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‘Exaustivo’: a vida de uma auxiliar de enfermagem na pandemia de Covid-19

‘Exaustivo’, auxiliar de enfermagem de São Bernardo narra rotina pesada na linha de frente da Covid-19

Depois de quase um ano na linha de frente do atendimento da Covid-19, a auxiliar de enfermagem Tulasi Karina Venutto Ramos, 30, já viu muita coisa. O caso mais triste do qual se recorda foi o de um paciente de 25 anos que deu entrada no hospital com falta de ar e pouco tempo depois teve uma parada cardíaca que o levou a óbito. 

“Fiquei chocada, porque ele era muito jovem. Algumas pessoas acham que só idosos estão sendo vítimas de coronavírus. A maioria são sim idosos, mas jovens também estão falecendo”, afirma a profissional que trabalha em um hospital particular em São Bernardo do Campo, ABC Paulista, na Grande São Paulo

Ela relembra um outro paciente de 30 anos, que ficou 10 dias internado (sem visitas, de acordo com o protocolo do hospital) e também não resistiu. “Quando a pessoa fica bastante tempo a gente conversa, faz parte da rotina dela. Depois você vê aquela pessoa falecendo por conta dessa doença, é triste”.

A unidade em que Tulasi trabalha atende atualmente somente atende pacientes contaminados pelo coronavírus em São Bernardo, cidade onde nasceu, estudou e constituiu família. 

Além das seis horas diárias de plantão, também atua como cuidadora noite sim, noite não, em uma residência terapêutica. “Realmente o que a gente vê na televisão é o que está acontecendo dentro do hospital. Na linha de frente é muito exaustivo, a gente não para”.

Tulasi conta que durante o plantão de seis horas no hospital tem 20 minutos de pausa para o café e o restante do tempo se divide entre cuidar de 3 a 5 pacientes. Porém, mesmo antes da pandemia trabalhar durante longas jornadas e em mais de um emprego já era rotina para alguns dos profissionais da enfermagem no  país.

Auxiliar de enfermagem em São Bernardo, Talusa relata um ano no atendimento à pandemia | Arquivo Pessoal

Dados da pesquisa “Perfil da Enfermagem no Brasil”, o maior estudo já feito na América Latina sobre o setor, realizado em 2013 pelo Conselho Federal de Enfermagem em parceria com a FioCruz, mostrou que 24% dos auxiliares e técnicos de enfermagem exerciam duas atividades remuneradas e que 23,6% trabalhavam de 41 a 60 horas semanais,  a maioria (35,7%) ganhava entre R$ 1.001 e R$ 2.000.

A pesquisa também mostrou que a maior parte do setor é formada por mulheres. Entre auxiliares e técnicos de enfermagem elas representam 84,7% e entre enfermeiros, 86,2%.

Para tentar entender como está sendo o dia a dia para esses rostos anônimos, majoritariamente femininos, que lidam diretamente com os pacientes da Covid-19 e, muitas vezes, moram nas periferias, a Agência Mural decidiu contar a história da Tulasi.

‘DOENÇA INGRATA’

Apesar de compreender a gravidade do coronavírus, Tulasi conta que nunca teve medo de contrair Covid-19, e que todos os testes que fez deram negativos.

Os cuidados com a higiene são bem rígidos para que não haja o risco de contaminação. “Somos muito bem treinados dentro do hospital para mantermos a paramentação, a lavagem de mãos, o uso de máscaras, de luvas”. 

A realidade de Tulasi não foi a mesma vivida por muitos profissionais da enfermagem durante a pandemia. Denúncias de falta de EPI’s básicos foram registrados pelo país e alguns profissionais ameaçaram até entrar em greve. 

De acordo com dados do Cofen, desde março de 2020 já foram registradas 564 mortes de enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem pela Covid-19, a maioria em São Paulo, onde ocorreram 87 óbitos. 

O número de mortes no setor vinha decrescendo desde junho do ano passado, porém apenas no primeiro mês de 2021 foram 47 mortes no país. O Cofen avalia que o aumento segue a tendência de alta nos novos casos de pessoas infectadas pelo coronavírus.

