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Em bairro de Suzano, moradores precisam caminhar três quilômetros para pegar ônibus

“Ir ao ponto de ônibus, à escola ou ao pronto-socorro é um desafio para nós”: moradores das estradas Tani e Oura relatam como é viver em ruas sem pavimentação e distantes do centro

Fernanda de Morais Leme, 29, teve que andar três quilômetros a pé com o filho recém-nascido no colo para pegar um ônibus, e levá-lo a um posto de saúde. “Ela estava com problemas de respiração”, conta. 

A caminhada foi na estrada Tani, onde ela vive junto com o marido e dois filhos pequenos. A via que não tem asfalto fica na Vila Ipelândia, bairro da periferia de Suzano, na Grande São Paulo.

A família dela não possui automóvel e para ter acesso a serviços básicos como escolas e hospitais é preciso caminhar três quilômetros até a área asfaltada. 

Assim como ela, cerca de 90 pessoas vivem na região e enfrentam diariamente obstáculos para ir do bairro a outras áreas do município.

A estrada Tani fica localizada a 12 km do centro de Suzano. O intervalo médio entre os ônibus que vão até o centro é de 25 minutos. “Ir ao ponto de ônibus, à escola ou ao pronto-socorro é um desafio para nós. Pois além de ter que andar, o ônibus demora”, relata Fernanda.

Desempregada, a moradora explica que a distância também atrapalha na procura de serviço. “Já pedalei mais de dez quilômetros até o centro para entregar currículos. Não fui de ônibus, porque estava sem dinheiro para pagar várias passagens”, conta.

O filho mais velho de Fernanda, José Ricardo, 10, estuda na escola estadual Robert Bianchi. Ele usa um serviço de transporte disponibilizado pela prefeitura até a escola mais próxima. Porém, quando a estrada está em más condições devido à chuva, os alunos têm que caminhar até a entrada da rua. Em razão do risco de atolamento, os ônibus e as vans não percorrem todo o trajeto.  

SEM AUTONOMIA

Uma das vizinhas de Fernanda é Joseane Batista da Cruz, 40. Desempregada, ela mora na estrada junto com o filho e os pais. Apesar de possuir veículo próprio, relata que o isolamento interfere na própria autonomia. “Estou procurando emprego, mas fico limitada apenas a serviços mais próximos. Tenho medo de me afastar muito e deixar meus pais sozinhos e isolados”, explica. 

Antes de ficar desempregada, ela trabalhou à noite em um supermercado no centro de Suzano. Porém, deixou o emprego após ser seguida por um motorista de caminhão enquanto voltava a pé na estrada. Na época, não tinha carro. “Hoje já existe iluminação na rua, mas alguns anos atrás tinha pontos muito escuros”, conta.

Ela é filha de Francisco Batista da Cruz, 81, um aposentado que não troca de endereço por nada. Nascido na região, ele é o morador mais antigo da estrada Tani. Sempre trabalhou nas chácaras da região e gosta da tranquilidade do local. No entanto, reconhece as limitações. “Aqui é muito calmo e consigo viver na tranquilidade. Mas se não fosse pela minha filha, seria bem difícil”, conta.

Crédito: Renan Omura/Agência MuralMoradora da estrada Tani Joseane Batista, 49, lamenta o isolamento do local

Devido ao serviço de restauração realizada pela Prefeitura de Suzano em setembro, atualmente a estrada encontra-se em condição regular, embora sem pavimentação. Os moradores relatam que em temporadas de chuva, os buracos e as valetas formam-se rapidamente devido o escoamento de água. Os residentes cobram o asfaltamento da estrada.

A dificuldade de locomoção não é apenas de quem mora na rua. Magnólia Siqueira dos Santos, 48, trabalha como doméstica em uma das casas localizadas no final da estrada. Após descer no ponto de ônibus, ela caminha os três quilômetros de extensão até a residência onde presta serviços.

Para ela, o maior desafio são os dias de chuva, devido os pontos que alagam. “Quando chove muito, a lama gruda no sapato e fica muito pesado para andar. E nos pontos que alagam eu tenho que dobrar as calças e andar descalça”, conta

Os moradores da estrada do Oura, localizada ao lado da estrada Tani, também enfrentam os mesmos desafios. A aposentada Rosa Manzoni, 67, lamenta o difícil acesso. Ela mora com o marido e não possui automóvel.

“Para fazer compra precisamos chamar um motorista de aplicativo. Como aqui é isolado nem todos vêm nos buscar. E quando vem, sai bem caro”, lamenta.

Crédito: Renan Omura/Agência MuralFrancisco Batista da Cruz, 81 e a esposa no quintal de casa

Diferente da estrada Tani, a estrada do Oura não recebeu os serviços de tapa-buraco da Prefeitura. Segundo as pessoas que moram no local, já faz mais de dois anos que a rua não é revitalizada. Para amenizar os buracos, os próprios moradores realizam a manutenção da via. 

Com cerca de 5 km de extensão, a estrada dá acesso para a rua do Paiol e ao bairro Jardim Nova Ipelândia.

Para a dona de casa Maria Helena, 54, seria fundamental que a região se tornasse parte do itinerário das linhas de ônibus. “Na eleição passada, nos prometeram até construir um pronto-socorro e uma base da polícia na Vila Ipelândia, mas só ficou na conversa”, lamenta.

AINDA EM ESTUDO

De acordo com a SMTMU (Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana) de Suzano, as estradas do Tani e do Oura estão em etapa de estudo para a realização dos serviços de asfaltamento, porém não há previsão para o início da pavimentação. 

A pasta também diz que a implantação de pontos de ônibus é antecedida de estudos que analisam a viabilidade operacional. No caso da estrada Tani, por ser uma rua sem ligação, as possibilidades precisam ser avaliadas. 

Questionados sobre as reclamações feitas pelos moradores da estrada Oura, a Secretaria de Manutenção e Serviços Urbanos de Suzano, solicitou que os moradores requisitassem um novo serviço de cascalhamento e nivelamento para a recuperação das vias. 

Renan Omura

Jornalista, correspondente de Suzano desde 2019. É autor do livro-reportagem Caputera: chacinas em Mogi das Cruzes e finalista do 12° Prêmio Santander Jovem Jornalista. Apaixonado pela escrita, acredita que a comunicação é uma ferramenta para diminuir as lacunas sociais.

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