Dia do rap: 11 sons para você dar um play

Para celebrar o Dia Nacional do Rap, criamos uma playlist e indicamos alguns trabalhos inspiradores das nossas quebradas

Arte: Magno Borges/Agência Mural

“Rap é compromisso, não é viagem”, já cantava Sabotage. Seja para contar uma história, fazer uma crítica ou botar geral pra dançar, o rap é mesmo um som com compromissos. Nesse domingo (6), foi comemorado o Dia Nacional do Rap e para celebrar a data, fizemos uma playlist especial com sons inspiradores criados por poetas das mais diversas quebradas paulistas.

Além disso, convidamos nossos muralistas para contarem um pouco sobre raps e rappers que marcaram sua trajetória e falar sobre a importância desse estilo musical que reflete o cotidiano das nossas periferias. Confere aí!

1- Carlão Guerreiro da Leste e Dj Bibi — São Miguel — Part. Especial Liah Jonnes por Vander Ramos, correspondente de São Miguel

Carlos Alberto Alves Farias dos Santos, 44, é conhecido no cenário musical do extremo leste da capital paulista como “Carlão +1 Guerreiro da Leste”. O apelido revela a difícil jornada do artista para mostrar seu trabalho nos diversos palcos culturais que são montados na região.
Carlão está presente em todos os eventos musicais e é um dos mais conhecidos da lista de rappers da zona leste. Os moradores sabem que Carlão sobe nos palcos desde quermesse até grandes eventos organizados pelo Estado ou pela prefeitura.
Ele foi batizado de “Guerreiro da Leste” no final de 1999, quando deixou o grupo Conexão Local, que fazia um trabalho de hip-hop na vila Curuçá. Depois de um pedido de amigos, retornou aos palcos e acrescentou o lado guerreiro daquele que nunca desiste da luta.

2 — Leal & Saaier — Lobotomia por Paloma Vasconcelos, correspondente de Vila Nova Cachoeirinha

Esse som foi lançado pouco tempo depois que conheci a dupla. Lembro do Saaier dizer, em uma entrevista que fiz com ele, que lançariam um clipe com lances psicológicos, influência da faculdade — na época ele cursava Psicologia. Leal & Saaier são muito especiais pra mim e curto muito cada som deles. A história do Saaier foi o primeiro perfil biográfico que escrevi, no meu primeiro ano de jornalismo; quando vi que o trampo ficou bom, percebi que queria e poderia ser escritora. Com certeza esse perfil que me motivou a escrever meus dois livros.

3- Yzalú por Jariza Rugiano, correspondente de São Bernardo do Campo

Pelo rap, Yzalú encontrou uma forma poética também para combater o machismo, racismo e preconceito com pessoas com deficiência. Ela faz parte dessa tríade: é mulher, negra e com perna mecânica. Em seu primeiro disco — Minha Bossa é Treta — lançado em 2016, Yzalú faz uma mistura pesada e repleta de suingue entre o rap e outros ritmos como o samba, reggae e MPB. A artista é de São Bernardo do Campo, Grande SP.

Minha Bossa é treta
O título dessa canção é como um grito de guerra para enfrentar esse cotidiano enlouquecedor, algumas vezes injusto e volta e meia com relações mecânicas, não espontâneas. Quando chega nos trechos “A coragem desce com gelo e limão. Com gelo e limão, facilita a digestão… somos resultado de um produto fabricado. Bem selado, barras em código…”, a vontade é de cantar alto, independente de onde está. Sensações que belas músicas possibilitam.

Figura Difícil — part Sabotage

Esta é uma música que era inédita do rapper Sabotage. Além de citar o ABC, traz um trecho que, pra mim, representa o dia a dia de boa parte dos moradores das periferias, que é o de se virar nos 30”, de improvisar e aplicar o lado criativo para atender as diversas necessidades: “Senão parar para pensar, difícil será lucrar… Na zona sul, só tem figura difícil, quem não tiver ideias ficará no prejuízo”.
Além disso, é uma música que mesmo com violão e voz, mantém o rap como essência.

4 — RZO por Tayla Pinotti, correspondente da Freguesia do Ó

É difícil escolher um rap só que tenha marcado minha vida, mas vou falar do CD novo do RZO que está muito, muito bom, o “Quem tá no jogo”. Eles voltaram com tudo, um CD atual e bem foda.
Eu ouvia RZO quando era pré-adolescente e já achava foda. Quase 15 anos depois eles voltaram, se atualizaram nas batidas, mas mantiveram a essência e mesma ideologia. Recomendo fortemente pras galeras das periferias!

