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Lohe Duarte/Agência Mural

Por: Lohe Duarte

Notícia

Publicado em 27.03.2026 | 10:10 | Alterado em 10.04.2026 | 14:31

Tempo de leitura: 5 min(s)

Há 15 anos, um grupo de jovens da Paróquia Nossa Aparecida, na Vila Nhocuné, distrito de Artur Alvim, zona leste de São Paulo, encontrou um jeito novo de falar de fé para os jovens. “A gente queria trazer os jovens da quebrada pra dentro da igreja, evangelizar através da dança”, conta Felipi de Oliveira, 30, um dos fundadores Família S.O.G (Soldiers of God).

O grupo usa a batida e a poesia do hip-hop como um instrumento de evangelização. Composto por David Carvalho, Emanuel Fernandes, Felipi de Oliveira e Otávio Henrique, eles desejam mostrar que a linguagem de resistência das ruas também é uma ferramenta de fé.

O início ocorreu em 2010, durante a preparação para a Crisma (sacramento da igreja católica que confirma o batismo). “Depois que fomos em uma balada católica chamada ‘Cristoteca’, na região do Brás, e vimos uma galera dançando break, pensamos em trazer a ideia para nossa paróquia.”

Felipi, integrante do grupo Família S.O.G também é Mc, sempre convida o público para o break nas apresentações @Lohe Duarte/Agência Mural

Ao lado de Artur e Cassius, amigos que ganhou durante a preparação do sacramento, eles procuraram por um dos membros da equipe da Crisma e partilharam sobre o desejo de praticar breaking e ensinar quem quisesse se juntar a eles.

Otávio Henrique, 34, conhecido como Tavinho, levou a ideia dos meninos para o pároco responsável pela paróquia, Padre Marco Barbosa, e ele liberou o uso do salão da igreja para a prática de um dos elementos do hip hop, o break.

Quando começaram com o projeto, tudo era improvisado: um salão da igreja, um grupo de jovens e um sonho. O que começou com a dança, foi atraindo jovens com outros talentos, formando MC’s, B-oys e DJs.

O grupo fez a primeira apresentação no “Erguei-vos”, um encontro de jovens da paróquia que falava do amor de Deus, que ocorria duas vezes por ano. Após a divulgação, eles começaram a receber convites para participar de outros eventos parecidos.

Em 2013, Simone de Oliveira, 53, integrante da Pastoral Afro-Brasileira (grupo da igreja que tem o objetivo de valorizar as características e a cultura dos afro-brasileiros) convidou o grupo para se apresentar em um evento no Santuário Nacional de Aparecida.

No dia 9 de novembro de 2013, tornaram-se o primeiro grupo de rap a cantar na Basílica de Aparecida, um marco para o rap católico brasileiro.

Atualmente, eles não vão somente a eventos religiosos. Participam de programações culturais na Grande São Paulo, em saraus, ações em instituições de caridade e escolas.

O grupo foi convidado para se apresentar na escola do bairro, E.E. Profª Maria Augusta de Ávila, no projeto “Qual é o seu talento?”, do professor Igor Pop. Lá conheceram CJ (Hebert Costa), do grupo Afro Black. “Tínhamos o mesmo propósito: usar o rap pra mudar vidas”, conta. A parceria se fortaleceu ao longo dos anos.

Grupo Família S.O.G se apresentando na Vila Nhocuné, zona leste de SP @Lohe Duarte/Agência Mural

“Tive momentos de desânimo, mas CJ foi peça-chave para eu não desistir”, diz Tavinho. Em 2016, juntos, se apresentaram em um grande evento da região, ampliando a visibilidade do trabalho.

As músicas do S.O.G falam sobre o amor de Jesus, a intercessão de Maria, fé e o cotidiano das periferias. As canções alcançaram mais de 30 países através das plataformas digitais Spotify, Deezer, Apple Music e Youtube.

O trabalho da Família SOG também já revelou artistas para mundo. Gustavo Fagundes, 24, conheceu o grupo ao receber um convite na catequese (aulas preparatórias para receberem a eucaristia) e começou a participar das oficinas de dança.