Aumento de casos também notado pela Tulasi em sua rotina. “Em novembro a direção do hospital chegou a reabrir o centro cirúrgico, porque os casos de Covid-19 tinham caído. De  repente, em dezembro, os casos voltaram com mais força ainda”. Ela conta que na semana da entrevista, houve mais de 20 óbitos. “Quando a gente achou que estava terminando, piorou”.

A profissional faz um alerta para aquelas pessoas que não estão se cuidando como deveriam. “Diria para as pessoas terem mais amor próprio, mais coerência para não vir parar em um leito por uma doença tão ingrata como essa”.

Talusa começou como auxiliar de limpeza | Arquivo Pessoal

DE AUXILIAR DE LIMPEZA PARA TÉCNICA EM ENFERMAGEM 

Filha de empregada doméstica e criada no bairro Parque São Bernardo, Tulasi cresceu brincando na rua, de pega pega e amarelinha.

O acesso ao curso  técnico veio depois de mais velha, quando atuava como auxiliar de limpeza em uma UBS e decidiu prestar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). “Vendo as pessoas atuar eu pensei, ‘quero estar ali também’, poder pegar a seringa, dar medicação, sempre achei bonito”, relembra. 

Com uma boa nota na prova, Tulasi conseguiu uma bolsa de estudos em uma faculdade particular. Naquela época, já era mãe da Kyssilla, agora com 11 anos, e a situação financeira começou a ficar complicada. 

“Quando deu três meses que eu estava cursando, comecei a ficar sem dinheiro para pagar a passagem. Eu tinha opção: a passagem para ir estudar ou uma fralda e um leite, não tinha ajuda do pai dela”, relembra. 

Depois de uns dias sem frequentar as aulas, Tulasi foi informada que havia perdido a bolsa e precisaria pagar o valor integral da mensalidade, o que era inviável.

“Fiquei três meses me organizando financeiramente, vendo o que era prioridade naquele momento ou não, aí voltei a estudar em outra escola”. 

Durante cerca de dois anos, enquanto conciliava os estudos ao trabalho de limpeza, Tulasi saia de casa às quatro e meia da manhã e retornava à meia noite, para repetir tudo novamente na manhã seguinte. Formada, trabalhou como cuidadora conciliando com a limpeza durante algum tempo. 

“Foram tempos difíceis, se eu tivesse deixado a fraqueza me tomar hoje em dia eu não estaria aqui, não teria evoluído. Para mim foi muito bom ter acreditado em mim e na minha vontade”. 

Integrante do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Tulasi conseguiu a oportunidade de ter um apartamento, também em São Bernardo, com parcelas que consegue arcar. Atualmente além da filha, divide a casa com o marido. 

“Não é fácil a gente largar filho em casa, minha filha vai fazer 11 anos e estou trabalhando sem parar desde os dois aninhos dela, eu mal a vi crescer. Mas é muito gratificante”. 

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Parte da motivação de Tulasi durante a pandemia, vem dos elogios ao seu trabalho e também do momento da alta em casos complicados.

Quando um paciente recebe alta, é feito o já conhecido corredor com as palmas da equipe. “Tem pacientes que ficaram entubados meses, vê-los voltando aos poucos a se movimentar e voltar para sua rotina é muito válido… depois de passar por uma coisa assim as pessoas voltam mais gratas com a gente”.

Para o futuro, a vontade da auxiliar de enfermagem é continuar estudando e ingressar em uma faculdade de psicologia. “Não consegui me inscrever no Enem esse ano, mas é isso mesmo que eu quero. Ser psicóloga para poder atuar ajudando as pessoas”.

Ana Beatriz Felicio

Jornalista e correspondente de Carapicuíba desde 2018. Curiosa, vive com a cabeça no mundo da lua. Gosta de conhecer pessoas e descobrir o que as motiva a acordar todos os dias. Apaixonada por novas aventuras, histórias, gostos e lugares. É daquelas que está sempre viajando, quando não fisicamente, com a ajuda de algum livro de fantasia ou de um bom filme.

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