada exclusivamente por verduras e frutas orgânicas. O comércio, organizado pelo Coletivo de Consumo Rural Urbano, é o único da cidade a vender somente alimentos sem agrotóxicos, de acordo com mapeamento realizado pelo próprio grupo com a ajuda dos consumidores.

Além de oferecer produtos de pequenos agricultores do interior paulista, os organizadores apostam em duas iniciativas para disseminar a importância da alimentação saudável e atrair novos clientes: entrega em domicílio e preço justo.

A goiaba, que vem de Iperó, é vendida por R$ 4,80 o quilo. Já o repolho e a alface, produzidos em Mogi das Cruzes, custam R$ 3 a unidade.

O voluntário Michel Anderson Breve, 35, faz parte do coletivo e ajuda na organização da feira, que está ativa desde 2014. Professor de geografia da rede estadual de ensino, ele afirma que o preço baixo só é possível porque o processo de comercialização não conta com atravessadores – pessoas que compram dos agricultores e depois revendem.

Um dos organizadores da feira, Michel Anderson Breve, diz que não há veneno durante a produção dos alimentos (Diego Brito/Agência Mural)

O repolho vendido em varejos tradicionais chega a custar R$ 8, por exemplo. “Os alimentos orgânicos são vendidos por um valor muito alto nos supermercados. Aqui é tudo por um preço mais justo e acessível para quem mora na periferia ou não. Nosso trabalho é voluntário, então não temos a necessidade de vender mais caro para lucrar”, afirmou Breve.

“É produzido sem veneno. Não tem produto sintético durante a produção. O adubo dos agricultores é feito de forma orgânica”, relatou.

Professora e moradora de Diadema, Luciana Assunção, 47, decidiu mudar a alimentação há 10 anos. Mas foi somente em 2017 que ela descobriu a feira quase ao lado de casa. “Sempre foi complicado consumir só alimentos orgânicos porque é difícil achar e tem um preço elevado. Essa é a fase da minha vida que eu mais consumo os orgânicos. O resultado vem no sabor e na saúde.”

Antes de conhecer a feira do coletivo, Luciana precisava se deslocar para supermercados distantes ou eventos esporádicos em São Paulo, como a Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada uma vez por ano no Parque da Água Branca, na Barra Funda. “Nessa compra que gastei R$ 36, eu deixaria mais de R$ 100 em grandes redes de supermercados que têm a opção de alimentos orgânicos”, disse.

Há o serviço de encomenda e os vegetais são entregues em casa para quem reside em Diadema. O “delivery” funciona somente aos sábados, durante o período que a feira está montada, e é organizado em um grupo no Whatsapp com cerca de 200 participantes. “Nós cobramos uma taxa de R$ 4 para entregar. O dinheiro vai exclusivamente para o motoboy”, explicou Breve

As verduras e frutas vendidas são cultivadas no interior e cidades da Grande São Paulo (Diego Brito/Agência Mural)

RETROCESSOS 

De acordo com a professora e pesquisadora em agroecologia da USP (Universidade de São Paulo) Larissa Mies Bombardi, cerca de um terço dos agrotóxicos liberados para uso no Brasil são proibidos na União Europeia. “Não pode usar porque faz mal para a saúde. Nós estamos expostos a desenvolver doenças associadas a essas substâncias.”

A professora explica que as substâncias atingem os trabalhadores que têm contato direto com o produto e também os consumidores. “No caso dos camponeses, os males à saúde vão desde intoxicação aguda até caso de doenças crônicas, como problemas endócrinos e má formação fetal. Os consumidores também estão expostos por causa dos níveis de resíduos autorizados pelo governo, além da falta de fiscalização”, disse.

No dia 25 de junho deste ano, a comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei apelidado de “PL do Veneno”. A proposta foi encaminhada ao plenário da Câmara e pretende mudar a Lei dos Agrotóxicos – lei 7.802, de 1989. A pesquisadora classifica o projeto como “retrocesso”, já que a aprovação será flexibilizada.

“Nos torna ainda mais vulneráveis aos efeitos. Os registros dos agrotóxicos vão ficar hospedados no Ministério da Agricultura. Atualmente, o agrotóxico passa pelo Ministério do Meio Ambiente, pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, afirmou.

Para Larissa, na contramão desse projeto, a feira orgânica de Diadema é uma revolução. “Une as questões urbanas e agrárias. Tem soberania para nós, da cidade, que temos a opção dos alimentos agroecológicos e também proporciona soberania aos agricultores e camponeses, que fazem uma produção contra o caminho hegemônico.”

Serviço
Endereço: Rua Dona Maria Aparecida dos Santos, 50, Vila Conceição.
Todos os sábados, das 14h às 17h.
Telefone: (11) 9 6305-3227.

Diego Brito é correspondente de Diadema
[email protected]

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