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Fechado há dois anos, Museu de Osasco tem futuro incerto

Em junho deste ano o Museu Dimitri Sensaud de Lavaud completará 45 anos, mas segue fechado; moradores cobram necessidade de reforma

Quem passa pelo número 4.001 da avenida dos Autonomistas, uma das principais vias de Osasco, na Grande São Paulo, pode ver, por entre as árvores, um imóvel centenário.

Trata-se do Chalé Brícola que abriga atualmente o Museu Dimitri Sensaud de Lavaud, mais conhecido como Museu de Osasco, cidade que nesta sexta-feira (19) completa 59 anos de sua emancipação político-administrativa. 

Fechado há quase dois anos, uma das últimas construções históricas da cidade vive um impasse sobre sua preservação. Além dos danos ocasionados pelo tempo, a indefinição sobre os próximos passos para conservação preocupa os moradores a respeito da memória do município.

A oficial administrativa Edileusa Malfetti, 53, trabalhou no Museu de Osasco de 2009 até março de 2019 quando o prédio foi fechado integralmente e os funcionários remanejados.

Atualmente supervisora da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, Malfetti conta que possui mais do que um apego profissional ao espaço cultural, possui um apego emocional. “Meu maior desejo antes da aposentadoria é ver aquele museu reestruturado, revitalizado e aberto ao público”, diz.

Museu completa 45 anos em 2021 | Ariane Costa Gomes/Agência Mural

Malfetti conta que não houve reforma e que as intervenções realizadas trouxeram melhorias que não foram suficientes para manter o local aberto. “Faltam políticas públicas e isso não é decorrente de agora. Não foi nessa ou naquela gestão, foi um acúmulo de abandono por várias gestões”, avalia. 

No final de janeiro do ano passado, a Secretaria de Cultura promoveu uma roda de conversa sobre o futuro do espaço. Realizada no museu, a conversa contou com a presença do até então secretário de cultura, Éder Máximo, representantes da pasta e moradores que opinaram sobre a situação e planos futuros para o chalé. 

Acostumado a visitar o espaço desde a fundação, o fotógrafo e jornalista Carlos Magno Cabral, 67, participou do encontro. Morador do Bela Vista, ele conta que perguntou, via grupo de Whatsapp criado com os participantes após o encontro, sobre avanços nos planos para o futuro do museu, mas não obteve nenhuma resposta.

“O museu exige cuidados como segurança para visitantes, elevador para pessoas com deficiência. Restauro das instalações, telhado, janelas, área externa, estacionamento com os cuidados necessários. Computadores para usuários fazerem suas pesquisas”, diz Cabral. 

MEMÓRIA EM RISCO

Para quem tiver interesse em conhecer o Chalé Brícola, foi lançado nesta sexta-feira (19) “Memória em Risco”, curta-metragem que mostra o interior do museu. 

As imagens foram feitas em 2018 pelo produtor de eventos e audiovisual Rafael Bittencourt, 36, em visita ao espaço para fazer um longa metragem. Durante a pesquisa para o filme Rafael notou a riqueza do material e o transformou em um longa metragem e uma websérie que integram o “Identidade: Oz”, projeto focado no resgate da memória cultural da cidade. 

“A primeira parte se tornou o curta “Memória em Risco” porque foi a maneira que encontramos de lançar o projeto, além de serem imagens urgentes, já que o museu permanece fechado e correndo sério risco”, conta. 

Morador do Jardim Santo Antônio, Rafael conta que já visitou o Museu várias vezes e que chegou a trabalhar lá durante alguns anos na Secretaria de Cultura.  

Fui responsável pelo departamento de eventos e acervo e uma das minhas atribuições era o museu. Não podíamos fazer muito pois, como é dito no filme, ele não possui orçamento nem para sua manutenção, nem para os cuidados necessários com o acervo”, diz.

“Memória em Risco” é o primeiro de uma série de 10 episódios com temas variados e está disponível no Youtube“O casarão é mágico. É pisar no interior do chalé e a gente é instantaneamente transportado para um outro tempo. Infelizmente o que nos deixa decepcionados é a maneira como nosso patrimônio histórico é tratado”.

A Agência Mural entrou em contato com a Prefeitura de Osasco. Sobre o encontro no ano passado, a gestão afirma que “o principal objetivo era levantar as demandas trazidas pela sociedade civil e contemplá-las em programas e atividades no equipamento, ressignificando e ampliando os atendimentos”.

No entanto, a gestão diz que “com o início da pandemia, não foi possível repetir o encontro e colocar em prática o plano de ação desenvolvido”.

Chalé foi construído em 1890 | Ariane Costa Gomes/Agência Mural

HISTÓRIA

Construído em meados da década de 1890 por Antonio Agú, fundador de Osasco, o chalé era de propriedade do banqueiro Giovanni Brícola. Anos depois abrigou o barão Evaristhe Sensaud de Lavaud e sua família. O filho dele, o engenheiro e inventor francês Dimitri construiu o primeiro avião fabricado inteiramente no Brasil

Dimitri Sensaud de Lavaud voou por 103 metros nas proximidades do Chalé Brícola a bordo do Aeroplano São Paulo no dia 7 de janeiro de 1910. Foi o primeiro voo da América Latina. Como homenagem, o museu hospedado no Chalé Brícola recebeu o nome do francês. 

Desde que passou a abrigar o museu em 30 de junho de 1976, o chalé já passou por algumas intervenções como um projeto de restauro de 2007 a 2009 e, anos mais tarde, pintura e pequenos reparos na edificação, mas nada que interferisse nas características arquitetônicas

Em 2017, o pavimento superior do chalé foi interditado pela Defesa Civil por problemas estruturais. 

O acervo foi criado por meio de chamamento público e de doações espontâneas de moradores. Nele constam documentos, obras de arte, fotos, livros e objetos que fazem parte da história da cidade, dentre eles o livro de receitas da primeira farmácia de Osasco. 

O impasse sobre esse espaço cultural é semelhante ao de outras ações na cidade. Em 2010, foi sancionada uma lei que previa a criação do Codepa (Conselho Municipal de Defesa e Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Cidade de Osasco). 

Entre as atribuições estava a deliberação sobre o tombamento de bens móveis e imóveis de valor reconhecido para a cidade e opinar sobre planos, projetos e propostas de qualquer espécie referentes à preservação de bens culturais e naturais. Porém, segundo o plano diretor, não foi efetivada a implantação por falta de decreto para regulamentar seu funcionamento. 

Questionada sobre o assunto, a Prefeitura disse que recentemente foi criado o Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural na Secretaria de Cultura e está em elaboração o planejamento de ações e estruturação do departamento.

“Por efeito da pandemia, estamos em fase de colher as indicações dos diversos órgãos municipais e da sociedade civil para composição do referido conselho conforme a lei 4402, de 11 de março de 2010”.

Ariane Costa Gomes

Jornalista, correspondente de Osasco desde 2015. Coautora do livro-reportagem "Além da Pele - Histórias de mulheres e suas cicatrizes. Ama ouvir música, ouvir rádio, conversar e ficar com as pessoas que ama.

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