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Em Itapevi, grafiteiras exaltam protagonismo da mulher em galeria a céu aberto

West Side Gallery contou com 17 artistas que pintaram 435 metros lineares em um projeto de revitalização

Quando Kelly Taciane Santos Reis, 34, tinha seis anos, ela e a família se mudaram do interior de Minas Gerais para o distrito Pedreira, na zona sul de São Paulo. em busca de mais condições de estudo e trabalho. 

Ainda criança, começou a perceber que a cidade poderia oferecer mais do que isso e a reparar na arte presente nos museus e grafites

Com o tempo, a relação de apenas apreciadora foi mudando e ela se deu conta que poderia também atuar e mudar os espaços urbanos por meio da sua própria arte. 

E foi justamente isso que ela e mais 16 artistas fizeram em Itapevi, cidade da região oeste da Grande São Paulo, na segunda edição da West Side Gallery.

Inspirada na Est Side Gallery, de Berlim na Alemanha, a versão da galeria em Itapevi foi criada para revitalizar o Corredor Oeste, na parte central de Itapevi, antes uma região deteriorada. A primeira etapa, no ano passado, envolveu 18 artistas que grafitaram 630 metros lineares.

Kelly trabalhando em seu mural na West Side Gallery 2, que também contou com a ajuda da artista Vitcha Matos. Para Kelly, ainda existe machismo com mulheres grafiteirasInstagrafite

Nesta segunda edição, realizada no final de julho, foram convidadas apenas mulheres, entre moradoras de Itapevi e da Grande São Paulo, que grafitaram 435 metros lineares com diversos temas e estilos. A prefeitura afirma que os custos foram bancados pela iniciativa privada (ao todo são mais de 5 mil metros², segundo os organizadores). 

Nas novas obras, estão presentes mensagens de força, união, irmandade e ancestralidade. “As pessoas ainda não normalizaram que [as mulheres] também podem ser artistas e grafiteiras”, opina Kelly, que além do grafite também faz esculturas, pinta telas e atua como arte educadora para alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) em uma escola municipal da zona sul.

“É preciso enfatizar que as mulheres são tão boas na arte quanto os próprios homens, que podem falar sobre o próprio corpo, que podem elas mesmas se representarem, que nem sempre precisam estar em um lugar de objetificação”.

É uma galeria a céu aberto que incentiva pessoas que querem começar a fazer arte ou que já estão nesse caminho”, ressalta Ana Carolina, 33, conhecida como Ana Mandalas. 

Ana quis representar no muro mandalas coloridas para transmitir alegriaInstagrafite

Artista e moradora de Itapevi, Ana também foi um das artistas convidadas e atualmente trabalha com artesanato e faz pinturas decorativas. Escolheu reproduzir mandalas coloridas. 

“Quis transmitir alegria após todo esse transtorno que a gente está passando com o vírus e com a economia. Sinto que as pessoas estão tristes e desanimadas e quis deixar um sinal de alegria no muro”. 

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MACHISMO E  REPRESENTATIVIDADE 

Com obras mais surrealistas, o trabalho de Kelly tem inspiração no sonho e nas vivências femininas, misturando também simbologias religiosas e espirituais. Para a artista, apesar de uma aparente melhora lenta, ainda há machismo na cena da arte de rua. 

“Sempre penso que para ser uma mulher, não só no grafite, mas em qualquer outra coisa que você decida fora dos padrões, é preciso ter muita coragem e  ficar se provando o tempo todo e também provando para os outros que você é boa e capaz”.

Apenas mulheres participaram da West Side Gallery 2. Dezesseis artistas, entre moradoras de Itapevi e da Grande São Paulo, foram convidadas. Foto: divulgação prefeitura de ItapeviInstagrafite

Ela relembra inclusive de ocasiões em que já foi xingada por palavrões de cunho machista enquanto trabalhava ou ainda de participar de eventos de grafite com vários artistas homens e poucas mulheres. 

“Por mais que as mulheres estejam ocupando os espaços do grafite e da arte, ainda não se usam mulheres como referência. Quando lembram de alguma referência artística, sempre citam um homem”. 

A artista conta que quando diz que é grafiteira, algumas pessoas costumam compará-la a Eduardo Kobra, artista brasileiro conhecido por seus murais coloridos. “Não sou tipo ele e também existem outras mulheres no grafite”, ela costuma responder. “Você já ouviu falar da Criola já ouviu falar da Magrela?”, citando apenas dois exemplos de mulheres artistas reconhecidas no grafite no Brasil.

Tuka e sua obra na West Side Gallery 2. Moradora de Itapevi, a artista trabalha com personagens autorais em suas composições.Instagrafite

Quem também já passou por situação de machismo foi Tuka, 32, nome artístico de Aline Ribeiro. Moradora de Itapevi há mais de 25 anos, ela conta que começou a ter contato com a arte ainda na escola, onde também se descobriu artista. “Sempre foi complicado pra mim. Comecei a pintar muito nova. Além do machismo, eu tinha que saber lidar com o assédio”, relembra. 

Além de grafiteira, Tuka faz artesanato, trabalha com paredes internas e atua como arte educadora em escolas particulares e públicas do estado de São Paulo. Apesar dos episódios ruins, diz que o mais importante é lembrar a grandiosidade do trabalho das mulheres na arte. 

“A gente tem que se impor em tudo que fazemos, procuro sempre ignorar os comentários negativos, assédio não respondo, se vejo que a pessoa está mal intencionada, procuro me afastar, não colocar minha energia ali.  Fazer um bom trabalho é a melhor resposta”.

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Imagem da galeria
Obra de Tuka em Itapevi Instagrafite
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Galeria revitalizou corredor de ônibus na região Instagrafite
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Ação começou em 2019 Instagrafite
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Trabalho foi feito no final de julho Instagrafite
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Ação foi realizada por moradores de Itapevi e da Grande SP Instagrafite

Com inspirações de pop art, movimento artístico que teve o auge nos anos de 1960 nos Estados Unidos e se baseia na representação da cultura popular, Tuka utiliza personagens autorais inspiradas em cogumelos, com muita cor e traços expressivos. 

Segundo ela, o objetivo é transmitir uma mensagem leve para que as pessoas possam interagir.  “Com o tempo a gente vai fazendo o grafite e as pessoas vão te conhecendo pelo estilo. Mudo sempre os personagens mas a essência é a mesma”.

Para ela, ter um mural do tamanho dessa galeria feito só por mulheres foi muito bom para sua cidade e também para mostrar o talento das artistas.“É bom que as pessoas vejam que não é só uma menina que pinta, são várias mulheres e super talentosas. A energia que a gente conseguiu transmitir ali foi surreal mesmo”.

Ana Beatriz Felicio

Jornalista e correspondente de Carapicuíba desde 2018. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.

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