Dia do Livro: em ‘Na minha pele’, Lázaro Ramos vestiu a pele de milhares de negros, inclusive a…

A jornalista Leticia Marques com o livro “Na Minha Pele”, de Lázaro Ramos — Crédito: Arquivo pessoal

Esses dias, na lotação que pego no Metrô Barra Funda, na qual eu levo em torno de 1h para chegar em casa, o motorista parou para uma senhora subir. Ela era negra, estatura mediana, um lenço preto que cobria o cabelo todo, usava um vestido longo, com flores amarelas e detalhes brancos. Vestia também uma blusa bege de lã bem leve. O som de sua voz era bem alto. E ela subiu na lotação lamentando com o motorista sobre seu trajeto árduo para ir a uma consulta do outro lado da cidade. Por fim, sentou-se no banco do lado e aquietou-se.

Estava tentando dormir, fechando os olhos, já com a mente distante, quando o mesmo tom de voz que eu ouvi minutos atrás entraram em meus ouvidos como uma buzina. A senhora desembestou a falar sem parar com uma mulher. A moça era muito paciente e ouviu atentamente cada palavra que a senhora dizia sobre sua vida como doméstica, o esforço para criar filhos e netos, a miséria que ganha trabalhando em casa de família há anos, mas não acha ruim, porque o importante era ganhar seu dinheirinho suado, que nessa semana pagaria a conta de água, “graças a Deus”.

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Meu ponto se aproximou bem quando eu estava me interessando na história, que todos estavam atentos devido ao seu tom de voz. Enfim, desci sem ao menos saber seu nome. Uma pena.

No dia seguinte ganhei o livro Na Minha Pele’, do Lázaro Ramos. Devorei as páginas em três dias e, segundo a minha mãe, é um desperdício de dinheiro por ler tão rápido. A obra relata momentos importantes da vida do autor, principalmente sua descoberta e importância como negro numa sociedade que infelizmente ainda é muito racista.

O livro me fez refletir, levando minha mente ao passado e principalmente, me estabelecendo no presente. Essa obra foi o primeiro contato que tive com um autor que se auto afirma negro. Jamais vou esquecer da forma doce e pesada do Lázaro ao tratar de temas tão importantes e necessários de se abordar, como racismo, empoderamento, solidão da mulher negra, mortalidade jovem negra e vitimismo.

E quando eu estava nas últimas folhas, uma pergunta deixou o autor encucado e também me instigou. “O que vocês têm feito pela comunidade negra?”. Então observei que não fazia nada, além de ler alguns artigos, livros e discutir de vez em quando o tema em uma roda de amigos brancos. Afinal, são essas pessoas de pele clara que precisam entender o racismo e não nós, que já temos isso como parte do nosso cotidiano.

Então, comecei a procurar a história de pessoas negras que lutaram para tivéssemos essa “liberdade” de hoje. Procurei saber mais dos meus antepassados e nada foi encontrado. A história da minha família acaba nos meus bisavós. E antes disso? Não tem. Simplesmente não há registros. Somos o país com mais pessoas negras fora do continente africano e não há escritura e documentos comprovando toda nossa luta. Nossa história foi erradicada.

Somos erradicados todos os dias. Quando entramos em lojas, recebemos olhares tortos; tentamos alisar nossos cabelos; temos medos de não passar em entrevistas de emprego por conta da nossa cor, e quando utilizamos do nosso humor para nos defender de ofensas raciais no Ensino Médio.

Há milhares de detalhes para nós, negros e periféricos que é massacrante e para os demais é puro vitimismo. O negro, quando está vivo, vence uma batalha por minuto. Pode parecer pouco, mas para os brancos, que não têm a estimativa de vida até os 21 anos por ser escuro e pobre.

E aí, me lembrei daquela senhora no ônibus. Em menos de 1h absorvi suas lutas e admirei-a. Contar a história dela com detalhes talvez nunca seja possível, pois não sei se nos veremos um dia novamente, mas pude registrar que conheci uma mulher negra forte e vencedora por viver com tão pouco.

Por fim, me volto novamente à pergunta que Lázaro faz em seu livro. “O que você tem feito para a comunidade negra?”. Quando o ator escreveu esse livro, certamente ele não imaginaria o impacto que isso teria na vida de algumas pessoas. Na minha, foi de peso. Aqui fica meu agradecimento a ele e à senhora desconhecida. Espero poder encontrá-la um dia e ouvir mais sobre sua rotina.

Com o livro acabei vestindo a pele de uma senhora que eu jamais tinha visto na minha vida. Para escrever essa obra, Lázaro Ramos provavelmente vestiu a pele de milhares de negros, inclusive a minha. Aprendi com o tempo que o empoderamento respinga nas pessoas da nossa cor, que com o tempo se molham sozinhas desse poder. E aí fico pensando, o quanto a resistência não encharca também, né?!

“Resistir é preciso, assim como reexistir”, conta Lázaro. E eu acho que nesse processo de reexistir, histórias negras precisam ser ouvidas, contadas, escritas e divulgadas. Precisamos ser vistos, passar a representatividade à frente, para que sejamos lembrados no futuro. Mostrar que nós não somos minoria, vivemos bem e seguimos lutando e dessa vez deixando histórias a serem contadas.

Indicações

O olho mais azul:

Em “Na Minha Pele”, Lázaro Ramos faz várias referências a esse livro da escritora negra Toni Morrison. O livro chegou ao Nobel com um enredo que se passa na década de 40, onde uma criança negra tem o desejo de ter olhos azuis para se sentir mais humana, igual às meninas loiras de sua idade. Durante a leitura, vocês encontrarão muitas questões raciais e alguns vestígios de relatos pessoais de Toni.

Sejamos todos feministas

O livro é da escritora nigeriana e militante feminista Chimamanda Ngozi Adichie , que aborda sua primeira relação com a palavra “feminista”, a descoberta do seu contexto e como ela passou a inserir isso em sua vida. E também, ela conta em alguns relatos pessoais a importância de todos reconhecerem a desigualdade de gênero, sejam homens ou mulheres. A obra foi baseada em uma conferência da TEDxEuston que ela participou, na África em 2002.

Por Letícia Marques, correspondente da Brasilândia/Cachoeirinha.
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