• Informações apuradas pela Agência Mural por meio de dados e entrevistas, buscando ouvir todos os lados envolvidos e seguindo nossa linha editorial.
    Notícia

Estrada das Varinhas fica meses alagada há mais de 30 anos em Suzano

Com aumento do nível da represa, via que leva ao bairro Chácara Duchen fica submersa durante meses e impossibilita a passagem de carros e pedestres
Estrada dos Varinha em Suzano alaga anualmente. Obra realizada no local não resolveu problema | Renan Omura/Agência Mural

Em 2017, Eliana Fernandes Rocha, 60, sofreu um princípio de infarto e teve que ser levada às pressas ao hospital, porém a estrada estava alagada. Sem opções de seguir o trajeto, o marido teve que dar a volta pelo caminho longo e percorrer 6 km a mais. “A distância poderia ter me matado”, afirma.

Ela mora no bairro Chácara Duchen, na periferia de Suzano, na Grande São Paulo. Para ir ao centro da cidade e ter acesso aos serviços básicos como pronto socorro, escolas e comércios, Eliana e os moradores têm que passar pela Estrada das Varinhas. No entanto, a pista costuma ficar alagada entre fevereiro e julho.

Neste ano, a estrada não ficou completamente submersa como nos anos anteriores, devido a estiagem. Porém em maio, dois trechos da via foram cobertos pela água e dificultou a passagem de pedestres e veículos, mesmo com uma obra realizada na via ano passado.

Apesar do problema não ter impossibilitado o acesso dos moradores, eles temem que a via alague integralmente.

‘Tenho medo da represa subir de novo e ficarmos isolados aqui em uma situação de emergência’, relata Eliana Rocha | Renan Omura/Agência Mural

O alagamento acontece quando o reservatório da Represa de Taiaçupeba atinge 65% da capacidade ou mais e a água ultrapassa o nível da pista. De acordo com os dados da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), a taxa de armazenamento atual da Represa de Taiaçupeba é de 56%

O bairro Chácara Duchen fica a 16km da região central de Suzano, mas com a via alagada, a distância aumenta para 22 km, pois os moradores têm que dar a volta pela Estância Tijuco Preto.

O aposentado Manuel Batista, 78, não tem carro e utiliza a bicicleta como meio de transporte. Quando a pista está submersa, tem que pedalar cerca de 11 quilômetros até o Distrito de Palmeiras para comprar os mantimentos de casa.

“É um descaso com todos nós. Moro aqui há mais de 30 anos e o problema continua”, afirma o aposentado.

Com o alagamento da estrada, outro problema é a demora dos ônibus, que também precisam dar a volta e parar em mais pontos – aumentando o trajeto em 30 minutos.

Manuel Batista diz viver o problema desde que chegou na região há 30 anos | Renan Omura/Agência Mural

Em abril de 2020, o Governo do Estado de São Paulo iniciou reformas nas ruas centrais no bairro Chácara Duchen e investiu R$ 4,1 milhões. Durante a obra, o DER (Departamento de Estradas de Rodagem) asfaltou as principais ruas do bairro, mas não fez o alteamento da Estrada das Varinhas. Com isso, os problemas com alagamento em períodos de chuva contínua.

“Com a obra do ano passado, achamos que eles iam elevar a pista, mas só asfaltaram e a dor de cabeça continua”, afirma Manuel.

Para o comerciante Emerson Luiz, 38, dono de uma mercearia, o principal obstáculo é a queda nas vendas. Quando a pista está alagada, o movimento cai e o comércio é prejudicado.

“As pessoas costumam alugar sítios nos fins de semana nessa região, mas por conta do aumento da distância, eles acabam desistindo e as minhas vendas diminuem”, relata.

Emerson vive na região e aponta impactos no comércio | Renan Omura/Agência Mural

A dificuldade de locomoção não é apenas de quem mora no local. O construtor civil Luiz Raimundo da Cruz, 48, mora em Mauá, na Grande São Paulo, e comprou uma propriedade no bairro Duchen. 

Após atravessar a pista coberta pela água, o carro começou a falhar e por pouco teve que levar ao mecânico. 

“Às vezes olhamos a estrada inundada e temos a impressão que a água está baixa. Quando tentamos atravessar, percebemos que não. Mas aí é tarde”, afirma.

Raimundo lamenta que o dinheiro investido pelo Governo do Estado de São Paulo, não tenha solucionado o problema. “O que adianta asfaltar a rua e não poder passar por causa dos alagamentos? É um dinheiro mal investido”, afirma.

Para o pedreiro Roberto Carlos, 45, a dificuldade é o gasto com combustível. Ele mora no centro de Suzano e vai ao bairro Chácara do Duchen diariamente para trabalhar em obras. 

“Tenho receio da pista alagar novamente e ter que gastar mais com a gasolina. Com o aumento nos preços, isso me prejudicaria”, relata.

1 / 5
Imagem da galeria
Governo do Estado de SP investiu mais de R$ 4 milhões em reformas na pista, mas o problema não foi solucionado Renan Omura/Agência Mural
2 / 5
Imagem da galeria
Estrada das Varinhas completamente alagada em março de 2020 Renan Omura/Agência Mural
3 / 5
Imagem da galeria
O pedreiro Roberto Carlos cita o receio de voltar a viver os problemas na região Renan Omura/Agência Mural
4 / 5
Imagem da galeria
A Estrada das Varinhas alaga entre março e julho Renan Omura/Agência Mural
5 / 5
Imagem da galeria
Estrada das Varinhas completamente alagada em março de 2020 Renan Omura/Agência Mural

EM ESPERA

O DER (Departamento de Estrada e Rodagem) afirma que a Estrada das Varinhas é um trecho vicinal e está sob a administração do município. Também explicou que a obra realizada em abril do ano passado, previa apenas a pavimentação das ruas do bairro e não incluía a elevação das Estradas da Varinhas. 

No entanto, a Prefeitura de Suzano diz que a estrada está sob gerenciamento do Governo do Estado de São Paulo. A pasta também destacou que está reforçando o pedido ao governo para iniciar a reforma, no entanto não informou um prazo previsto para o início da obra.

Renan Omura

Jornalista, correspondente de Suzano desde 2019. É autor do livro-reportagem Caputera: chacinas em Mogi das Cruzes e finalista do 12° Prêmio Santander Jovem Jornalista. Apaixonado pela escrita, acredita que a comunicação é uma ferramenta para diminuir as lacunas sociais.

Suzano

Comentários