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“Eles passarão, NÓIS tâmo junto”

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Por Jéssica Moreira | 15.01.2016

Publicado em 15.01.2016 | 17:01 | Alterado em 02.10.2018 | 18:19

Policiais Militares durante protesto contra aumento da tarifa no centro de SP — Foto: Bianca Pedrina/Agência Mural

Vestidos de preto, armas e caras fechadas, eles caminhavam lado a lado conosco, em uma linha tão dura, mas tão dura, que os fazia se distanciar de seus próprios iguais.

Enquanto nós — do lado de cá — gritávamos juntos num só tom, eles continuavam apartados pela ponte invisível que nos separa. Eles continuavam encenando um filme no qual suas mentes foram absorvidas por um sistema anulatório.

Sim, eles se anulam enquanto cidadãos, eles se esquecem que depois de se despir da farda, das armas, não há colete que os blinde de pagar o preço que nós também pagamos. A cada esquina, dezenas deles, à espera da isca, de um alvo qualquer.

E sua marcha, ao nosso lado, é como um funeral. Afinal, como pode o sujeito negar a si próprio e mesmo assim continuar vivendo? Enquanto nós nos inundávamos pela energia dos instrumentos de sopro, de percussão, de guerrilha, eles continuavam com seus corpos fechados, caminhando a esmo.

São ensinados a terem fúria; senão nas mãos, nos olhos. Senão nas armas, nas palavras. Juram amor à farda, mas não ao povo E lá estavam em todos os lados, como se estivéssemos prestes a derrubar as torres de marfim de uma cidade que não se pode sequer circular.

Manifestantes em caminhada no centro de SP — Foto: Bianca Pedrina/Agência Mural

Estávamos encurralados de todos os lados. Sobre nossas cabeças um céu de helicópteros. Um, dois, três, quatro. Eu, que só conheço guerra de filme, por um instante imaginei estar em uma. Mas bastava olhar pro lado, lá estavam meus iguais outra vez, juntos, mostrando que, entre nós, não há violência, mas soma.

A gente soma a dor de não poder circular a cidade. Para ir ao trabalho, pra voltar da faculdade, pra sair de rolê. A gente se soma na dor de não ter 14 reais por dia, pra ir e vir da periferia para o centro. A gente se soma no olhar cansado, no grito ardido, de quem não tem como somar moedas para ir ao manifesto contra a passagem.

A gente se soma porque nossas pernas já não aguentam mais os trens, ônibus lotados. A gente se soma porque os socos que levamos são diários. A gente se soma, mermão, nas ruas, juntando conosco todas, todos, porque só na soma é que nossas vozes ecoam. No mais, eles passarão, NÓIS tâmo junto!

Jéssica Moreira, correspondente de Perus

[email protected]

O artigo reflete as opiniões da autora, e não da Agência Mural

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