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Devotos programam novas formas para homenagear Iemanjá por conta da pandemia

Comunidade da Gamboa e artistas baianos se reinventam para saudar a Rainha do Mar na tradicional festa do dia 2 de fevereiro, diante de novo cenário
Ana Caminha, presidente da Associação de Moradores da Gamboa de Baixo | Moisés A. Neuma/Agência Mural

Sem a tradicional Festa de Iemanjá, celebrada no dia 2 de fevereiro, os devotos estão reinventando novas formas para prestar suas homenagens à rainha do mar. Por conta da pandemia do novo coronavírus, a prefeitura de Salvador cancelou o principal evento da cidade no bairro do Rio Vermelho e determinou algumas restrições comerciais na região. 

Na comunidade da Gamboa de Baixo também não haverá a festa realizada anualmente. O evento, que iniciou com uma reverência dos pescadores locais ao orixá, vem crescendo ao longo do tempo. 

“O que era apenas uma homenagem dos pescadores tomou uma proporção muito representativa para a comunidade. As pessoas se sentiram convidadas a colocarem seus presentes nos balaios e também a colaborarem financeiramente com a ornamentação da festa”, afirma a pedagoga Ana Caminha, 47, presidente da Associação de Moradores da Gamboa de Baixo.

Ana Caminha e Adriano de Jesus Sapucaí, organizadores da festa na comunidade Gamboa de Baixo | Moisés A. Neuma/Agência Mural

Mesmo com a pandemia, Ana conta que o presente não deixará de ser entregue para a padroeira dos pescadores, mas ganhará um novo formato. “Não podemos tapar o sol com a peneira e fingir que não há uma pandemia. Estamos nos organizando para fazer nossos agradecimentos, mas este ano o presente será algo mais interno da nossa comunidade pesqueira e da comunidade da Gamboa. Iemanjá não ficará sem ser homenageada.” 

Com uma programação mais enxuta que nos anos anteriores, as homenagens contarão com uma alvorada e entrega do presente no mar como de costume. 

Para a mameto Laura Borges, 43, mãe de santo do Terreiro Unzó Maiala, localizado no Garcia, o momento exige cautela material e espiritual. “Precisamos continuar respeitando a natureza. Orixá é natureza. Mas não podemos esquecer que o mundo vive um momento de dificuldade. Podemos fazer nossas oferendas, mas respeitando o momento. As oferendas precisam ser feitas, mas a festa profana podemos deixar para depois de todos vacinados”, afirma, referindo-se às campanhas de imunização contra o novo coronavírus.  

Em tempos de pandemia, mameto Laura Borges afirma que é momento de se reinventar | Arquivo pessoal

Laura, que pretende levar suas oferendas já no dia primeiro, explica ainda que os fiéis podem levar as suas preces de outras formas, se adequando ao cenário atual. “Temos do primeiro ao último dia de fevereiro para colocar nossas flores e ofertas para a rainha. Quem quiser ir, pode escolher um dia e horário onde as praias estejam mais vazias. Além dos presentes temos que levar também nossa consciência ambiental”.

Para este ano, os pedidos para a sereia não poderiam ser diferentes. Apesar de ser uma entidade cultuada nas religiões de matriz africana, o pedido é pelo coletivo, explica Ana Caminha. “O principal pedido para todos os santos neste período é pelo fim dessa pandemia. A gente espera que as coisas voltem à normalidade e possamos sair deste modelo de isolamento. Pedimos também pela resistência da comunidade e que venham mais peixes.”

 

SENHORA DOS ARTISTAS 

A devoção por Iemanjá também está presente nas obras de diversos artistas baianos. Exemplo disso são as peças criadas pelo ilustrador Tarcio Vasconcelos, 33, que retrata em seus desenhos manifestações religiosas como a festa do dois de fevereiro, a Lavagem do Bonfim, os orixás e suas ferramentas, além do sincretismo entre as religiões de matriz africana e o catolicismo, característica comum na religiosidade baiana.

Tarcio V mistura arte e devoção para retratar a Rainha do Mar | Divulgação/Amanda Tropicana

“Iemanjá sempre esteve ligado ao meu trabalho e minha vida pessoal. Geralmente é o primeiro orixá que a gente conhece, pela sua popularidade e pelo seu encanto. Meu primeiro grande trabalho foi a partir de uma estampa relacionada a ela para uma série de televisão em como resultado da repercussão positiva, prometi que sempre faria trabalhos envolvendo esta senhora”, conta. 

