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Falta de água é um dos desafios para combater Covid 19 nas periferias

Coalização pelo Clima recebeu 138 relatos de problemas com abastecimento de água em todas as regiões da capital desde começo da pandemia

Com duas crianças pequenas em casa, a rotina da Ana Lúcia Teixeira, 50, ficou mais difícil pela falta de água nas últimas semanas. “Aqui em casa somos em nove pessoas, sendo uma criança de 5 anos e outra de dois. Fica complicado manter a higiene que pedem para a gente ter”, conta a dona de casa e moradora do bairro Sobradinho, na zona norte de São Paulo.  

Por lá, o problema durou dias, após uma obra da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) ter sido realizada no local. “Tive que comprar um galão de água porque não tínhamos nem para beber. Recebi aviso no meu celular que íamos ficar sem água, mas mesmo assim é complicado se preparar”, ressalta. 

A situação foi normalizada, mas pelas periferias da capital e da Grande São Paulo, relatos sobre problemas no abastecimento têm sido comuns durante os primeiros meses da pandemia da Covid-19.

Morador lava mão com garrafa de água; higienização é uma das principais ações para proteção contra Covid-19Léu Britto/Agência Mural

Desde março, a Coalizão pelo Clima SP, grupo criado em 2019 por 80 entidades que atuam sobre os impactos das mudanças no clima, tem feito um levantamento com base em informação dos moradores. 

A pesquisa disponibilizada na internet recebeu relatos de problemas de 138 moradores da Grande São Paulo que informaram problemas no abastecimento desde o começo da pandemia. A iniciativa se tornou crucial, porque medidas como “lavar as mãos com frequência” se tornou ainda mais importante para proteção contra o vírus. 

O grupo afirma que a situação pode ser pior, pois há locais com pouco acesso à internet que não responderam ao formulário, que segue disponível na internet. Parte também não foi contabilizada porque faltaram dados no  preenchimento. 

A zona sul é a região com mais respostas, com moradores afirmando ter problemas há ao menos 12 meses. É o caso de Paraisópolis, onde parte da comunidade relata ser comum guardar água em baldes para conseguir passar por períodos sem água.

“Antes da Covid-19 aqui na minha residência tinha água o dia todo, só no período da noite que ficávamos sem água. Mas agora estamos ficando sem água o dia todo. Na verdade ela fica muito fraca e só chega em algumas residências mas muito fraca”, relatou um morador do Capão Redondo, que respondeu ao levantamento.

No começo de maio, regiões do extremo norte da cidade viveram situação parecida, com metade da semana sem água na Vila Zilda, Jardim Fontalis, Vila Airosa, Jova Rural e Filhos da Terra. 

Algumas pessoas relataram que foram avisados por SMS, outros no boca a boca, sobre as obras que seriam realizadas. 

“Meu marido e meu filho estão indo trabalhar todos os dias, pegam ônibus. E quando chegam, fazemos toda a limpeza das roupas e sapatos-lavando tudo de uma vez todos os dias”, ressalta Ana. 

Mãe de um bebê de quatro meses e meio, Fernanda Rodrigues Felisbino da Cruz, 32, orientadora sócio educativa, também teve que comprar água para beber e ainda cuidar da criança, sem ter o abastecimento.  

“Fiquei quase três dias sem água, é complicado porque estamos vivendo uma época que precisamos de água, como fica a limpeza, higiene?”, conta a moradora do bairro Recanto Verde. 

Recanto Verde na zona norte de São Paulo; bairros mais altos têm sofrido mais com falta de águaPriscila Gomes/Agência Mural

Em contato com a Sabesp, a empresa afirma que o abastecimento na zona norte de São Paulo foi normalizado, após a conclusão de manutenção em rede de água localizada na avenida Ari da Rocha Miranda com a rua Mário Lago, no Jaçanã. 

A companhia diz ainda que devido à complexidade dos serviços, foram necessárias três intervenções com a retomada do abastecimento gradativamente conforme os serviços foram sendo concluídos. 

Agente de promoção ambiental e morador do Jardim Filhos da Terra, Júlio Thiago Collino, 29, relata que as últimas semanas foram difíceis. “A UBS (Unidade Básica de Saúde) da região ficou sem água. O caminhão pipa chegou, encheu a caixa d’água do local e depois distribuiu para a população”, conta. 

“Carreguei muitos baldes de água para quem não tinha como sair de casa. É complicado manter a higiene, não tínhamos como lavar a roupa, somos em quatro pessoas em casa. E cuido de uma bebê”, explica a jornalista Barbara Evelyn de Almeida, 28. 

Um dos problemas vividos nos bairros é que o abastecimento costuma ser interrompido durante o período da noite em regiões mais altas. Para Barbara, a localidade onde vive foi um dos problemas para demora em resolver o problema.

De acordo com o site da Sabesp, a diminuição da pressão da água na região do Tremembé que faz parte dos bairros citados Jardim Fontalis, Jardim Filhos da Terra, Jardim Flor de Maio, é feito todos os dias das 23h até as 5h e é possível consultar pelo site da companhia.

Sobre os problemas de abastecimento, a Sabesp afirma que, conforme recomenda a norma brasileira ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), o imóvel deve ter caixa d’água que seja capaz de suprir o abastecimento por 24h. 

A empresa ressalta que para quem ainda não recebe mensagens via SMS sobre falta de abastecimento de água, é  necessário atualizar o cadastro. Basta entrar em contato pelos canais de atendimento aos clientes nos telefones 195 e 0800 011 9911 (ligações gratuitas), pela Agência Virtual no site www.sabesp.com.br ou pelo aplicativo da Sabesp para Android e iOS.

Priscila Gomes

Jornalista e desde 2011 é correspondente da Vila Zilda. Apaixonada por atividades físicas como crossfit, trilhas e corridas. É libriana com ascendente em leão, corintiana e ama gatos.

Vila Zilda, São Paulo

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