“Descobri, no fazer jornalístico, que Perus era muito mais que um bairro isolado”, relata repórter da Agência Mural

De dentro do trem na Linha 7-Rubi, olho a paisagem que se transforma e, por ela, um filme dos últimos seis anos como jornalista da Mural passa correndo pela minha fronte.

Quantas vezes, não poucas, esse trem foi palco, tema, insumo sempre potente das histórias que contei. “A Linha 7-Rubi, liga Luz-Jundiaí”, cantou pra mim o entrevistado Thiago Rodrigues, em 2014.

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Foto: Luana Andrade

Foi em 2010, com a largada da Mural, que a menina que havia negado seu bairro durante quase vinte anos se voltou para o mesmo.

De um dia para o outro, tudo que o programa sensacionalista do fim da tarde havia pregado, caiu por terra. Eu, que mentia meu local de morada com vergonha, descobri, no fazer jornalístico, que Perus era muito mais que o último bairro, isolado, da região norte.

Perus é um dos maiores antros de luta por direitos sociais da história desse país. É nesse meu bairro que criaram a 1ª Fábrica de Cimento do Brasil. Primeira grande greve do país, erguida pelos sindicalistas Queixadas peruenses, antes mesmo das greves do ABC. Primeiro movimento ambientalista do país, em 1970, encabeçado por mulheres contra o pó de cimento que jorrava em suas roupas no varal. Quer algo mais feminista que isso?

Aqui, ainda resiste um trem maria-fumaça, uma vila fantasma, com casas do início do século XX, e o maior parque municipal da cidade de São Paulo, o Anhanguera, onde passei minha infância na gangorra e balanço. Um samba na feira livre de domingo. Um ponto de cultura afro, a Quilombaque. Grupos e grupos de teatro. Criançada brincando de pipa no meio da rua. Rap, Jongo, Rock, música clássica, sertanejo, forró rastapé.

Pois bem, por ter virado jornalista da Mural, eu virei uma militante das causas do meu bairro. A luta, iniciada pela questão simbólica, virou física, virou realidade. Em menos de dois meses, a Quilombaque me chamou pra ser assessora voluntária no espaço.

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Foto: Arquivo pessoal

 

A cobertura das festas afro- brasileiras me renderam a percepção de minha ancestralidade, o meu reconhecimento como mulher preta. A luta por mais cultura e reconstrução de nossa memória, me renderam um livro: “Queixadas – por trás dos 7 anos de greve”.

Em 2012, a Mural também me apresentou a outras 8 mulheres e passamos, então, a olhar nossos bairros e vivências pela lupa de gênero e, desde então, somos Nós, mulheres da periferia.

E tudo isso junto colaborou na resignificação de minha identidade, que não se encontrava em canto algum. Meu bairro negado, agora é bairro vivido, é história sempre presente, de um passado que só começou a ser olhado há seis anos.

Eu, finalmente, encontrei minha galera. Como cantou Gil, somos uns punks das periferias, de Perus, Campo Limpo, Itaquera. Mural, vida longa, obrigada por unir toda essa gente!
Jessica Moreira, 25, é correspondente de Perus e co-fundadora do coletivo Nós, mulheres da periferia.

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