Devoto de Iemanjá, também por influências do seu pai, Tarcio V, como é conhecido, afirma que a comercialização das camisas com a temática do orixá é uma das mais procuradas pelos seguidores nas redes sociais; isso faz com que o artista tenha outras formas de disseminar sua arte de devoção. 

“Muitas das pessoas que me seguem nas redes sociais vêm para o 2 de Fevereiro. E como trabalhei muito tempo com estampas de camisas, geralmente na festa sempre encontro meus trabalhos estampados. A camisa é um método de guerrilha de difusão do meu trabalho. E assim vou desdobrando outras maneiras de representá-la também”, diz.

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Todos os anos, Tarcio pinta um mural em homenagem à Iemanjá, em algum muro da cidade, porém na última quarta-feira (27/1) não pôde realizar a intervenção pensada para a Biblioteca Juracy Magalhães, localizada no bairro do Rio Vermelho, por não ter conseguido autorização. O artista afirma que tentou entrar em contato com a Fundação Pedro Calmon, administradora do prédio, mas não obteve sucesso. 

Em nota, a Fundação Pedro Calmon afirma que o artista não procurou ou consultou a instituição para realizar a pintura e diz ainda que, por ser um prédio público, é necessária a apresentação de uma proposta para um possível trabalho artístico.

A Odoyá, de Ray Vianna, é uma das esculturas mais conhecidas de Salvador | Arquivo pessoal

A Rainha do Mar também é inspiração de uma das mais conhecidas obras do artista plástico Ray Vianna, 59, o dorso de peixe, intitulado como “Odoyá”, localizado no bairro do Rio Vermelho. “A melhor parte de ter feito essa obra, é saber que a cidade se apoderou deste presente. Um presente que eu tive o prazer de fazer em 2008, e que as pessoas se relacionam com ela de uma forma muito forte”, conta. 

Vianna, que é nascido e criado no bairro do Garcia, todos os anos, desde a inauguração da peça, tem o hábito de lavar a escultura para a festa religiosa. A ação reúne parentes e amigos do artista, entretanto, este ano, por conta da pandemia, a “Lavagem da Odoyá” será realizada apenas pela sua equipe. 

“Todos os anos fazemos ajustes nela, lavamos com cuidado para tirar o salitre. Este ano não teremos aglomeração, mas não deixaremos de deixá-la arrumada para o 2 de fevereiro. Iemanjá e Salvador merecem”, afirma.

 

Nota da Secom sobre mudanças na festa:

Restrições comerciais – Na segunda-feira (1º), bares e restaurantes do Rio Vermelho vão funcionar de acordo com o protocolo setorial para o setor (de 11h até 0h). No dia seguinte (2), esses estabelecimentos só poderão abrir a partir das 19h.

Ainda no dia 2, haverá proibição do funcionamento de food trucks, comércio informal, ambulantes, carros de som e afins, assim como os depósitos de bebidas. Estará proibida a venda de bebidas alcoólicas em postos de combustível, delicatessens, padarias e similares.

Já os comércios e serviços essenciais estarão abertos normalmente, a exemplo de supermercados, padarias, açougues, farmácias, agências bancárias e lotéricas, estabelecimentos que funcionam em regime de delivery (sem retirada no local), estabelecimentos de saúde e clínicas veterinárias. Além disso, os pescadores do Rio Vermelho poderão exercer atividade de pesca e venda de mercadorias sem restrições.

Fechamento de praia – A partir da meia-noite da segunda (1º) até meia-noite de quarta-feira (3), os acessos à praia do bairro serão interditados, no trecho que vai do Buracão ao restaurante Sukiyaki.

Não haverá bloqueios e barreiras físicas para veículos e moradores e nem alteração no trânsito e transporte nas vias do bairro. As medidas serão fiscalizadas por agentes das secretarias municipais de Ordem Pública (Semop) e Urbanismo (Sedur), Guarda Civil Municipal (GCM) e Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador), com apoio da Polícia Militar (PM-BA).

Brenda Gomes

Jornalista e correspondente do Centro/Brotas (Fazenda Garcia). Mulher negra, e candomblecista. Gosta de viver aglomerada com gente que acredita nos sonhos, de teatro, música e gastronomia fundo de quintal. Mãe de plantas e de pets.

Salvador/BA

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