• Texto sobre algum tema específico em que há um posicionamento do autor com base em dados e na própria vivência do muralista.
    Opinião

Editorial: O vírus da desigualdade

Este é um editorial para você que nos lê, nos assiste, nos ouve, fala conosco, compartilha nossas histórias, envia sugestões-ideias-videos-áudios, nos apoia financeiramente, nos responde, vem nos visitar (quando isso era ainda possível). Queremos reafirmar aqui o compromisso da Agência Mural de Jornalismo das Periferias com você.

A crise da Covid-19, ou coronavírus, chegou para todos e todas ao mesmo tempo. Mas não chegou da mesma maneira. Ela amplia e amplifica o impacto das desigualdades socioeconômicas com as quais convivemos há séculos. Desigualdade que desde sempre, como sociedade, varremos para debaixo do tapete coletivo. 

Mesmo nesse tempo de distanciamento social, nós estamos perto de você, e repetimos que nosso objetivo como um veículo da imprensa independente se mantém: o de tornar as desigualdades mais visíveis para os poderes públicos, para quem não as sofre ou finge que não as vê, e para quem está ali, no cotidiano, lidando com elas (estes para terem a certeza que não estão sozinhos nem sozinhas). 

Ou seja, vamos continuar cobrindo esta crise do ponto de vista dos moradores e das moradoras das periferias.  

Crédito: Léu Britto/Agência MuralVivemos diariamente uma “compressão física” nos transportes públicos, nas casas e apartamentos, nas filas do cotidiano

Nosso site, gratuito e acessível pelo celular, e nosso boletim em áudio (o podcast Em Quarentena) especialmente criado para chegar mais perto de você por uma lista de Whatsapp, são fruto do trabalho dedicado, inteligente, criativo e ético de uma pequena equipe fixa e da colaboração de uma rede de correspondentes locais. 

Todos e todas vindos desses mesmos bairros onde a crise –sanitária e econômica– bate mais forte: as periferias. Comunicadores e comunicadoras que estão atentos a toda informação que possa ser útil para você e que, em algumas situações, pode ajudar a salvar vidas! Sim, salvar vidas!

Cobrimos os trabalhadores e as trabalhadoras que não podem ficar em casa, e tentamos fazer chegar a informação sobre como podem se proteger para não ficarem doentes e continuarem trazendo o pão nosso de cada dia.

Descobrimos as mentiras e as notícias falsas e contra-atacamos: publicamos fatos e dados, e compartilhamos, distribuímos e usamos nossas redes para ajudar você a tomar a decisão baseada em ciência, não no grito.

Nós também mostramos como as promessas de investimento em saúde pública não cumpridas colocam em risco 75% da população brasileira. E viva ao SUS (nosso Sistema Único de Saúde). 

Quando foi que, como humanidade, deixamos de defender o direito à saúde como universal? Quando foi que achamos quer ter disponíveis 2 leitos hospitalares para uma proporção de 1.000 pessoas era um número digno ou correto? Quando foi que perdemos a capacidade de fazer esse cálculo de forma coletiva?

Como já mostramos em algumas reportagens, o distanciamento social nas classes menos abastadas é muitas vezes impossível com famílias numerosas em casas pequenas

Vivemos diariamente uma “compressão física” nos transportes públicos, nas casas e apartamentos, nas filas do cotidiano, seja dos hospitais ou dos bancos (na esperança de um auxílio emergencial que não chega) ou dos pequenos negócios. Nosso compromisso é contar essas outras histórias justamente para não deixar ninguém de fora.

Democracia não se resume a organizar eleições periodicamente. Democracia significa que todo cidadão ou cidadã deve poder fazer suas escolhas com a mesma liberdade política, social e econômica. Isso significa, por exemplo, saber que haverá alguém preocupado em garantir um leito de UTI para qualquer doente se a Covid-19 pegar pesado.

Nós, na Agência Mural, sabemos que temos muito trabalho adiante. Nossa missão, enquanto se discute o “preço” ou o “custo” das medidas sanitárias e econômicas, é continuar a mostrar o “valor” de uma vida.

Redação

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias tem como missão minimizar as lacunas de informação e contribuir para a desconstrução de estereótipos sobre as periferias da Grande São Paulo.

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