Agência de eventos oferece oportunidades para transexuais em São Paulo

“Eu sou atriz, cantora, dançarina e mais um monte de coisa”, diz Rubi de la Fuente, 33, ao se apresentar com um sorriso largo. Apesar do currículo, Rubi teve, por diversas vezes, dificuldades para conseguir um emprego formal, o que atribui ao fato de ser transexual.

Moradora de Itaquera, na zona leste de São Paulo, ela e a amiga Aline Ewbank, 30, também transexual, decidiram buscar um negócio próprio e criaram a agência Transmissão.

O projeto começou com o apoio de um amigo, que indicou parceiros e empresas que precisavam do serviço de eventos. O objetivo da parceria é oferecer trabalho para pessoas que, como elas, ainda sofrem discriminação no mercado por terem feito a transição de gênero.

“Teve um dia que pensei assim ‘não existe uma equipe trans produzindo eventos. Todas são heteronormativas.’ A gente podia fazer uma equipe assim. De produção até mestre de cerimônia em debates, festas e lançamentos”, relembra.

Victoria dos Santos foi uma das atendidas pela iniciativa (Lucas Veloso/Agência Mural)

O Transmissão nasceu em novembro passado e já ofereceu oportunidade de trabalho temporário para cerca de 60 pessoas. 

Uma das intenções das criadoras do projeto é gerar rotatividade para garantir que mais pessoas tenham experiências profissionais, além da remuneração. Cada evento é um grupo diferente envolvido nas funções.

A dificuldade de entrar no mercado de trabalho está ligada diretamente ao tratamento que transexuais têm no país. De acordo com levantamento da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 90% da população trans atua na prostituição como forma de sobrevivência. O Brasil também é considerado um dos que mais registra violência contra transexuais e travestis no mundo, com um assassinato a cada 48 horas.

Victoria dos Santos de Assis, 19, foi uma das convidadas a trabalhar em um evento produzido por Rubi e Aline. Após crescer em Guaianases, na zona leste paulistana, a jovem deixou a casa porque não foi aceita pela família. 

Atualmente ela mora em um centro de acolhida para mulheres trans, administrado pela Prefeitura de São Paulo na região central de São Paulo, quando conheceu o Transmisão. Depois da mudança, ela nunca teve emprego. “Recebi o convite [de trabalho]. Foi um dos melhores dias da minha vida”, afirma.

Victória relata outros episódios em que não conseguiu emprego, apenas por ter alterado o nome. “Já tentei em empresas, mas não aceitavam meu nome social mesmo com o currículo melhor. Eles [os empregadores] dizem que a política da empresa não permitia minha contratação”, recorda.

Com uma média de 12 eventos no mês, a dupla empreendedora quer investir em um site para que os interessados se cadastrem automaticamente. Hoje, contam com uma página no Facebook. Agora, elas buscam parcerias para realizar uma festa de celebração ao primeiro ano da agência.

“A gente sofre preconceito e por isso devemos procurar as nossas oportunidades. Classificam a gente como estatística. Só querem mostrar um lado negativo nosso. Isso faz com que nós criemos os nossos voos”, idealiza Rubi.

Lucas Veloso é correspondente de Guaianases
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