5 — Duck Jam e a Nação Hip — Hop — Colarinho Branco por Marcos Batata, correspondente do Morro do Macaco/Cotia

A letra dessa música, além de poderosíssima, foi e ainda é muito atual, se pensarmos na conjuntura política vigente e de qualquer tempo do país. Quando ouvi pela primeira vez, eu era um garoto de 11 anos, tenho 36 anos agora. Considero “Colarinho” melhor, em termos de letra, se comparada a todos os discos do Racionais, do primeiro ao mais recente. Respeito, gosto e, inclusive, escuto Racionais todos os dias… Mas “Colarinho Branco” é o melhor rap que já escutei, e duvido que isso vá mudar.

https://www.youtube.com/watch?v=f2hJHMMkoAs

6 — Fórmula Mágica da Paz — Racionais MC’s por André Persant, correspondente de Jardim Fontális

O que sempre gostei nos Racionais é a maneira como eles conseguem criar os cenários das periferias por meio de suas letras. Quase sempre a identificação é certa, seja na leste, na norte, na sul, ou na oeste. E, mais do que o ambiente, eles conseguem captar o antagonismo entre amor e ódio que é viver nas bordas. No meu ponto de vista, Racionais, quase sempre, é um convite pra pensar. “Descanse seu gatilho, descanse seu gatilho, entre no trem da malandragem e o rap é o trilho.”
P.S. — em tempo, é certo que os Racionais MC’s deviam rever sua letras sexistas.

7- Origame ZL por Jariza Rugiano, correspondente de São Bernardo do Campo

Gosto da música “Não tem preço” do rapper Origame ZL por ele cantar sobre um tema que geralmente está nas canções de rap, mas com sua perspectiva.
Ele fala dos momentos de superação para conquistar o que se busca a partir de muito trabalho
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Ela foi part. Drik Barbosa
Ele também tem uma música com a rapper Drik Barbosa, a “Ela Foi” (Parte 1 e 2) que tem uma batida menos pesada. Nessa vibe, mostra que o rap também tem um lado romântico ou momento fossa, depende de como você está se sentindo no dia rs.

8 — Quarta Dimensão (4D) — Zona Norte por Paula Rodrigues, correspondente da Vila Albertina/Tremembé

A história do Quarta Dimensão começa muito antes da criação do grupo. Gabriel Luglio (Gnomo), Lucas Henrique (Grone) e Diego Santos (Pardal) cresceram juntos na Água Fria, bairro da zona norte de São Paulo, e são os fundadores de uma das batalhas mais importantes da região, a Batalha do Tucuruvi. Meses depois, se juntaram para criar o grupo de rap Quarta Dimensão, que agora conta com um quarto integrante, o DJ Catatau. Na última sexta-feira (04), lançaram o clipe da música “Turma do Bairro”, que estará no novo EP do grupo.

9 — Gustrago — Anarcofunk por Tamires Tavares, correspondente de Guarulhos

O rap é a voz da resistência das periferias. É o seu grito num mundo que tapa os ouvidos para ela cotidianamente. “Anarcofunk”, do guarulhense Gustavo Mello, o Gustrago, é um discurso incendiário para levantar o ânimo de quem deseja mudança e novas alternativas, sem abandonar o “amor pela quebrada, pelo que ela reproduz”. Unido ao funk, que também compõe a trilha sonora das periferias, ele toca em questões políticas e sociais criticando abertamente o Estado. É, com certeza, um som que inspira a minha militância.

10 — BrisaFlow — As de Cem por Beatriz Sanz, correspondente de Diadema

Nós passamos grande parte das nossas vidas convivendo com mulheres fortes, líderes de família, que são a base da casa, principalmente no lado financeiro. E é por isso que BrisaFlow canta que “Nós queremos as de cem isso é nosso também!”. Brisa é uma rapper mineira de nascimento, com raízes chilenas mas que representa as quebradas da Zona Sul. Mãe solo, ela é uma representante de força das mulheres no rap.

11- Rimas & Melodias — Origens por Angel Pinheiro, correspondente de Mogi das Cruzes

O Rimas & Melodias é um grupo de cypher formado por 7 mulheres: Mayara Aldijan, Drik Barbosa, Tássia Reis, Tatiana Bispo, Karol de Souza, Stefanie Roberta e Alt Niss. As rimas do coletivo são uma união do rap, R&B e neo soul. O clipe “Origens” do 1º álbum que será lançado em agosto, fala de ancestralidade, espiritualidade e a história de onde cada uma veio. O hip-hop sempre foi um espaço muito machista e a presença dessas mulheres aponta para um fortalecimento e empoderamento das minas na cena do hip-hop.

Rapper Aruaque por Kátia Flora, correspondente de São Bernardo do Campo

Aruaque Mennufer Mahin, mais conhecido como rapper Aruaque Mahin deu os primeiros passos na carreira artística aos 10 anos compondo letras de rap. Mas foi com 17, que participou de eventos de hip-hop realizados em escolas públicas. Após adquirir experiência como compositor em alguns grupos, em 2006 junto com outros amigos formou o Grupo PIB (Poesia Interna Brasileira), onde se apresentou em Teatros, Casas de Cultura, Bares e em outros Estados do Brasil com um repertório que vai da MPB ao Blues.
O rapper fez participações com bandas de Reggae, Rock in Roll, Jazz e Samba, além da música, já atuou e escreveu trilhas sonoras de filmes e alguns cadernos de poesia.
Atualmente faz apresentações solo e parcerias com outros Mcs.

Especial produzido por Beatriz Sanz e Angel Pinheiro, correspondentes do Diadema e Mogi das Cruzes

Arte: Magno Borges, correspondente do Jaraguá

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