‘Era muito ligado ao hip hop, nunca tinha frequentado muito menos visto na minha frente o movimento, a cultura, porém sempre assistia a DVDs do Michael Jackson e o Chris brown.

Gustavo, integrante do grupo Família SOG

Ele entrou ao lado de primos e amigos. “Aquilo foi mágico para mim, porque eu já era apaixonado pelo universo mas nunca vivenciei, de perto, ali na minha frente.”

Atualmente, ele é dançarino e modelo na Universal Studios, na China, somando grandes trabalhos como apresentações no Faustão, no Teatro Municipal em São Paulo e contratos internacionais na Turquia e no Egito. Antes de ser um artista internacional, ele era o “B-Boy Capoeira” apelido que ganhou durante as oficinas. “O S.O.G me ajudou a transformar o sonho em caminho”, diz.

Vidas e famílias

Para os integrantes, o grupo é mais do que rap. “A minha vida tem dois momentos: antes e depois da Família S.O.G. O grupo me ensinou a ser honesto, a buscar o que eu queria de forma justa, ele me salvou”, relata Tavinho, um dos membros mais antigos.

Ele reforça, assim como Gustavo, a potência do grupo na auto-estima dele. “Comecei a entender mais meu papel como jovem negro, como jovem periférico, entender o meu lugar no mundo.”

Tavinho com a família no Santuário de Aparecida @Arquivo pessoal/Divulgação

Hoje, ele é casado, pai e viu a importância do grupo se manifestar na próxima geração quando a filha, Maria Helena, 5, subiu ao palco de forma espontânea e disse: “Pai quero cantar com você”. “Meu coração explodiu de felicidade. Partiu dela”, relata o rapper.

David Carvalho, 28, que entrou na Família aos 16 anos, comenta que foi uma das vidas evangelizadas por eles. “Conheci os meninos na Crisma, e aquilo virou a chave na minha vida.”

O ponto de virada foi quando o pai, Henrique Ferreira, o viu no palco pela primeira vez: “Tínhamos uma relação difícil, ele não deixava eu cantar, achava que eu ia me tornar um vagabundo”, recorda David. Até o dia que ele viu o filho se apresentando, “não, esse aí é meu filho? Não, cara, esse moleque é sensacional, olha o que ele tá fazendo no palco!”

A partir dali, o pai, que era aquele “cara chato”, tornou-se o maior incentivador. Ele virou o motorista da Familia S.O.G, levava o grupo para as apresentações, passava madrugadas esperando o grupo durante os shows em outras cidades.

Henrique montou um estúdio na casa da família, com aparelhos arrecadados por ele, e fazia café para os ensaios. “Eu acho que, em tese, o S.O.G. também mudou a vida do meu pai, também foi o hobby dele”, diz David, emocionado.

Emanuel, filho de Regina, usou do rap para se aproximar da irmã e vencer a dor do luto @Lohe Duarte/Agência Mural

A força do S.O.G. também se manifestou na vida de Regina Fernandes, que perdeu a filha Sthéfany para o câncer, aos 17 anos. A filha amava o grupo e se identificava com a história de um dos integrantes da época, Felipe Moura, conhecido na Família S.O.G como Arcanjo MC. Os integrantes foram força e presença na vida de Regina para enfrentar o luto.

“Eles me sustentaram no luto, no processo de sair da depressão, síndrome do pânico e me deram força para viver”, lembra Regina, chamada de mãe pelos integrantes.

Esse laço se renovou 10 anos depois quando o filho de Regina, Emanuel, curioso para saber mais sobre a irmã, buscou histórias e momentos, chegando até ao grupo, e hoje é um dos MC’s.

“Tenho muito orgulho de falar pra todo mundo, que são da minha igreja, que tem uma grande missão, como soldados de Deus”, diz Regina.

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Lohe Duarte

Jornalista, Mestre de cerimônia e organizadora de eventos corporativos. Catequista na paróquia do bairro. Católica e mãe. Ama pessoas e histórias.

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ERRAMOS

27.03.2026O texto foi alterado para corrigir o nome Felipe para Felipi. Também para alterar Morsa para Arcanjo MC.

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