Editorial: se divertir não pode ser risco de morte nas periferias

Sábado é dia de ir para alguma festa. É, em geral, o normal para quem é jovem e gosta de música e de dançar. Mas em São Paulo, esse é um direito que depende de onde você mora. 

Há uma ideia, incutida em boa parte da sociedade, de que quem está na rua de noite nas periferias não deveria estar ali. É perigoso. 22h é hora de estar em casa. 

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Ações policiais como a que ocorreu em Paraisópolis no fim de semana, e que vitimou nove pessoas desesperadas na corrida entre os becos da região, buscam reforçar essa ideia autoritária. Você mora aqui e não tem direito a esse tipo de diversão. 

Esses jovens têm que dormir cedo. Estar na rua a noite não é coisa de ‘gente de bem’. 

Usam como argumento alguns pontos. Um deles é que o pancadão incomoda moradores. É inegável que parte da população reclama dos barulhos no fim de semana no momento de descanso. Mas não é justificativa para um Estado que não garante o mínimo de condições barbarizar a vida dessa juventude. 

Há outros pontos permeados de preconceitos. Um deles é contra o ritmo. O funk. Escutado em todas as baladas da Vila Madalena, em festas do Morumbi, ou em qualquer canto rico da cidade. Ou do consumo de drogas, outro crime que depende do lugar onde você está na cidade para ser criminalizado ou não. Quantas batidas em busca de entorpecentes são feitas em baladas ricas da cidade? Ou em eventos com mais de 5.000 pessoas com esse nível de irresponsabilidade. 

Crédito: Vagner de Alencar/Agência MuralMais de 100 mil moram em Paraisópolis, na zona sul da cidade

O pancadão perto de casa não existe à toa. É a possibilidade de curtir perto de casa e sem gastar R$ 9 apenas para se deslocar – caso você encontre um ônibus de noite e não precise pagar mais R$ 9 de trem. Ele é um estímulo para pessoas que querem curtir e que vivem diferentes experiências de vida. 

Vão lá desde o jovem que trabalha o dia inteiro na semana e ainda vai para a universidade, a alguém que ainda não decidiu qual caminho tomará na vida. Afinal, são jovens. 

Mas estão se divertindo ali, naquilo que tem à disposição. É um crime?

A discussão que deveria se dar no campo de como atender melhor essa demanda dessa juventude nunca foi feita. O caminho que temos visto é sempre o da repressão do estado. Com resultados trágicos.   

A morte desses jovens de Paraisópolis escancara o que está nas entrelinhas: as periferias não têm direitos ou têm menos direitos de ser feliz do que outros lugares da cidade. Ela não é vista como parte da cidade, mas como um território de exclusão.

E não se trata de menosprezar o problema da segurança pública e o papel do policiamento. Mas, nestas áreas onde moramos, como podemos ver diferente?

Há algumas semanas têm se discutido o AI-5, Ato Institucional na ditadura militar que legitimou o terrorismo de estado, com sequestros, tortura, mortes e o desaparecimento dos corpos de presos políticos que foram assassinados. 

A discussão deve ser feita, mas vale ressaltar. O estado democrático sempre foi falho com regiões periféricas, onde o estado de exceção é praticamente diário. 

Vivemos um AI-5 todos os dias, quando se fala de segurança pública, quando jovens são encurralados em um beco e são agredidos por quem deveria protegê-los. As cenas dessa barbárie gravada em celulares de moradores que temiam pela vida levantam muitas perguntas sobre o caminho que a nossa sociedade tomou. 

Como pediram os moradores, a periferia quer paz. Não mais terror do que já é habituada a sobreviver diariamente pela falta de tantos serviços públicos.

Redação

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias tem como missão minimizar as lacunas de informação e contribuir para a desconstrução de estereótipos sobre as periferias da Grande São Paulo.

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